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Estrangeiros ampliam apostas contra o real, mas ‘carry trade’ ainda segura o fluxo

Renata Nunes Por Renata Nunes
04/11/2025
Em INVESTIMENTOS E FINANÇAS

Os investidores estrangeiros aumentaram suas posições compradas em dólar em US$ 13 bilhões, refletindo maior cautela em relação ao cenário fiscal e político brasileiro. Apesar disso, o real ainda se beneficia do carry trade, sustentado pela diferença entre os juros domésticos e as taxas internacionais. O economista VanDyck Silveira avalia que o movimento reflete uma combinação entre fatores estruturais globais e a perda de confiança específica no Brasil.

Segundo Silveira, a preferência mundial pelo dólar permanece forte. “O mundo descobriu que o dólar é a alternativa. Não existe uma moeda capaz de rivalizar com os Estados Unidos neste momento”, afirmou. Mesmo com o avanço do ouro nas reservas internacionais, a dominância americana segue inabalável, e qualquer tentativa de substituição, como o uso de moedas asiáticas, permanece limitada.

Carry Trade: o movimento é global ou reflete um problema do Brasil?

Na visão do economista, há dois movimentos paralelos. O primeiro é estrutural, ligado à solidez do dólar e ao pragmatismo na relação entre Estados Unidos e China. Ele lembra que, apesar das tensões comerciais, as duas potências mantêm um “pacto de não agressão pautado na pragmática”, o que reduz a volatilidade cambial global. O segundo, entretanto, é local: o cansaço dos investidores com o Brasil e sua incapacidade de endereçar o desequilíbrio fiscal.

“Os mercados cansaram do Brasil. A situação fiscal é insustentável e o governo não demonstra sensibilidade para puxar o freio e fazer a arrumação necessária”, criticou. Silveira reforça que o país gasta mais do que arrecada e convive com uma dívida crescente, pressionada pelos juros elevados e pela ausência de cortes reais de gastos. Segundo ele, essa combinação torna o cenário de médio prazo preocupante, especialmente diante das eleições de 2026.

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Risco de inflação e juros altos por mais tempo

Silveira avalia que a taxa básica de juros dificilmente cairá de forma sustentável sem que haja um ajuste fiscal concreto. “Seria um erro cortar juros com uma estrutura fiscal gastadora. Isso resultaria em inflação”, disse. O economista estima que o país deve manter uma taxa Selic acima de 15% até meados de 2026, com inflação persistente acima de 5% e sem ancoragem até 2027.

Ele destaca ainda que a política monetária está ficando limitada diante da deterioração fiscal. “Vai chegar um ponto em que a política monetária perderá seu impacto, e o governo vencerá a retórica sobre o Banco Central. Isso pode levar a cortes de juros sem sustentação fiscal, gerando mais inflação.”

Credibilidade em xeque e manipulação das metas

Um dos pontos mais críticos levantados por Silveira é a manipulação das metas fiscais e o uso de manobras contábeis, como a exclusão dos precatórios das contas públicas. “Precatório é gasto. Dizer que não é, é mentira. Desde o início do governo Lula, já foram mais de R$ 400 bilhões fora da meta fiscal porque se achou que ela era difícil demais. Ao invés de abandonar a meta, mentiram para o mercado.”

De acordo com ele, esse tipo de distorção destrói a credibilidade do país perante os investidores. “O mercado entende quando o país não é sério. E o Brasil não está sendo sério com sua estrutura fiscal. O preço será pago na forma de desvalorização do real e saída de capital estrangeiro.”

Carry trade segue, mas sob pressão

Apesar da piora na percepção fiscal, o carry trade ainda mantém o real atrativo em comparação a outras moedas emergentes, sustentado pelos juros altos e pela liquidez local. Contudo, Silveira alerta que esse suporte é temporário e pode ruir diante de uma piora do quadro interno. “A venda de contratos futuros de real e o aumento das posições compradas em dólar mostram que os investidores estão se preparando para uma desvalorização consistente.”

Para o economista, a solução passa por um compromisso fiscal real, com superávit primário genuíno e não inflado por artifícios. “O Brasil precisa mostrar que é capaz de fazer o dever de casa. Enquanto isso não acontecer, o câmbio refletirá essa desconfiança e o país continuará preso a um ciclo de juros altos e inflação elevada.”

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