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Opinião: “a geopolítica do carro elétrico”

Marcus Vinícius de Freitas Por Marcus Vinícius de Freitas
02/01/2025
Em OPINIÃO

Ao celebrar os 75 anos, a China tem adotado uma política de maior inovação em sua indústria. Ao invés de “Made in China” (Feito na China), o país pretende liderar com o conceito “Innovated in China” (Inovado na China). A disrupção global resultante da ascensão dos carros elétricos chineses é impressionante, tem criado um desconforto crescente no Ocidente, especialmente nos Estados Unidos e na Europa, e adota este conceito de inovação. A qualidade e inovação dos veículos produzidos impressionam. Além disso, introduzem profundas transformações em setores estratégicos da economia global, a começar pela indústria automobilística tradicional, o mercado petrolífero, a geopolítica do Oriente Médio e até mesmo a hegemonia do dólar. Os veículos elétricos constituem um dos maiores fatores de mudança no tabuleiro global, desafiando a ordem estabelecida em 1945 e expondo as fragilidades do atual modelo econômico ocidental.

A indústria automobilística, historicamente dominada por marcas ocidentais, vê-se ameaçada pela capacidade da China de produzir veículos elétricos em larga escala com preços muito mais atrativos. A indústria ocidental, que por décadas se manteve como líder mundial, não tem tido a capacidade de contrapor-se na qualidade. E, para se manter competitiva, teria que realizar pesados investimentos em pesquisa e desenvolvimento, impactando lucros e desafiando sua estrutura corporativa.

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Os carros elétricos também afetam diretamente a indústria petrolífera global. Ao aumentar a sua adoção, a demanda por petróleo diminuirá significativamente. Isso afeta não apenas as grandes empresas de petróleo, mas também as economias dos países produtores, grande parte deles localizados no Oriente Médio. Essa região – como observamos atualmente nos conflitos que lá tem ocorrido – tem sido um foco contínuo de instabilidade geopolítica. Com a perda de relevância do petróleo, a região poderá ver seu poder de barganha e relevância econômica diminuírem à medida que o mundo se afasta do petróleo como principal fonte de energia. Com tal mudança, haverá a necessidade impositiva de reduzir a presença militar maciça dos Estados Unidos na região, colocando em xeque a estratégia norte-americana de defesa global e manutenção da hegemonia.

Com a perda de relevância do petróleo no cenário econômico global o dólar também se sente ameaçado. Há décadas, o petróleo é comercializado predominantemente em dólares, o que reforça a posição da moeda como a principal reserva de valor internacional. Com a queda da demanda por petróleo e a ascensão de novas tecnologias energéticas, essa dependência do dólar será enfraquecida. Com isto, o pilar fundamental da hegemonia dos Estados Unidos está ameaçado, especialmente num momento em que o país enfrenta enormes desafios morais e econômicos, desigualdades sociais e disputas internas em ascensão, afetando sobremaneira o seu futuro político e econômico.

Paradoxalmente, enquanto o Ocidente investe no discurso ambientalista, a China é o país que mais avança na questão ambiental, principalmente com a disseminação dos veículos elétricos. O argumento de que os carros movidos a combustíveis fósseis são responsáveis por grande parte das emissões de carbono será gradualmente enfraquecido com a popularização dos veículos elétricos. A redução da emissão de CO2 na atmosfera será positivamente afetada, esvaziando muito do discurso catastrófico – e os recursos – de muitas entidades voltadas ao meio ambiente. 

Para manter o status quo e impedir a ascensão do carro elétrico – ou pelo menor conter a rapidez e intensidade –  os fabricantes  e a China sofrerão diversas críticas para desqualificar os veículos elétricos chineses. Um exemplo é o argumento de que esses veículos poderiam ser usados como instrumentos de espionagem, já que coletam dados de navegação e comportamento do usuário. Contudo, essa preocupação parece exagerada, considerando que um simples smartphone tem uma capacidade de monitoramento muito maior que um veículo elétrico. Outra narrativa diz respeito ao impacto ambiental das baterias, que, de fato, ainda requerem melhorias, especialmente em relação ao descarte e à reciclagem. Mas da mesma forma os tanques de automóveis, os postos de gasolina e o descarte dos carros atuais têm um impacto ambiental muito mais significativo. Ressalte-se, ainda, que este é um desafio enfrentado por todas as indústrias de veículos elétricos, não apenas as chinesas.

Outros argumentos incluem preocupações com a autonomia dos veículos elétricos, a qualidade dos modelos chineses e as supostas vantagens desleais derivadas dos subsídios governamentais na China, além do baixo custo da mão de obra e das questões de direitos humanos. Esses pretextos para desacreditar a competitividade chinesa no setor, de fato, não alteram o curso de transformação na economia global. E tecnologias alternativas, como o hidrogênio, são frequentemente apresentadas como soluções mais promissoras, mas ainda se encontram em fases iniciais de desenvolvimento e não apresentam viabilidade comercial no curto prazo.

Os carros elétricos chineses representam, pois, uma das maiores reviravoltas no cenário global contemporâneo. Eles não apenas ameaçam a indústria automobilística ocidental, mas também desafiam a ordem econômica e geopolítica mundial. O Ocidente, ao invés de temer essa transformação, deveria abraçar a inovação e encontrar formas de competir e cooperar nesse novo cenário, onde a mobilidade elétrica desempenhará um papel central na definição do futuro. 

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