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Opinião: “Donald Trump e a desglobalização”

Marcus Vinícius de Freitas Por Marcus Vinícius de Freitas
05/02/2025
Em Análises, OPINIÃO

A política comercial adotada pelo presidente dos Estados Unidos (EUA), Donald Trump, durante seu primeiro mandato na Casa Branca, foi marcada por uma abordagem protecionista, com a imposição de tarifas sobre importações de diversos países, incluindo China, Canadá e México. Trump justificou essas medidas como uma forma de proteger a indústria americana e reequilibrar as relações comerciais dos EUA com o resto do mundo. Sua retórica frequentemente destacava o déficit comercial dos EUA, especialmente com a China, como um indicativo de que o país estava sendo prejudicado por práticas comerciais desleais. Entre as principais acusações contra Pequim estavam o uso de subsídios estatais, o furto de propriedade intelectual e a imposição de barreiras não tarifárias para dominar setores estratégicos, como tecnologia e manufatura.

Trump defendia que as tarifas eram uma ferramenta essencial para pressionar parceiros comerciais a renegociar acordos que considerava desfavoráveis aos interesses americanos. O Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (NAFTA), por exemplo, foi alvo de duras críticas por supostamente beneficiar mais o México e o Canadá do que os EUA. Como resultado, a renegociação do NAFTA levou à criação do Acordo EUA-México-Canadá (USMCA), que incluiu mudanças nas regras de origem e maior proteção à propriedade intelectual, atendendo parcialmente às demandas da administração Trump.

No início de seu segundo mandato, Trump manteve essa estratégia, reforçando sua visão do comércio internacional como um jogo de soma zero, em que o ganho de um país implica necessariamente a perda de outro. Essa perspectiva contrasta com a teoria econômica tradicional, que enxerga o comércio como uma relação de ganhos mútuos, na qual países se especializam em setores onde possuem vantagens comparativas, aumentando a eficiência global.

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A retórica protecionista de Trump enfatiza a redução do déficit comercial dos EUA e a recuperação de empregos para o país. No entanto, essa estratégia ignora os benefícios do comércio internacional, como o acesso a bens mais baratos e a diversificação da produção. Além disso, a imposição de tarifas gera retaliações, desencadeando um ciclo de medidas protecionistas que prejudica não apenas os países diretamente envolvidos, mas a economia global como um todo.

As tarifas impostas por Trump, no passado, tiveram custos significativos para os EUA e para o comércio mundial. Em primeiro lugar, o aumento dos preços das importações afetou consumidores e empresas americanas, que passaram a pagar mais por produtos como aço, alumínio e eletrônicos. Isso gerou inflação e reduziu o poder de compra dos cidadãos norte-americanos. Além disso, setores que dependem de insumos importados sofreram com a elevação dos custos de produção, perdendo competitividade no mercado global. Até mesmo a agricultura americana foi fortemente impactada, pois a China retaliou as tarifas impostas pelos EUA reduzindo suas importações de produtos agrícolas americanos, como a soja.

O impacto mais prejudicial das políticas tarifárias de Trump, no entanto, foi a incerteza gerada no mercado global. As tensões comerciais entre os EUA e seus parceiros criaram um ambiente de instabilidade, desestimulando investimentos e afetando o crescimento econômico mundial.

O Brasil, como um dos maiores exportadores de commodities agrícolas e minerais, pode ser afetado de diferentes formas pelas políticas tarifárias de Trump. No curto prazo, o país pode até se beneficiar das tensões comerciais entre os EUA e a China. Por exemplo, com as tarifas chinesas sobre a soja americana, os produtores brasileiros conquistaram uma fatia maior do mercado chinês, aumentando suas exportações. No entanto, esse benefício pode ser temporário, pois os EUA podem buscar alternativas para recuperar sua participação no mercado, inclusive pressionando a China a reduzir a dependência do Brasil e fortalecer o relacionamento bilateral com Washington.

Além disso, as retaliações chinesas contra os EUA podem afetar indiretamente o Brasil, dado que a China é o maior parceiro comercial do país. Outra preocupação é o impacto das políticas protecionistas sobre o crescimento global. Uma desaceleração da economia mundial pode reduzir a demanda por commodities, afetando negativamente setores estratégicos da economia brasileira, como mineração e manufatura.

A instabilidade comercial também pode provocar uma valorização do dólar, tornando as importações mais caras para o Brasil e pressionando a inflação. Adicionalmente, se os EUA adotarem tarifas contra parceiros estratégicos como Canadá e México, isso pode gerar um efeito dominó, levando outros países a adotarem medidas protecionistas. O Brasil, como uma economia dependente da exportação de commodities, pode acabar enfrentando mais barreiras para vender seus produtos no exterior.

A abordagem tarifária de Trump desconsidera os benefícios da globalização e da cooperação econômica. A imposição de tarifas gera custos elevados para consumidores e empresas americanas, e compromete o crescimento econômico global ao criar um ambiente de incerteza e instabilidade.

Para o Brasil, os desdobramentos dessa guerra comercial apresentam tanto oportunidades quanto riscos. Se, por um lado, o agronegócio pode ganhar espaço no mercado chinês, por outro, a instabilidade econômica global pode reduzir a demanda por exportações brasileiras e prejudicar setores-chave da economia. Diante desse cenário, o Brasil precisa adotar uma estratégia diplomática e comercial pragmática, buscando diversificar seus mercados e fortalecer parcerias estratégicas para minimizar os impactos negativos das políticas protecionistas americanas.

A desglobalização, defendida por Trump, não interessa a ninguém. Culpabilizar outros países pelos desafios internos dos EUA não tornará a América grande novamente. Pelo contrário, apenas agravará a fragmentação do comércio mundial, trazendo prejuízos para todas as nações envolvidas. 

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