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Escravos foram deixados por 15 anos em uma ilha após naufrágio de um navio francês

Larissa Por Larissa
12/01/2026
Em Curiosidades, ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Em pleno século XVIII, um naufrágio distante das principais rotas comerciais transformou uma pequena faixa de areia no oceano Índico em palco de uma longa espera por socorro. A ilha de Tromelin, quase ausente dos mapas da época, ficou associada ao abandono de pessoas escravizadas, à lógica do tráfico atlântico e a uma experiência extrema de resistência em meio ao isolamento, o que ainda hoje desperta o interesse de historiadores e arqueólogos.

Como aconteceu o naufrágio do navio Utile na ilha de Tromelin?

A história registrada de Tromelin começa na noite de 31 de julho de 1761, quando o navio francês Utile naufragou em um recife de coral nas imediações da ilha. A embarcação seguia de Madagascar para as Ilhas Maurício com suprimentos e cerca de 160 malgaxes comprados ilegalmente como escravizados.

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O choque contra os corais provocou a ruptura do casco, o afundamento rápido e a morte de parte da tripulação e de muitos cativos presos no porão. Os sobreviventes que alcançaram a estreita faixa de areia incluíam pouco mais de uma centena de europeus e algumas dezenas de malgaxes.

Escravos foram deixados por 15 anos em uma ilha após naufrágio de um navio francês
Uma ilha isolada no Índico foi palco de um naufrágio cruel e 15 anos de abandono

Como os sobreviventes organizaram abrigo?

Sem vegetação significativa, água doce ou solo fértil, Tromelin oferecia poucas alternativas imediatas de subsistência. Os restos do Utile tornaram-se a principal fonte de materiais, usados para erguer abrigos simples, separados entre europeus e malgaxes, e para cavar ao menos um poço de água salobra.

Com tábuas, tecidos, metais e blocos de coral, construíram uma embarcação de cerca de dez metros, batizada La Providence. Cerca de dois meses após o desastre, a tripulação francesa partiu rumo a Madagascar, levando apenas europeus e deixando cerca de 60 malgaxes com mantimentos limitados e a promessa não cumprida de retorno.

Por que o resgate dos malgaxes em Tromelin demorou tantos anos?

O abandono em Tromelin se explica pelo contexto político e militar da época, marcado pela Guerra dos Sete Anos e pelas prioridades estratégicas no oceano Índico. Os franceses que chegaram à colônia solicitaram um navio para resgatar os malgaxes, mas o pedido foi recusado pelas autoridades coloniais.

Considerados carga ilegal, os malgaxes foram preteridos em favor de rotas militares e comerciais. Décadas depois, algumas expedições tentaram alcançar a ilha, mas recifes afiados, mar agitado e mau tempo dificultaram o desembarque, até o resgate efetivo em 29 de novembro de 1776.

Com mais de 1,1 milhão de visualizações, o vídeo do canal Histórias Submersas narra o naufrágio do navio francês Utile e o abandono de dezenas de pessoas escravizadas na ilha de Tromelin:

Como os sobreviventes conseguiram viver em Tromelin por 15 anos?

Pesquisas arqueológicas mostram que o grupo desenvolveu estratégias sofisticadas de sobrevivência, combinando conhecimento prévio e adaptação ao ambiente hostil. A água foi obtida por meio de poços de água salobra e de estruturas para coleta de chuva.

As evidências materiais revelam práticas de subsistência, organização social e manutenção de tradições, que podem ser sintetizadas em alguns aspectos principais:

  • Alimentação baseada em peixes, moluscos, tartarugas marinhas, aves e ovos.
  • Abrigos feitos com blocos de coral, areia compactada e destroços do navio.
  • Reaproveitamento de metais para utensílios, ferramentas, pregos e uma pequena forja.
  • Manutenção de práticas funerárias e objetos pessoais de origem malgaxe.

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Qual é o legado da ilha de Tromelin para a memória da escravidão?

A história de Tromelin, conhecida como o episódio dos “escravizados esquecidos”, evidencia mecanismos de desumanização e hierarquização de vidas no mundo colonial. O abandono deliberado de dezenas de pessoas numa ilha quase deserta ilustra a lógica do tráfico de escravizados no século XVIII.

Após o resgate, as sete mulheres e o bebê sobreviventes foram levados às Ilhas Maurício e reconhecidos como livres, integrando-se à comunidade malgaxe local. Hoje, Tromelin é tema de estudos históricos, projetos arqueológicos e exposições que buscam preservar essa memória e discutir poder, violência e resistência na expansão marítima europeia.

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