Quem dirige pelas planícies vazias de Dakota do Norte pode achar que encontrou um cenário de filme alienígena abandonado. Erguendo-se do horizonte plano, uma pirâmide de concreto maciço domina a paisagem. Não é um monumento egípcio, mas sim a carcaça do projeto militar mais caro e efêmero da Guerra Fria, que custou o equivalente atual a cerca de R$ 186 bilhões.
O escudo impenetrável de concreto e aço
O complexo, batizado oficialmente de Stanley R. Mickelsen Safeguard Complex (SRMSC), foi projetado para ser o guarda-costas final da América. A estrutura, situada em uma área remota mapeada em registros geológicos oficiais, não era apenas um prédio, mas uma máquina de guerra integrada capaz de resistir a explosões nucleares próximas.
A engenharia por trás dessa fortaleza era o ápice da tecnologia da época. As paredes inclinadas de concreto reforçado abrigavam o “cérebro” do sistema: um radar de varredura eletrônica (Phased Array). Diferente dos radares giratórios comuns em aeroportos, este não se movia.
Em vez disso, ele usava cerca de 20.000 antenas fixas em suas faces. Controladas por supercomputadores, essas antenas podiam direcionar feixes de rádio em milissegundos, rastreando centenas de ogivas soviéticas simultaneamente.

A “Big Tech” e o arsenal de 100 mísseis
Para fazer essa pirâmide funcionar, o governo americano convocou gigantes como IBM e Bell System. O objetivo era controlar um arsenal de 100 mísseis interceptadores divididos em duas categorias estratégicas:
- 30 mísseis Spartan: Projetados para interceptação de longo alcance, destruindo ameaças ainda no espaço;
- 70 mísseis Sprint: Projéteis de aceleração extrema para defesa de curto alcance, capazes de atingir velocidades hipersônicas em segundos.
O dia em que a América desligou a tomada
A história do SRMSC tem um dos finais mais irônicos da engenharia militar. Após anos de construção frenética, o complexo foi declarado totalmente operacional em 1º de outubro de 1975.
No entanto, a realidade política mudou mais rápido que a construção. Apenas um dia depois, em 2 de outubro de 1975, o Congresso dos Estados Unidos votou pelo cancelamento do programa. Embora a desativação física e a retirada dos mísseis tenham levado alguns meses, o projeto estava politicamente morto apenas 24 horas após sua estreia.
A decisão foi baseada em dois fatores:
- Tratado ABM: Acordos com a União Soviética limitavam os sistemas de defesa, tornando a base estrategicamente irrelevante;
- Custo x benefício: Percebeu-se que era mais barato para o inimigo construir mísseis extras do que para os EUA construírem defesas para pará-los.

Ruínas de uma ambição bilionária
Hoje, a pirâmide de Nekoma permanece de pé. Após décadas de abandono, a propriedade chegou a ser vendida para a iniciativa privada por uma fração irrisória do seu custo original.
Para historiadores e entusiastas que visitam o local ou pesquisam em arquivos como o projeto SRMSC, a estrutura serve como um monumento fantasma. Ela é o lembrete físico de como a tecnologia de ponta pode se tornar sucata de concreto antes mesmo de ser usada.