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A base científica futurista na Antártida, construída sobre esquis gigantes, que foge sozinha das rachaduras de gelo

Laila Por Laila
15/03/2026
Em TECNOLOGIA E INOVAÇÃO

A base científica Halley VI é a primeira infraestrutura polar do mundo projetada para se mover. Operada pelo British Antarctic Survey (BAS) na Brunt Ice Shelf, no leste da Antártida, seus 8 módulos montados sobre pernas hidráulicas e esquis gigantes podem ser desacoplados individualmente e rebocados a dezenas de quilômetros de distância, e isso já aconteceu de verdade.

Por que as cinco bases científicas britânicas anteriores foram soterradas pelo gelo da Antártida?

A Halley VI não é a primeira estação britânica no local: é a sexta. As cinco anteriores foram soterradas e destruídas, algumas delas deliberadamente demolidas antes de serem engolidas pela neve. A Brunt Ice Shelf apresenta dois problemas simultâneos e devastadores para qualquer construção permanente.

O primeiro é o acúmulo de 1,5 metro de neve por ano, que soterra progressivamente qualquer estrutura fixa: a Halley I foi completamente engolida em menos de uma década. O segundo é a deriva da plataforma em direção ao mar a 400 metros por ano, arrastando tudo sobre ela e dando às estruturas fixas uma vida útil de aproximadamente 10 anos antes de chegarem à borda do gelo.

O segundo é a deriva da plataforma em direção ao mar a 400 metros por ano, arrastando tudo sobre ela e dando às estruturas fixas uma vida útil de aproximadamente 10 anos antes de chegarem à borda do gelo

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Como pernas hidráulicas e esquis gigantes resolveram dois problemas ao mesmo tempo?

Cada módulo da Halley VI é suportado por pernas que se estendem hidraulicamente. Quando a neve acumula ao redor da base, a equipe empilha neve sob as pernas e as estende, levantando o módulo inteiro 3 metros acima do nível acumulado. O design aerodinâmico facetado da carcaça de cada módulo contribui ainda mais: o vento que passa sob as pernas carrega a neve para longe, reduzindo o acúmulo abaixo da estrutura.

Na base de cada perna há um esqui que distribui a carga no gelo e permite o deslizamento quando a base é rebocada por tratores pesados. O processo anual de elevação segue estas etapas:

  • Monitoramento do nível de neve acumulado ao redor das pernas hidráulicas
  • Empilhamento manual de neve compactada sob cada perna para criar base de apoio
  • Extensão hidráulica das pernas, elevando o módulo inteiro acima do nível da neve
  • Verificação do nivelamento de cada módulo individualmente após a elevação
  • Reconexão dos corredores articulados entre os módulos após o ajuste de altura
Na base de cada perna há um esqui que distribui a carga no gelo e permite o deslizamento quando a base é rebocada por tratores pesados

A arquitetura modular da base científica: £ 25,8 milhões e 12 semanas de montagem

O projeto foi desenvolvido pelo escritório Hugh Broughton Architects em parceria com a AECOM após um concurso internacional lançado pelo BAS em 2004. Conforme documentado pela Archello, os módulos foram pré-fabricados na África do Sul e transportados de navio até a Antártida, com montagem concluída em apenas 12 semanas a um custo total de £ 25,8 milhões.

A estrutura é composta por 7 módulos azuis de 152 m² e 80 toneladas cada, contendo dormitórios, laboratórios e plantas de energia, mais 1 módulo central vermelho de 467 m² e 180 toneladas, o coração social da base com pé-direito duplo e áreas de convívio. Os módulos são conectados por corredores articulados, como as juntas de um trem, que permitem ao conjunto dobrar ao longo do trajeto durante o reboque.

Característica Halley I a V (bases fixas) Halley VI (base móvel)
Solução contra neve Nenhuma Pernas hidráulicas elevam 3 m ao ano
Solução contra deriva Nenhuma Esquis permitem reboque por tratores
Vida útil estimada Até 10 anos Indefinida (base realocável)
Destino final Soterradas ou destruídas Realocada 23 km em 2017
Os módulos são conectados por corredores articulados, como as juntas de um trem, que permitem ao conjunto dobrar ao longo do trajeto durante o reboque

A operação que rebocou a base científica por 23 km sobre o gelo antártico em 2017

Em 2012, uma fissura glacial que havia permanecido dormente por décadas começou a se movimentar em direção à estação, com risco de isolar a Halley VI em um iceberg à deriva no Mar de Weddell. O BAS planejou a realocação ao longo de três anos, com levantamento científico e preparações logísticas iniciadas no verão austral de 2015 – 2016.

No verão seguinte, os 8 módulos foram desacoplados e rebocados individualmente por tratores pesados ao longo de 23 quilômetros sobre a superfície de gelo, em uma operação que levou 13 semanas. O canal Deconstructed, com mais de 342 mil inscritos, produziu uma análise com animações 3D do mecanismo hidráulico, da história das cinco bases destruídas e dos detalhes da realocação, incluindo os sistemas de energia e o que a base representa para a engenharia espacial futura:

O que a base científica pesquisa na Brunt Ice Shelf que justifica estar lá?

A localização da Halley VI não é arbitrária. A base está posicionada diretamente sob o cinto de radiação de Van Allen, ideal para monitorar tempestades geomagnéticas e o clima espacial. Foi em Halley que cientistas do BAS descobriram o buraco na camada de ozônio em 1985, publicado na revista Nature, em uma das descobertas mais importantes do século XX.

A base opera com até 52 pessoas no verão austral e 16 no inverno, quando a temperatura cai a -56 °C e o sol não aparece por até 100 dias. Conforme reportado pela Revista FAPESP, uma nova crevasse com 7 quilômetros de extensão foi detectada nas proximidades em 2024, levando o BAS a iniciar preparações para uma segunda realocação completa.

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A Halley VI está fazendo o que nenhuma base científica polar anterior conseguiu

A infraestrutura projetada por Broughton e AECOM está cumprindo exatamente o que foi prometido em 2004: a cada nova ameaça glaciológica, a Halley VI responde com o que nenhuma das cinco versões anteriores tinha disponível. A solução não foi construir mais forte. Foi construir para se mover.

O que torna a Halley VI notável não é apenas a engenharia das pernas hidráulicas, mas a mudança de paradigma que ela representa: uma infraestrutura científica permanente que aceita a dinâmica do ambiente em vez de resistir a ela. É o mesmo princípio que pesquisadores já discutem para habitats na Lua e em Marte, onde o terreno também é incontrolável.

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