O debate sobre inovação, impacto social e uso de tecnologia ganhou destaque no programa Money Report, da BM&C News, ao reunir executivos de setores distintos, como agro, alimentação e tecnologia. Em comum, os convidados destacaram a necessidade de gerar valor agregado no Brasil, especialmente em cadeias produtivas ainda marcadas pela baixa captura de riqueza pelos produtores.
A discussão também evidenciou como tendências estruturais — como inteligência artificial, consumo consciente e digitalização — estão redesenhando modelos de negócio e abrindo espaço para novas estratégias, com foco em eficiência, escala e impacto econômico.
“Na verdade, o que ele faz? Ele identifica produtos brasileiros, que o Brasil tem muita vocação por causa dessa biodiversidade que a gente tem. E os nossos produtos muitas vezes são vendidos de uma forma desvalorizada”, afirma Ana Maria Diniz.
Valor agregado no agro brasileiro
Na avaliação de Ana Maria Diniz, fundadora da PovoLab, o Brasil ainda opera majoritariamente sob a lógica de commodities, o que limita a geração de renda nas pontas da cadeia produtiva. A proposta da empresa é atuar junto a cooperativas, principalmente de agricultura familiar, para profissionalizar processos e aumentar o valor final dos produtos.
Segundo ela, há um desequilíbrio regional relevante, com cooperativas mais estruturadas no Sul e menor nível de organização no Norte e Nordeste, regiões que concentram maior vulnerabilidade social. A estratégia passa por curadoria de produtos com potencial de escala e apoio à gestão, contabilidade e produção.
“A gente faz essas parcerias, identifica essas cooperativas e a gente entra na cooperativa como um parceiro mesmo, ajudando a profissionalizar a gestão, a contabilidade e os processos de produção”, diz Ana Maria Diniz.
Alimentação saudável e impacto na cadeia produtiva
No setor de alimentos, Rodrigo Carvalho destacou a mudança no comportamento do consumidor como vetor de transformação de mercado. Segundo ele, a Positive Company nasceu com o objetivo de gerar impacto positivo, combinando inovação em produtos com fortalecimento da cadeia produtiva.
A estratégia da companhia passa pelo uso de matérias-primas brasileiras e pela conexão com pequenos produtores, buscando capturar valor em uma etapa mais próxima do consumidor final e reduzir distorções históricas da cadeia.
“Nossa empresa chama Positive Company não por acaso. A gente nasceu com essa necessidade de trazer um impacto positivo para a sociedade”, afirma Rodrigo Carvalho.
Cadeias produtivas e desafios de intermediação
Apesar do avanço de iniciativas voltadas ao impacto, os convidados destacaram que a estrutura de intermediação ainda concentra grande parte da margem nas cadeias produtivas. No caso da castanha de caju, por exemplo, grande parte do valor não permanece com os produtores, devido à dependência de atravessadores.
Esse modelo limita a captura de valor por pequenos produtores e evidencia a necessidade de novas estruturas de organização, seja por meio de cooperativas mais eficientes ou soluções tecnológicas que conectem oferta e demanda de forma mais direta.
“Hoje a maioria do ganho não fica com os produtores. A gente não consegue comprar toda a matéria-prima desses pequenos produtores”, afirma Rodrigo Carvalho.
Tecnologia e inteligência artificial como vetor de eficiência
No campo da tecnologia, João Moressi destacou o papel da inteligência artificial na transformação dos processos produtivos e na eficiência das empresas. Segundo ele, o foco da tecnologia está migrando da experiência do cliente para dentro das operações, com ganhos de produtividade e retorno sobre investimento.
A possibilidade de automação, integração de sistemas e desenvolvimento mais ágil permite que empresas ganhem escala com menos recursos, além de reduzir o tempo de validação de novos produtos e soluções.
“A gente está vivendo uma era agora com a aceleração da IA, na qual você consegue trazer muito mais essa automação olhando nas empresas, olhando da porta para dentro”, afirma João Moressi.
Customização, produtividade e novas dinâmicas de mercado
Outro ponto destacado foi o avanço da customização em soluções tecnológicas. Com o uso de inteligência artificial, empresas conseguem desenvolver sistemas mais adaptados às suas necessidades específicas, reduzindo a dependência de softwares padronizados e aumentando a eficiência operacional.
Além disso, a tecnologia tem reduzido barreiras de entrada, permitindo que empresas menores tenham acesso a ferramentas antes restritas a grandes corporações, o que tende a aumentar a competitividade no mercado.
“Hoje em dia, uma pequena empresa já consegue sair com um aplicativo, um site ou alguma coisa em dois, três dias. Antigamente ela levaria meses até anos”, diz João Moressi.
Educação, IA e os desafios do futuro
No campo educacional, a inteligência artificial também surge como ferramenta de personalização do aprendizado. Segundo Ana Maria Diniz, modelos experimentais já utilizam IA para adaptar o ensino ao ritmo de cada aluno, combinando conteúdos técnicos com disciplinas voltadas à formação crítica.
No entanto, os convidados ressaltaram desafios importantes, como a necessidade de manter a motivação e evitar dependência excessiva da tecnologia, o que pode impactar o desenvolvimento cognitivo e a capacidade analítica das novas gerações.













