O avanço do petróleo, em meio à intensificação dos conflitos no Oriente Médio, passou a ocupar espaço central na leitura de risco dos investidores globais. Em entrevista ao programa Global Wallet, da BM&C News, Marcos Saravalle, CIO da Krivo Capital, avaliou que o choque recente nos preços mudou o debate sobre inflação, juros e alocação em investimentos internacionais.
Segundo Saravalle, o ponto principal não está apenas no pico do barril, mas na média que o petróleo poderá sustentar ao longo de 2026. Essa variável influencia diretamente a percepção sobre inflação, política monetária, apetite ao risco e desempenho das bolsas internacionais.
“A grande dúvida, qual que vai ser a média daqui para frente? Vai ser uma média de 110, é uma média de 90 ou uma média de 80? Isso muda completamente a percepção de risco, a inflação, taxa de juros, o apetite ao risco, as bolsas internacionais”, avalia Saravalle.
Bolsas seguem resilientes apesar da volatilidade
Apesar da pressão sobre o petróleo, Saravalle destacou que os ativos de risco ainda não foram contaminados de forma estrutural. As bolsas internacionais, incluindo os principais índices norte-americanos, seguem próximas das máximas, sustentadas por resultados corporativos e por uma atividade econômica ainda consistente.
Na avaliação do estrategista, o mercado tem oscilado conforme a percepção sobre a duração do conflito e o comportamento do barril. Quando o petróleo para de subir ou mostra acomodação, as bolsas tendem a recuperar parte do apetite ao risco, ainda que o ambiente tenha se tornado mais desafiador.
“A economia americana continua muito forte e é a que a gente, nós analistas, a gente fala, a gente está numa temporada de resultados muito boas, muito forte e isso continua impulsionando as bolsas para cima”, afirma Saravalle.
Juros nos Estados Unidos entram no radar do investidor
O cenário de petróleo mais alto também interfere na expectativa para os juros nos Estados Unidos. Antes da escalada geopolítica, o mercado discutia a possibilidade de uma ou mais quedas de juros ao longo de 2026. Com a pressão sobre energia e inflação, essa leitura passou a ser revista.
Saravalle afirmou que a postura dos bancos centrais continua sendo técnica e orientada por dados, tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil. Para ele, decisões de política monetária não devem ser interpretadas como movimentos voltados a agradar governos, mas como resposta ao comportamento da inflação e da atividade.
“O mercado descartou a queda de juros e a possibilidade de queda de juros nesse ano 2026 .E, coloca na conta, uma pequena queda de um final de 2027 lá nos Estados Unidos”, observa Saravalle.
Entrada na bolsa exige leitura de preço e comportamento
Com as bolsas próximas de recordes, o investidor que pretende iniciar uma posição em renda variável internacional enfrenta um dilema. A alta dos índices sinaliza resiliência, mas também torna mais difícil encontrar ativos com preços descontados.
Saravalle avaliou que existe um componente comportamental relevante nesse processo. Segundo ele, investidores tendem a buscar a bolsa quando os mercados estão subindo, ainda que a recomendação clássica seja comprar ativos quando estão mais baratos.
“Naturalmente, o investidor vai procurar o investimento em bolsa quando ela está subindo, né? Não, quando ela está caindo, embora os livros, todos os livros falam, compra quando está barato”, pondera Saravalle.
ETFs ampliam o acesso à diversificação global
No debate sobre estratégias de alocação, Saravalle citou os ETFs como instrumentos relevantes para investidores que buscam diversificação internacional. Ele afirmou que, em uma primeira alocação fora do Brasil, é comum montar portfólios com exposição a índices, renda fixa e setores específicos por meio desses produtos.
Entre os exemplos citados, o estrategista mencionou fundos ligados ao setor de defesa, que tiveram valorização em meio ao aumento das tensões geopolíticas. Para ele, esse tipo de ativo mostra como o investidor pode acessar temas globais que não estão disponíveis com a mesma profundidade no mercado brasileiro.
“Então, primeiro assim, o que é legal da Avenue e dos investimentos internacionais lá, é que a gente acessa de fato alguns ativos ou na verdade todos os ativos globais”, ressalta Saravalle.
Defesa passa a ser analisada como tecnologia
Saravalle observou que o setor de defesa não deve ser analisado apenas como um segmento bélico, mas também como um vetor de pesquisa e desenvolvimento tecnológico. Países como os Estados Unidos e economias europeias têm ampliado seus orçamentos de defesa, o que pode sustentar demanda para empresas do setor.
Na visão do estrategista, essas companhias apresentam características de previsibilidade porque dependem de contratos governamentais e investimentos contínuos em inovação. Esse perfil pode atrair investidores em busca de ativos menos sensíveis ao ciclo econômico tradicional.
“Elas são relativamente previsíveis dentro do mercado dela. E, elas são empresas de pesquisa, de tecnologia, estão sempre desenvolvendo novos produtos”, explica Saravalle.
Petróleo, Petrobras e ações globais de energia
Ao avaliar empresas de petróleo, Saravalle afirmou que parte relevante da alta do barril já foi incorporada aos preços das ações. Ele citou Petrobras e companhias globais do setor como exemplos de ativos que passaram a negociar em múltiplos superiores às médias históricas.
Para o estrategista, o investidor deve diferenciar exposição ao petróleo de concentração em risco local. Ao abrir conta no exterior, a busca por ativos globais pode envolver empresas internacionais de energia, e não apenas a reprodução de posições já existentes no mercado brasileiro.
“O que vale a pena, na minha opinião, é manter em portfólio, mas talvez não mesma intensidade, mesmo tamanho que a gente tinha nesses últimos dois meses”, analisa Saravalle.
Hard assets voltam ao centro da estratégia
Outro conceito destacado por Saravalle foi o de hard assets, ou ativos tangíveis. Em um ambiente de incerteza sobre tecnologia, inflação e juros, ativos como reservas de petróleo, minério de ferro, imóveis e infraestrutura passam a ganhar relevância na composição de portfólios.
Segundo ele, esses ativos oferecem uma referência mais concreta de valor porque não dependem apenas de expectativas futuras de crescimento ou disrupção tecnológica. Essa característica pode explicar parte da busca recente por empresas ligadas a commodities, energia e ativos físicos.
“Hard assets é uma reserva de petróleo. Aonde você encontra isso, uma reserva de minério de ferro, né? É um shopping center, é um imobilizado”, detalha Saravalle.
Alocação internacional exige diversificação e leitura de ciclo
A análise apresentada no Global Wallet aponta para um cenário em que o investidor internacional precisa combinar proteção, diversificação e leitura de ciclo. Petróleo, juros, defesa, tecnologia e hard assets passaram a compor uma mesma discussão sobre risco global.
Para Saravalle, o ambiente segue mais desafiador do que no início do ano, mas ainda sustentado por atividade econômica e resultados corporativos. A estratégia, nesse contexto, passa menos por movimentos concentrados e mais por entender quais ativos podem preservar valor em diferentes cenários de inflação, juros e geopolítica.

