Após os acontecimentos recentes na Venezuela, um fato que não havia ganhado destaque chamou a atenção: na semana da posse de Nicolás Maduro para seu terceiro mandato, partes de Caracas ficaram sem energia elétrica. O apagão coincidiu com relatos de sobrevoo de um avião militar americano, capaz de interromper comunicações e sistemas eletrônicos.
Embora não haja confirmação oficial de causalidade, o episódio ilustra uma nova realidade: ataques físicos modernos são precedidos e coordenados por operações cibernéticas que desorganizam estruturas críticas de países e organizações.
Ataque cibernético primeiro, físico depois
Nos conflitos modernos das últimas duas décadas: o campo de batalha digital antecede o físico. A lógica é antes de qualquer operação física, neutralizar a capacidade do adversário de se comunicar, coordenar defesas e manter serviços essenciais, com ataque a infraestruturas como energia, telecomunicações e redes. E somente depois avançar.
O primeiro caso documentado dessa estratégia ocorreu em agosto de 2008, quando a Rússia invadiu a Geórgia. Dias antes das tropas cruzarem a fronteira, ataques massivos derrubaram sites governamentais, bancários e de mídia. Enquanto tanques avançavam, o governo georgiano estava incapaz de coordenar defesas ou comunicar-se com a população. Segundo relatório da NATO (Cooperative Cyber Defence Centre of Excellence), essa foi a primeira vez em que operações cibernéticas e militares convencionais foram explicitamente coordenadas.
O padrão se repetiu de forma mais sofisticada na Ucrânia. Em dezembro de 2015, hackers russos executaram o primeiro ataque cibernético documentado contra uma rede elétrica nacional. Um malware desligou 30 subestações, deixando 230 mil ucranianos no escuro. Equanto sistemas eram comprometidos, ataques cibernéticos impediam que operadores se comunicassem e chamadas telefônicas falsas sobrecarregavam centrais de atendimento.
Em 2017, um novo malware, atribuído à Rússia pelo governo americano e agências de inteligência europeias, afetou fortemente a Ucrânia e causou US$ 10 bilhões em danos globais, paralisando empresas de logística, sendo classificado como “o ataque cibernético mais destrutivo e custoso da história”. O alvo inicial era localizado, mas o resultado foi contágio global.
Quando a invasão russa em larga escala à Ucrânia começou em fevereiro de 2022, ataques cibernéticos precederam bombardeios. Sistemas governamentais, infraestruturas de comunicação e redes elétricas foram alvos simultâneos de operações digitais e mísseis físicos.
Por que esse contexto geopolítico importa para as empresas
Organizações com infraestrutura crítica como energia, telecomunicações, transporte, logística, serviços financeiros, saúde podem ser alvo ou sofrer danos colaterais em conflitos.
O caso mais emblemático para o setor privado ocorreu em maio de 2021. Um ataque de ransomware paralisou a Colonial Pipeline, o maior oleoduto de combustível dos Estados Unidos, responsável por 45% do abastecimento da Costa Leste americana. O resultado foi pânico, filas quilométricas em postos de gasolina, declaração de emergência nacional e US$ 4,4 milhões pagos em resgate ao grupo criminoso.
Não foi um ataque militar. Mas o efeito foi estratégico com a desorganização de infraestrutura crítica, impacto econômico massivo e demonstração de vulnerabilidade sistêmica.
Ataques cibernéticos modernos não buscam apenas roubar dados, visam desorganizar, paralisar e criar caos para facilitar objetivos maiores — sejam eles militares, políticos ou criminosos.
O caso venezuelano expõe uma vulnerabilidade sistêmica: infraestruturas críticas foram projetadas para eficiência, não para resiliência diante de ataques coordenados. Historicamente isolados, esses sistemas foram conectados à internet para ganhar eficiência operacional, mas o problema é que essa convergência entre IT (Tecnologia da Informação) e OT criou superfícies de ataque massivas.
A European Union Agency for Cybersecurity (ENISA) alerta constantemente para o aumento significativo de incidentes cibernéticos em infraestrutura crítica nos últimos anos. No Brasil, que está entre os países mais afetados do mundo, o Centro de Prevenção, Tratamento e Resposta a Incidentes Cibernéticos do Governo (CTIR Gov) chama atenção para o crescimento nas tentativas de invasão a sistemas governamentais e infraestruturas estratégicas nacionais.
O ataque híbrido coordenado
O que torna ataques modernos particularmente perigosos é a coordenação entre vetores digitais e físicos. Um ataque híbrido típico costuma seguir uma sequência de etapas.
- Fase 1 – reconhecimento digital: meses ou anos antes, atacantes mapeiam redes, identificam vulnerabilidades, instalam backdoors e estudam operações.
- Fase 2 – posicionamento: malwares são instalados em sistemas críticos, mas permanecem dormentes, esperando o momento certo de ativar o ataque.
- Fase 3 – sincronização: no momento escolhido, múltiplos vetores são ativados simultaneamente como bloqueio das redes de comunicação, interrupção no fornecimento de energia, comprometimento de sistemas de backup, desinformação em redes sociais, sobrecarga dos canais de resposta.
- Fase 4 – exploração: com infraestruturas desorganizadas, o atacante executa seu plano principal que pode ser um ataque físico, político, econômico ou simplesmente com objetivo de provocar o caos.
Essa é a doutrina operacional moderna, documentada em conflitos reais e analisada por instituições como NATO, CSIS e Council on Foreign Relations.
O episódio na Venezuela é um alerta de que a linha entre conflito militar e ataque corporativo está desaparecendo. Empresas não são mais apenas alvos de criminosos buscando lucro, são peças em tabuleiros geopolíticos complexos, alvos de demonstração de força, danos colaterais em conflitos distantes ou vítimas de ataques coordenados que testam capacidades para conflitos futuros.
*As opiniões transmitidas pelo colunista são de responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente, a opinião da BM&C News.












