A economia americana abandonou os sinais claros e mergulhou em uma zona de ruído perigoso. O fechamento de 92 mil vagas em fevereiro não foi apenas um dado estatístico isolado; foi o alerta de que o motor do emprego, que sustentava a resiliência dos EUA, começou a perder tração. Com o desemprego subindo para 4,4%, Jerome Powell já tinha um cenário difícil nas mãos. Agora, a situação se tornou crítica.
O mercado está sendo surpreendido com uma forte alta no preço do petróleo. O corte drástico na produção anunciado pelos países do Golfo é um choque de oferta puro e simples. Se o mercado ainda alimentava a esperança de um “pouso suave”, esse salto no custo da energia enterra definitivamente essa tese. Não há como falar em controle inflacionário quando o principal insumo da economia global dispara desta maneira em poucas horas.
“O salto no preço do petróleo não é apenas uma oscilação de mercado; é o choque de oferta que enterra definitivamente a tese do ‘pouso suave’.”
Esse cenário técnico é agravado por um calendário político pesado. Em maio, termina o mandato de Powell, e o governo de Donald Trump já sinalizou que quer um Fed mais alinhado aos seus interesses. A indicação de Kevin Warsh é um recado claro: o Salão Oval exige juros baixos para conter o desgaste político gerado pelo custo de vida. No entanto, o Fed está asfixiado. De um lado, precisa cortar juros para evitar que a recessão se aprofunde e comprometa o cenário político. De outro, o petróleo em forte alta é inflação na veia, o que tornaria qualquer queda de juros um movimento temerário.
Para completar o cerco, o mercado financeiro já mostra sinais de desconfiança. Os yields de 10 anos em 4,17% revelam que o investidor exige um prêmio de risco cada vez maior para financiar o déficit americano em meio a tamanha incerteza.
“O Fed está asfixiado: ou ignora a inflação para salvar a atividade e o emprego, ou mantém o aperto monetário e empurra o país para uma recessão profunda.”
Para quem acompanha o sistema financeiro há décadas, a volatilidade atual é o sintoma de um mercado que perdeu a bússola. Quando o desemprego sobe e os custos de energia saltam simultaneamente, a margem de manobra do Banco Central desaparece. O risco real para 2026 não é apenas uma desaceleração técnica, mas um aperto operacional severo. Com o custo do dinheiro elevado e os insumos energéticos disparando, diversos setores produtivos simplesmente perdem a rentabilidade. O capital fica caro, a operação torna-se inviável e o investimento trava.
“O risco real é o aperto operacional: quando custo de capital e energia sobem juntos, a rentabilidade do setor produtivo simplesmente desaparece e o investimento trava.”
É esse o estrangulamento que o Fed precisa evitar, mas suas ferramentas tradicionais são ineficazes contra choques de oferta externos. A reunião dos dias 17 e 18 de março será o momento da verdade. Ou o Fed aceita o risco inflacionário para tentar salvar a atividade e o emprego, ou mantém o aperto monetário e empurra o país para uma recessão profunda. Em 2026, qualquer escolha terá um custo social e político alto. A discussão agora não é mais como pousar o avião com suavidade, mas sim o tamanho da turbulência que a economia global será capaz de suportar.
*Coluna escrita por, Miguel Daoud, comentarista de economia e política na BM&C News. Administrador de Empresas, com especialização autodidata em Economia e Política, construiu uma trajetória consolidada no mercado financeiro e no agronegócio brasileiro.
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