O início de 2026 escancarou uma mudança brusca na postura da maior potência do planeta. Em poucas semanas, o presidente Donald Trump concentrou decisões de enorme impacto internacional: uma ação direta que resultou na queda do regime da Venezuela, ameaças explícitas a países da América Latina e a reativação de um projeto antigo e controverso, a tentativa de anexar a Groenlândia.
Analisados isoladamente, esses episódios já seriam graves. Observados em conjunto, revelam algo mais profundo: a utilização crescente da política externa e da força militar como instrumento de sustentação política interna.
A política da força em um mundo que desacelera
Esse comportamento não ocorre no vácuo. Ele surge em um momento particularmente delicado da economia global. O crescimento mundial perde tração, o comércio internacional desacelera e os motores tradicionais da expansão começam a falhar.
A China, principal locomotiva do crescimento global nas últimas décadas, enfrenta uma desaceleração estrutural: crise imobiliária prolongada, consumo interno fraco, envelhecimento populacional e dificuldades para sustentar investimentos no mesmo ritmo do passado. Menos China crescendo significa menos demanda por commodities, menos comércio e menos fôlego para o mundo.
Do outro lado do Pacífico, os Estados Unidos vivem um conflito interno com a própria política monetária. A economia americana resiste, mas dá sinais claros de cansaço. Juros elevados, mantidos por mais tempo para conter a inflação, começam a pesar sobre crédito, consumo e investimentos. O embate entre crescimento e juros altos virou o principal dilema da economia americana.
Nesse ambiente, líderes pressionados tendem a buscar atalhos políticos.
Quando a economia aperta, a retórica endurece
A história é generosa em exemplos: desaceleração econômica costuma andar de mãos dadas com discursos nacionalistas, posturas agressivas e a criação de inimigos externos. A lógica é simples, quando os resultados econômicos ficam menos evidentes, a política da força ajuda a deslocar o debate.
A ação na Venezuela, nesse contexto, cumpre múltiplos papéis: reforça a imagem de liderança forte, mobiliza a base eleitoral e cria uma narrativa de segurança nacional. O problema começa quando essa estratégia deixa de ser pontual e passa a orientar toda a política externa.
As declarações envolvendo Colômbia, Cuba e outros países da região, somadas à reabertura do debate sobre a Groenlândia, território ligado à Dinamarca e protegido pelo guarda-chuva da OTAN, indicam que a exceção está se tornando um método.
Gasolina no barril de pólvora econômico
O risco é evidente. O mundo já carrega um fardo pesado: a soma das dívidas públicas e privadas ultrapassa 350% do PIB global. Estados e empresas operam com pouco espaço para absorver choques.
Em um cenário assim, crises geopolíticas não são apenas episódios políticos, são gatilhos econômicos. Ameaças militares, intervenções e rupturas diplomáticas elevam o custo do capital, ampliam a aversão ao risco, pressionam moedas e desorganizam cadeias globais de produção.
É como jogar gasolina em um barril de pólvora para acender um charuto: o gesto pode parecer ousado, mas o risco de explosão cresce rapidamente.
A areia movediça da superpotência
Ao recorrer cada vez mais à força, os Estados Unidos criam ao seu redor um campo de areia movediça. Quanto mais tentam impor sua vontade, mais despertam desconfiança, resistência e movimentos defensivos, inclusive de aliados históricos.
No curto prazo, essa postura pode render dividendos eleitorais. No médio e longo prazos, tende a fragmentar a governança global, estimular blocos rivais e tornar o sistema internacional mais instável e caro de sustentar.
Para onde o mundo caminha
A questão central não é apenas o temperamento de um presidente, mas o momento em que esse comportamento ocorre. Em um mundo desacelerando, endividado e altamente interdependente, a política da força não produz estabilidade. Produz reação.
Se a diplomacia ceder espaço definitivo à intimidação, o planeta caminhará para um ambiente mais volátil, menos previsível e economicamente mais frágil, exatamente quando menos pode suportar choques.
No fim das contas, a conta sempre chega. E, em tempos de juros altos e crescimento fraco, ela chega com juros ainda maiores.
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