Nos últimos dias, ganhou força nos bastidores de Brasília a informação de que Ricardo Lewandowski sinalizou sua saída do Ministério da Justiça. À primeira vista, poderia parecer apenas mais uma troca no primeiro escalão do governo. Mas, quando se observa o contexto, o timing e o desenho político que se forma ao redor dessa possível saída, fica claro que há algo maior em jogo.
Lewandowski não é um ministro qualquer. Ex-integrante do Supremo Tribunal Federal, ele construiu sua trajetória com forte apego à autoridade institucional, à coerência entre discurso e prática e à ideia de que cargos de Estado não podem ser moldados apenas por conveniência política. Desde o início do atual governo, ele foi contrário à divisão do Ministério da Justiça. Para Lewandowski, separar Justiça e Segurança Pública enfraquece o comando, pulveriza responsabilidades e cria disputas internas em uma área sensível demais para isso.
Essa posição sempre foi clara. O problema é que o cenário político mudou. A pressão sobre o governo na área de segurança pública aumentou, o Congresso passou a cobrar respostas mais diretas, e o próprio Palácio do Planalto começou a admitir que a divisão da pasta pode ser necessária para reorganizar forças, acomodar interesses políticos e tentar destravar agendas que hoje encontram resistência.
É exatamente nesse ponto que a possível saída de Lewandowski ganha sentido. Permanecer no cargo, aceitando agora uma divisão que ele rejeitou desde o início, significaria uma desautorização indireta de sua própria posição. E esse nunca foi o perfil de Lewandowski. Para alguém com sua trajetória, sair pode ser menos um gesto de ruptura e mais um ato de coerência institucional.
Ao sinalizar que pode deixar o ministério, Lewandowski preserva sua autoridade, evita endossar uma mudança estrutural com a qual não concordou e, ao mesmo tempo, libera o governo para fazer a reorganização desejada sem criar constrangimentos internos ou conflitos públicos. Não há, até aqui, sinais de embate direto com o presidente. Pelo contrário: Lula gostaria que ele ficasse, justamente pelo peso institucional que carrega. Mas nem sempre querer manter alguém significa conseguir manter.
Do ponto de vista político, essa saída pode representar uma oportunidade para o presidente. A divisão do Ministério da Justiça abre espaço para duas nomeações estratégicas, dois ministros fortes e dois pólos de poder dentro do governo. Em um momento em que Lula precisa reorganizar sua base, fortalecer o diálogo com o Congresso e olhar para a renovação de mandatos e alianças futuras, isso não é detalhe.
É nesse redesenho que surgem nomes e hipóteses que fazem sentido no tabuleiro político, ainda que não estejam oficialmente colocadas. Rodrigo Pacheco, por exemplo, aparece como um nome natural para um ministério forte. Ele traz peso institucional, trânsito no Senado e poderia ajudar a recompor relações com o Congresso. Sua entrada no Executivo também reorganizaria interesses e abriria novos espaços no jogo político.
Ao mesmo tempo, esse rearranjo cria um ambiente mais favorável para Jorge Messias, nome de extrema confiança de Lula, seja para ocupar um ministério estratégico, seja para avançar em indicações ao sistema de Justiça, inclusive ao Superior Tribunal de Justiça. Trata-se menos de uma operação declarada e mais de um encaixe lógico de peças, típico da política brasileira.
No fim das contas, a possível saída de Lewandowski não é apenas sobre um ministro deixando o cargo. Ela revela a dificuldade de conciliar coerência institucional com necessidade política, mostra o esforço do governo para reorganizar poder e base de apoio e sinaliza movimentos pensados para além do presente imediato. Em alguns momentos, sair não é perder espaço. É permitir que o jogo avance. E tudo indica que, neste caso, a saída de Lewandowski pode ser exatamente isso: um ajuste silencioso na estrutura do poder.
Miguel Daoud

