A aprovação provisória do acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul marca o fim de um dos processos negociadores mais longos da história recente do comércio internacional e o início de uma fase mais complexa: a da implementação real. Após mais de 25 anos de idas e vindas, o tratado deixa o terreno diplomático e passa a ser avaliado por seus efeitos concretos sobre crescimento, competitividade e reposicionamento estratégico. E aqui é fundamental dissipar uma ilusão recorrente: este não é um acordo de impacto imediato, mas de transformação gradual.
As estimativas mais consistentes indicam que os primeiros efeitos econômicos mensuráveis devem surgir entre dois e quatro anos após a entrada em vigor efetiva do tratado. Esse período reflete o tempo necessário para a redução progressiva das tarifas, a adaptação regulatória, a reorganização logística das cadeias produtivas e a maturação de novos contratos comerciais. Os ganhos estruturais mais relevantes, no entanto, tendem a se consolidar apenas entre sete e dez anos, quando a maior parte das barreiras tarifárias e não tarifárias estiver efetivamente eliminada ou reduzida.
Do ponto de vista macroeconômico, o impacto agregado é moderado, porém estrutural. Estudos da Comissão Europeia e de organismos multilaterais apontam para um ganho potencial de 0,1% a 0,2% do PIB europeu no longo prazo, enquanto o Mercosul — com destaque para o Brasil — pode registrar um acréscimo entre 0,3% e 0,5% do PIB. Não se trata de um salto extraordinário de crescimento, mas de uma elevação permanente de eficiência econômica, com efeitos cumulativos ao longo do tempo.
Para a União Europeia, o acordo é essencialmente industrial e estratégico, apesar de o debate político estar concentrado no setor agrícola. Os principais beneficiários serão os segmentos de automóveis e autopeças, máquinas industriais, equipamentos elétricos, químicos, farmacêuticos e cosméticos, hoje penalizados por tarifas no Mercosul que chegam a variar entre 20% e 35%. A eliminação gradual dessas barreiras pode elevar as exportações europeias para a região em algo entre €15 bilhões e €20 bilhões por ano no médio prazo. Além disso, o tratado amplia o espaço para investimentos diretos, serviços e infraestrutura, reforçando a presença europeia na América do Sul em um contexto de crescente competição geopolítica com Estados Unidos e China.
No Mercosul, o acordo tem um potencial mais transformador, especialmente para o Brasil. No curto e médio prazo, os maiores ganhos concentram-se no agronegócio exportador, com destaque para carnes bovina e de frango, açúcar, etanol, suco de laranja e alimentos processados. Estima-se que o aumento das exportações agrícolas para a União Europeia possa variar entre €8 bilhões e €12 bilhões por ano após a plena implementação do tratado. Esse movimento tende a reforçar o superávit comercial do bloco e ampliar receitas externas.
Entretanto, o impacto mais relevante não está apenas nas exportações primárias. A redução do custo de importação de máquinas, tecnologia e bens de capital europeus pode elevar significativamente a produtividade da indústria sul-americana. Ao mesmo tempo, a convergência regulatória e os compromissos ambientais e sanitários funcionam como um vetor de modernização institucional, forçando ganhos de eficiência e maior integração às cadeias globais de valor.
As resistências observadas em países como França e Irlanda não devem ser interpretadas apenas como protecionismo, mas como defesa de modelos produtivos altamente subsidiados. A resposta europeia, ao acelerar recursos da Política Agrícola Comum e ampliar mecanismos de compensação, revela uma leitura pragmática: abertura comercial exige amortecedores sociais e políticos para ser sustentável.
Em última instância, o acordo UE–Mercosul não cria vencedores automáticos. Ele premia estratégia, coordenação e visão de longo prazo. Para a Europa, trata-se de diversificar parceiros e reforçar sua base industrial. Para o Brasil, é uma oportunidade rara de romper a armadilha da especialização excessiva em commodities. Se será apenas uma janela exportadora ou uma plataforma de industrialização e investimento dependerá menos do texto do acordo e mais das escolhas políticas e econômicas feitas a partir dele.
*Coluna escrita por Fabio Ongaro, economista e empresário no Brasil, CEO da Energy Group e vice-presidente de finanças da Camara Italiana do Comércio de São Paulo – Italcam
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