A leitura simplista de que “o dólar está caindo” não explica o que realmente está acontecendo. O movimento dos últimos meses é mais sofisticado e exige separar três vetores distintos: a valorização do real por fluxo e diferencial de juros; o ajuste do dólar no cenário global; e a disparada do ouro, que não representa apenas fraqueza do dólar, mas uma reprecificação estrutural do metal. Confundir esses movimentos é o caminho mais curto para errar a próxima tendência.
Desde o início do ano, o dólar recuou aproximadamente 5% a 6% frente ao real, saindo da região próxima a R$ 5,45 no fim de 2025 para a faixa de R$ 5,15 a R$ 5,20 nas últimas semanas. Não se trata de acaso. O Brasil combinou três fatores raros ao mesmo tempo: Bolsa renovando máximas históricas, entrada relevante de capital estrangeiro e diferencial de juros ainda elevado. Em janeiro, o fluxo externo para a B3 foi robusto, ajudando a sustentar a apreciação cambial.
A mecânica é direta: investidor estrangeiro compra ações brasileiras, vende dólares, compra reais, o câmbio aprecia. Esse movimento cria um ciclo virtuoso de percepção positiva.
Mas é importante não romantizar. Fluxo financeiro não é fundamento estrutural. Ele permanece enquanto o retorno relativo for atrativo e o risco global estiver sob controle. Uma mudança brusca no cenário internacional pode inverter essa dinâmica rapidamente.
O dólar global não está colapsando, está ajustando
A segunda camada é o dólar frente ao mundo. O índice DXY, que mede o desempenho do dólar contra um conjunto de moedas fortes, apresentou enfraquecimento em janelas recentes.
Isso reflete a expectativa de política monetária americana menos restritiva e uma percepção de que o crescimento dos EUA pode desacelerar relativamente a outras regiões. Quando o mercado reduz posições defensivas montadas em dólar, a moeda perde tração.
Mas não há evidência de ruptura estrutural da hegemonia do dólar. Ele continua sendo a principal moeda de reserva e liquidez global. O que vemos é ajuste de ciclo, não mudança de regime. Parte da queda do dólar frente ao real, portanto, é maré global — não apenas mérito doméstico.
O ouro não sobe porque o dólar cai, mas porque o sistema mudou
A terceira dimensão é a mais relevante. O ouro iniciou o ano na faixa próxima a US$ 5.400 por onça e, ao longo das semanas, chegou a raspar o nível simbólico de US$ 6.000, acumulando alta superior a 10% apenas no início do ano.
Esse movimento não pode ser explicado apenas por dólar mais fraco. O que está ocorrendo é uma reprecificação do ouro como ativo monetário estratégico. Em um mundo com níveis recordes de dívida soberana, tensões geopolíticas crescentes e uso recorrente de sanções financeiras, o ouro volta a desempenhar papel central como reserva sem risco de contraparte.
Bancos centrais ampliam participação do metal em suas reservas. Gestores institucionais reforçam posições como hedge sistêmico. Famílias buscam proteção. Não se trata apenas de proteção contra inflação. Trata-se de proteção contra incerteza estrutural. Dizer que o dólar caiu contra o ouro é uma leitura superficial. O ouro está sendo comprado como alternativa monetária.
Três histórias, três destinos
O real pode continuar forte enquanto houver fluxo consistente e diferencial de retorno atrativo. O dólar global pode oscilar conforme o mercado reprecifica juros e crescimento nos Estados Unidos. O ouro pode seguir valorizado mesmo que o dólar estabilize, se a busca por ativos fora do sistema financeiro tradicional continuar.
Misturar essas narrativas gera análises frágeis. O momento atual não é de fraqueza absoluta do dólar, mas de redistribuição de capital. O investidor que entender qual dessas forças está dominando o preço em cada momento terá vantagem. Quem tratar o movimento como um fenômeno único corre o risco de confundir tendência com ruído. O dólar não está simplesmente caindo. O capital está mudando de posição.
*Coluna escrita por Fabio Ongaro, economista e empresário no Brasil, CEO da Energy Group e vice-presidente de finanças da Camara Italiana do Comércio de São Paulo – Italcam
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