Uma coisa é certa sobre Daniel Vorcaro: ele não desiste fácil de uma briga. O problema é que ele está tentando defender o indefensável. Desde que o Banco Master foi liquidado extrajudicialmente, ele tentou melar o jogo de tudo o que é maneira. Mas os números que se levantam sobre a situação financeira do Master não deixam margem para nenhuma dúvida: o banco estava insolvente.
Um exemplo disso é o recolhimento de depósitos compulsórios (todos bancos precisam recolher à autoridade monetária um percentual que varia de 20% a 31,5% de depósitos de conta corrente ou aplicações financeiras). Na data da liquidação, o Master deveria ter recolhido R$ 2,5 bilhões. Na prática, porém, tinha feito um depósito compulsório de R$ 22,9 milhões (0,9% do exigido).
No mesmo dia, o caixa livre do Master era de R$ 4,8 milhões. Mas a instituição teria de fazer frente a R$ 48,6 milhões de CDBs que venceriam naquela ocasião – ou seja apenas 10% do que seria necessário para fazer frente somente aos resgastes de seus papeis. Para tornar o cenário pior, o UOL publicou nota hoje na qual mostra que empresas ligadas a Vorcaro adquiriram R$ 2 bilhões em bens enquanto o banco estava em situação periclitante.
Outros indícios de fraudes estão surgindo com frequência. O último diz respeito a dois fundos de investimento em papéis do tesouro americano que foram oferecidos ao BRB (um na Ilha de Jersey, próximo à Inglaterra, e outro em Nassau, nas Bahamas). O banco de Brasília fez uma due dilligence e constatou que não havia papéis do Tesouro americano em nenhuma das carteiras – que acabaram ficando de fora da negociação com o BRB.
Mais um sinal de que Vorcaro não larga o osso facilmente é a notícia de que o Master negociou com figuras de grande audiência na Internet e nas redes sociais para atacar o Banco Central. Um levantamento feito pelo jornal “O Estado de S. Paulo” mostra que houve uma campanha contra o BC, que culminou com 4.560 posts no dia 27 de dezembro.
Alguns influencers também denunciaram que foram sondados para fazer uma campanha contra o BC em troca de “uma boa grana”. Estes, em particular, não aceitaram a proposta. Mas outros devem ter topado. Uma conta, por exemplo, com 4,1 milhões de seguidores e foco em humor, atacou o então diretor de Organização do Sistema Financeiro e de Resolução do BC, Renato Gomes. Um assunto que nada tinha a ver com sua pauta habitual.
Pelo conjunto da obra, fica difícil sustentar a narrativa de perseguição que Vorcaro tenta vender. A cada nova revelação, o enredo se parece menos com um caso de injustiça e mais com a tentativa desesperada de transformar um colapso financeiro em disputa política.
Quando um banco chega ao ponto de não honrar compulsório, não cobrir resgates básicos e ainda recorrer a campanhas digitais para atacar o órgão regulador, não estamos diante de um mal-entendido, mas de um projeto financeiro baseado em fumaça. Vorcaro pode insistir em sua versão dos fatos, mas a realidade já se impôs com força suficiente para mostrar que o que ele chama de defesa é apenas a última camada de verniz sobre um desastre anunciado.
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