A colunista Monica Bergamo, da Folha de S. Paulo, publicou ontem um recado de Daniel Vorcaro ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A jornalista ouviu interlocutores do controlador do Banco Master e escreveu o seguinte: “O banqueiro afirma que o presidente tem ajudado a piorar sua situação jurídica e política ao dizer que ele deu um golpe de bilhões no mercado financeiro. [..] Em seus diálogos, Vorcaro lembra que tem conexões com políticos próximos ao petista, como o ministro Rui Costa, da Casa Civil, e o senador Jacques Wagner (PT-BA)”.
Uma ameaça implícita vem logo a seguir: “Por isso, poderia prejudicar o governo com informações que explicitassem ainda mais o relacionamento com políticos do governo. Diversas delas já chegaram à imprensa, como por exemplo o valor dos contratos de [Guido] Mantega e [Ricardo] Lewandowski. De acordo com os interlocutores de Vorcaro, ele teria condições de dragar o PT para o centro do escândalo ao soltar, em pílulas, fatos constrangedores para o atual governo”.
Essa nota confirma a desconfiança de que uma delação do ex-banqueiro poderia implodir a imagem do PT e de seus representantes (aparentemente, os políticos do Centrão, também próximos a Vorcaro, seriam poupados de indiscrições). Mas, mesmo que não exista um acordo entre o controlador do Master e a Justiça, simples vazamentos já podem fazer um estrago imenso.
Ao se declarar a fonte que revelou o montante dos contratos de Mantega e de Lewandowsi, Vorcaro mostra que tem bala em sua agulha e pode causar um problema enorme para o PT em um ano de eleições.
Diante disso, o governo tem um dilema a digerir. Se pagar para ver, pode sofrer consequências que serão exploradas pela oposição na campanha eleitoral. Por outro lado, se Lula recuar e não mais citar Vorcaro ou o Banco Master em seus discursos, passará um recibo de que seus aliados podem ter ligações não republicanas com o dono da instituição financeira em liquidação extrajudicial. Ou seja: se correr, o bicho pega; se ficar, o bicho come.
Além disso, existe a percepção de que o governo estaria refém de um personagem cuja reputação pública já está profundamente abalada. Qualquer gesto que pareça recuo pode ser interpretado como submissão; já um eventual endurecimento poderia ser interpretado como tentativa de intimidar o potencial delator. É um jogo de sombras no qual cada movimento teria custo político.
A oposição, que até agora vinha explorando o caso de forma moderada, deve ganhar munição para intensificar o discurso anticorrupção. Mesmo sem provas de irregularidades cometidas por integrantes do governo, a simples possibilidade de que figuras próximas ao PT tenham mantido relações impróprias com Vorcaro já é suficiente para alimentar narrativas eleitorais. Lembremos: em ano de disputa acirrada, a mera percepção deve pesar tanto quanto um fato comprovado.
A eficácia dos recados de Vorcaro depende menos do conteúdo que ele diz possuir e mais da capacidade de gerar instabilidade política. Se o governo demonstrar segurança e transparência, o impacto pode até ser limitado, dependendo do tom utilizado. Mas se a reação for errática ou defensiva, o ex-banqueiro terá conseguido transformar sua própria crise em um problema para o Planalto.
O episódio deve servir como um teste para a capacidade do governo de administrar crises. E, nos últimos tempos, diga-se, o Executivo não se saiu bem neste quesito. Resta observar se o Planalto tratará Vorcaro como um adversário circunstancial ou como alguém capaz de ditar o ritmo da crise. A resposta a essa questão definirá se os recados enviados terão algum efeito ou se permanecerão apenas como ruído em meio à disputa eleitoral.
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