Os processos de recuperação judicial de grandes grupos, como Raízen e GPA, mostraram que a conta da política de juros altos está ficando cada vez mais salgada. Mas essa situação difícil não ocorre apenas no andar de cima do mundo corporativo. O Brasil encerrou 2025 com o maior número de empresas em recuperação judicial já registrado. Foram 5.680 casos ao longo do ano, alta de 24,3 por cento em relação a 2024. Os primeiros meses de 2026 indicam que este quadro se aprofundou. Janeiro e fevereiro já contabilizam 21 companhias listadas no índice Ibovespa enfrentando a chamada RJ.
Evidentemente, as taxas altas não são os únicos fatores que contribuem para um quadro econômico tão volátil: há fatores externos ou internos que tornam a atividade empresarial difícil em um cenário como o brasileiro. Além disso, há casos em que os juros altos contribuíram para essas RJs, mas a incompetência de alguns executivos também foi preponderante para o fracasso.
Os governistas costumam evocar a independência do Banco Central para dizer que nada têm a ver com os altos juros determinados pela autoridade monetária. Mas essa explicação não é totalmente verdadeira.
O BC tem como tarefa preservar o poder de compra da moeda brasileira e combater a inflação de acordo com metas decididas pelo Conselho Monetário Nacional. Neste exato momento, temos a alta dos preços de petróleo como principal ameaça à estabilização de preços. Mas, desde 2023, existe uma preocupação clara com os gastos públicos — e é aqui que está a raiz do problema.
Essa preocupação é tão grande que Gabriel Galípolo (um presidente do Banco Central indicado por Luiz Inácio Lula da Silva) manteve os juros em um patamar altíssimo, apesar das pressões políticas. Portanto, se o BC mantém as taxas altas é porque o governo não se empenha em reduzir seus gastos. A conclusão, assim, é lógica: a culpa dos juros altos é do governo. Ontem, o BC reduziu a Selic de 15% anuais para 14,75%. É melhor que nada. Mas não resolve muita coisa.
Além dos juros altos, temos também outro problema: a volatilidade das taxas.
Em artigo publicado ontem no jornal “O Globo”, a economista Zeina Latif aborda essa questão: “Nos últimos dez anos, o intervalo de variação da taxa Selic foi de 2% a 15% ao ano, superando o observado em países parecidos, como México (4% a 11,25%), Colômbia (1,75% a 13,25%) e Chile (0,5% a 11,25%), este último atipicamente volátil mais recentemente. Tomando a taxa em termos reais (descontada a expectativa de inflação 12 meses à frente), o quadro não se altera, sendo a volatilidade mais marcante no Brasil (-1,9% a +10,5%). Adicionalmente, as mudanças de orientação de política monetária, ora com expansão, ora com contração, são mais frequentes. Tomando um período mais longo, desde 2000, houve 16 mudanças no Brasil ante nove no Chile”.
A oscilação intensa da política monetária cria um ambiente de incerteza permanente. Empresas que tentam planejar investimentos de longo prazo se veem obrigadas a recalcular projeções com frequência, o que reduz a disposição para assumir riscos e compromete a capacidade de expansão da economia. A volatilidade também encarece o crédito, pois instituições financeiras incorporam esse comportamento errático da taxa básica em seus modelos de precificação. O resultado é um sistema produtivo que opera com receio constante de mudanças bruscas, o que limita a inovação e a competitividade.
Essa instabilidade tem efeitos cumulativos. Quando a taxa sobe demais, o custo do capital paralisa projetos e empurra empresas fragilizadas para a recuperação judicial. Quando cai de forma acelerada, estimula movimentos artificiais que podem gerar desequilíbrios futuros. A economia passa a funcionar como um pêndulo, sempre reagindo a estímulos de curto prazo, sem espaço para construir uma trajetória consistente de crescimento.
Sair desse círculo vicioso exige mais do que reduzir a Selic. É necessário criar condições para que a política monetária opere em um ambiente previsível, com metas fiscais críveis, regras claras e compromisso real com a estabilidade. Um país que convive com mudanças frequentes de orientação econômica não consegue atrair investimentos de qualidade nem sustentar ciclos de expansão duradouros. A superação desse padrão é essencial para que o Brasil volte a crescer de forma sólida e para que as empresas possam planejar o futuro com algum grau de segurança.
*Coluna escrita por Aluizio Falcão Filho, é jornalista, articulista e publisher do portal Money Report. Foi diretor de redação da revista Época e diretor editorial da Editora Globo, com passagens por veículos como Veja, Gazeta Mercantil, Forbes e a vice-presidência no Brasil da agência de publicidade Grey Worldwide
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