O surgimento do bolsonarismo, no final da década passada, teve duas consequências para os eleitores conservadores. A primeira foi tirar a direita do armário, depois de muitos anos após o governo militar. Por bastante tempo, quem se identificava com o conservadorismo dificilmente assumia suas posições políticas em público.
Foi uma época em que as principais forças políticas do país foram o PT e o PSDB, ambos com raízes na esquerda. Mesmo assim, os tucanos eram vistos, nos anos 1990, como “neoliberais”, já que implementaram um forte programa de privatização no governo de Fernando Henrique Cardoso. Nesta mesma época, figuras identificadas com a direita, como o ex-ministro Delfim Netto, se diziam políticos de centro.
Com a ascensão de Jair Bolsonaro, os conservadores passaram a se assumir como tais. O discurso bolsonarista ganhou impulso também por conta da proliferação das redes sociais. Para a surpresa de muitos, havia uma multidão que tinha uma agenda conservadora de costumes, era religiosa e defendia os princípios do capitalismo. Esse grupo ganhou tração quase que imediatamente. E, turbinado pela Operação Lava Jato, inflou os músculos e elegeu o presidente da República em 2018.
Mas esse não foi o único efeito que o bolsonarismo teve sobre o cenário político: o jeito de fazer política de forma agressiva, confrontando inclusive aliados, se proliferou. O grande ícone deste comportamento foi o próprio Bolsonaro, que passou sua carreira legislativa agindo desta maneira. Em seu primeiro ano de mandato, brigou com vários dos correligionários de primeira hora. Havia uma mensagem implícita em cada desentendimento: Bolsonaro era o único que deveria brilhar em seu campo ideológico e suas instruções deveriam ser seguidas à risca.
O ex-presidente, como se sabe, cumpre prisão domiciliar e não pode mais exercer a liderança junto ao conservadorismo. Diante disso, é natural que seus comandados, a começar por sua família, comecem a agir como ele sempre se comportou: de forma agressiva e atacando os aliados que não seguem ao pé da letra a cartilha bolsonarista.
Os desentendimentos que hoje ocorrem na campanha do senador Flávio Bolsonaro refletem esse padrão. Os irmãos do candidato, Eduardo e Carlos, entram em conflito com outras lideranças conservadoras, como o deputado federal Nikolas Ferreira, um campeão de votos em Minas Gerais, estado importantíssimo para a eleição presidencial.
Os conflitos entre Eduardo e Nikolas são apenas um exemplo daquilo que se vê em várias praças eleitorais e que hoje ameaçam as alianças regionais da campanha oposicionista. Para resolver esse imbróglio, Flávio terá de justificar a moderação que vem pregando em suas entrevistas e encontros com eleitores: vai precisar costurar os apoios como se fosse uma raposa felpuda das antigas, como Tancredo Neves ou Petrônio Portela.
O grande problema do senador, hoje, não é conquistar eleitores ou resistir à campanha negativa que o PT empenha contra seu nome. O maior desafio é justamente pacificar seus aliados e sua família. Isso precisa ser feito de forma rápida e eficaz. Os petistas – que estão apostando em um pacote de bondades cada vez maior – podem também se aproveitar desta fragilidade para tentar recuperar a vantagem perdida. Dessa forma, o candidato Flávio vai ter de se superar, atuando no varejo e no atacado, no núcleo político e junto ao eleitorado de centro. Terá de ser equilibrista, malabarista e trapezista. Tudo ao mesmo tempo.
*Coluna escrita por Aluizio Falcão Filho, é jornalista, articulista e publisher do portal Money Report. Foi diretor de redação da revista Época e diretor editorial da Editora Globo, com passagens por veículos como Veja, Gazeta Mercantil, Forbes e a vice-presidência no Brasil da agência de publicidade Grey Worldwide
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