A semana foi marcada pela perplexidade coletiva com o vazamento do conteúdo de um grupo de WhatsApp comandado por Daniel Vorcaro, batizado de “A Turma”. As postagens mostram que o ex-banqueiro, embaixo dos ternos bem cortados e do cabelo gomalinado, não passa de um gangster com modos refinados.
Quase três semanas atrás, escrevi um artigo no qual defendia a tese de que as investigações deste caso poderiam mudar profundamente o rumo de nossa história, marcada pela corrupção e tráfico de influências. Reproduzo um trecho da publicação do dia 17 de fevereiro: “Mesmo que o controlador do Master, Daniel Vorcaro, não faça uma delação premiada, a PF já tem condições de encontrar provas de envolvimento de autoridades em atividades ilícitas de vários matizes, o que pode chacoalhar o Brasil de diversas maneiras”.
O primeiro capítulo desta caixa de Pandora foi divulgado na última terça-feira – e muito ainda está por vir. Embora houvesse uma expectativa enorme sobre o que o celular pertencente ao controlador do Master poderia revelar, ninguém poderia imaginar que houvesse tanta baixeza e vilania na verdadeira personalidade de Vorcaro.
Um grande mistério surgiu logo de início: o incidente com Luiz Phillipi Mourão, o “Sicário”, um dos integrantes do grupo de Vorcaro que praticaria violências contra adversários do ex-banqueiro. Sob circunstâncias suspeitas, o caso foi inicialmente tachado como tentativa de suicídio pela Polícia Federal. O contexto deste óbito levanta preocupações sobre a segurança de Daniel Vorcaro no presídio federal em Brasília, para onde foi transferido. Na condição de arquivo vivo, ele poderia ser alvo de um atentado no cárcere.
Mesmo que algo do gênero ocorra, no entanto, o material que está em poder da PF já é suficiente para trilhar um caminho que fatalmente vai levar aos podres de muita gente, em diversos setores, do mundo privado ao público. Pessoas que eram tratadas pelo hoje presidiário no WhatsApp como amigos (ou que usavam o mesmo tratamento a Vorcaro) agora vão dizer que tinham apenas relações institucionais ou profissionais com o controlador do Master. Mas, em determinados casos, o caminho do “follow the money” vai mostrar que a natureza dessas conexões era outra, nada republicana.
A sordidez e a gravidade das mensagens do grupo “A Turma” acabaram por finalizar qualquer chance de amenizar a situação de Vorcaro. Um quadro totalmente diferente daquele vivido em dezembro, quando manobras jurídicas no Supremo Tribunal Federal e no Tribunal de Contas da União levantaram a hipótese inclusive de anulação da liquidação decretada pelo Banco Central no Master.
Entramos, dessa forma, na fase “game over”? Parece que sim. Talvez tenha restado a Vorcaro apenas o caminho da delação premiada. Se isso ocorrer, teremos um cataclisma jamais visto antes na história da República. Caso tenhamos essa chance, precisamos aproveitá-la para passar a nossa história a limpo.
*Coluna escrita por Aluizio Falcão Filho, é jornalista, articulista e publisher do portal Money Report. Foi diretor de redação da revista Época e diretor editorial da Editora Globo, com passagens por veículos como Veja, Gazeta Mercantil, Forbes e a vice-presidência no Brasil da agência de publicidade Grey Worldwide
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