O mercado de crédito privado no Brasil atravessa um momento de mudança na relação entre risco e retorno. A combinação de spreads mais apertados, juros ainda elevados e episódios recentes envolvendo emissores relevantes levou investidores a reavaliar a atratividade da classe, segundo avaliação de Francisco Brant, da Refran Consultoria.
Em entrevista à BM&C News, o especialista afirmou que o fluxo intenso para ativos de crédito nos últimos anos contribuiu para reduzir o prêmio pago ao investidor, sem que o risco tenha diminuído na mesma proporção.
“Hoje, em muitos casos, o investidor recebe um prêmio menor para assumir um risco que segue relevante”, afirmou Brant.
De acordo com o consultor, o cenário de Selic elevada em 2025 impulsionou a busca por papéis que oferecessem retorno acima do CDI, especialmente debêntures incentivadas e fundos de crédito. Esse movimento levou a uma compressão relevante dos spreads.
No entanto, a atratividade relativa diminuiu diante da comparação com títulos públicos.
“Ao comparar com títulos soberanos, o investidor ainda encontra taxas elevadas, liquidez superior e menor risco. Quando o spread fica excessivamente apertado, parte da atratividade do crédito privado se perde”, disse.
Eventos recentes ampliam percepção de risco do crédito privado
Um ponto relevante para a classe foram casos recentes de estresse envolvendo empresas de grande porte, que contribuíram para a revisão de expectativas.
“Não estamos falando de emissores marginais, mas de nomes relevantes e amplamente distribuídos em carteiras. Isso faz o mercado reavaliar a classe como um todo”, afirmou.
Segundo ele, a pressão sobre empresas maiores sugere um ambiente ainda mais desafiador para companhias com menor qualidade de crédito, mais alavancadas ou com acesso limitado a financiamento.
Gestão de risco ganha protagonismo na alocação
Diante desse cenário, o especialista defende uma postura mais disciplinada por parte de gestores e investidores. A análise precisa ir além do histórico do emissor, focando na capacidade efetiva de pagamento ao longo do tempo.
Critérios considerados centrais na análise de crédito:
| Fator analisado | Importância no cenário atual |
|---|---|
| Geração de caixa operacional | Indica sustentabilidade financeira |
| Liquidez disponível | Reduz risco de estresse no curto prazo |
| Perfil de vencimento da dívida | Avalia necessidade de rolagem |
| Custo do passivo | Mede pressão financeira futura |
| Governança e acesso a mercado | Reflete resiliência estratégica |
“A confiança na classe será reconstruída quando o mercado voltar a exigir prêmio adequado para o risco assumido”, avaliou.
Geração de caixa ganha peso frente à alavancagem
Na avaliação de Brant, métricas tradicionais como alavancagem seguem relevantes, mas perderam protagonismo isoladamente. A geração de caixa e a liquidez passaram a ser indicadores mais determinantes para antecipar eventos de crédito.
“O default raramente ocorre por um único indicador. O problema surge quando pressão financeira se combina com deterioração operacional”, explicou.
Esse ponto é especialmente sensível em setores cíclicos, onde oscilações de receita podem comprometer a capacidade de honrar compromissos.
Queda de juros pode beneficiar crédito privado, mas carrego deve liderar retorno
O ciclo esperado de redução das taxas tende a favorecer o crédito privado ao aliviar o custo financeiro das empresas e melhorar condições de rolagem da dívida. Ainda assim, o impacto deve ocorrer de forma gradual.
Do lado do investidor, o retorno deve continuar sendo puxado principalmente pelo carrego, com ganhos adicionais via marcação a mercado mais limitados.
“Mesmo com juros em queda, o espaço para fechamento expressivo de spreads pode ser menor, já que eles já estão comprimidos e a percepção de risco ainda é sensível”, disse.
Por fim, o consultor destacou que a classificação das agências segue sendo uma referência útil, mas não deve ser vista como garantia de segurança.
“O rating é um ponto de partida, não uma medida absoluta. O risco real exige leitura dinâmica da geração de caixa, da liquidez e da estrutura de capital”, concluiu.













