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Carry trade não explica o dólar: “argumentos não fecham a conta”, diz analista

Redação BM&C News Por Redação BM&C News
17/09/2025
Em dólar, Entrevista, Exclusivas, MERCADOS

Com o início do ciclo de cortes nos Estados Unidos e juros ainda elevados no Brasil, o debate sobre carry trade voltou ao centro do mercado. A leitura intuitiva seria a de que o diferencial de juros sustentaria a entrada de dólares e a apreciação do real. No entanto, para Étore Sanchez, economista-chefe da Ativa Investimentos, o quadro recente aponta para uma realidade mais complexa e menos linear.

Em entrevista ao BM&C News, Sanchez questiona a narrativa corrente e aponta um aparente descompasso entre a valorização do Ibovespa e o comportamento do câmbio, sem que os dados de fluxo cambial confirmem um movimento robusto de capitais para o Brasil. “Há um descolamento entre a nossa percepção da economia e o que os ativos refletem no curto prazo”, afirma.

Carry Trade está por trás do dólar?

Sanchez contesta a explicação automática de que o carry trade estaria por trás da queda do dólar enquanto o Ibovespa renova máximas. Para ele, faltam evidências no fluxo: “Não encontramos um motivo para o dólar em tela e o Ibovespa renovando máxima; as argumentações simplesmente não fecham a conta.” Um argumento de carry trade seria válido se houvesse fluxo, abriríamos o fluxo cambial e o balanço de pagamentos e veríamos um inflow de dólares. “Até agora, o que se acumulou foi uma saída financeira no ano, não uma entrada.”, destaca.

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Nesse sentido, ele ressalta que o diferencial de juros continua elevado e que um corte marginal da Fed Funds “não altera substancialmente” esse hiato. Ainda assim, a ausência de entradas relevantes de capital estrangeiro, ou mesmo de repatriamento de recursos de brasileiros, colocaria em xeque a tese de que o câmbio estaria reagindo a uma onda de carry.

Carry trade mais intenso com diferencial de juros maior?

Na avaliação do economista, o raciocínio linear (diferencial alto = mais carry = real mais forte) ignora dois pontos centrais:

  • Fluxo efetivo: sem entradas consistentes nos dados semanais, a hipótese perde força;
  • Atividade e lucros: cortes de juros no exterior costumam estar associados à desaceleração econômica, o que tende a pressionar resultados corporativos adiante.

Por isso, Sanchez não descarta uma reprecificação mais à frente, caso a realidade de lucros se imponha: “O investidor que compra bolsa agora e projeta alvos muito acima admite que, no curto prazo, os resultados podem ser piores com a atividade mais fraca”.

Por que o rali de ações pode não ser linear

O economista destaca que a alta de bolsa em meio a sinais de arrefecimento da atividade pode refletir horizontes de investimento distintos. Há quem opere uma janela tática, “com o entendimento de que, quando os resultados vierem, haverá ajuste” e quem mire uma melhora mais adiante. Ainda assim, ele vê baixa probabilidade de um ciclo “sem sobressaltos” no curto prazo:

  • Crédito mais caro e restrito: tende a pesar sobre consumo e investimentos;
  • Pressão em margens: com atividade mais fraca, lucros podem desapontar entre o 3º tri e o início do próximo ano;
  • Reprecificação de risco: o mercado pode alternar janelas de euforia e cautela conforme os resultados apareçam.

“Os dados de fluxo não corroboram a narrativa”

Para Sanchez, a chave é voltar aos números: “Se o carry trade estivesse de fato acelerando, veríamos isso nos dados de fluxo cambial e no balanço de pagamentos. Não é o que temos observado”. Ele lembra que, mesmo com a perspectiva de cortes adicionais na taxa americana, o diferencial segue alto, mas isso por si só não garante o ingresso de capital se houver dúvidas sobre crescimento e lucros.

O que observar daqui para frente?

Além disso, o economista sugere uma agenda objetiva para validar, ou refutar, as teses que hoje circulam no mercado:

  • Fluxo cambial semanal e balanço de pagamentos: entradas líquidas e composição (investimento, dívida, carteira);
  • Temporada de resultados: direcional de receitas, margens e guidance setorial;
  • Condições de crédito: custo, disponibilidade e inadimplência por segmento;
  • Curva de juros: leitura de prêmio de risco e sensibilidade a dados de atividade e inflação;
  • Sinais externos: ritmo dos cortes do Fed e leituras de crescimento global.

Carry trade intensifica ou não?

Nesse sentido, a resposta de Sanchez é condicional: o diferencial de juros elevado é condição necessária, mas não suficiente. “Sem comprovação de fluxo, a história fica incompleta”. Enquanto isso, a bolsa pode continuar precificando “o futuro melhor”, mas com a ressalva de que resultados de curto prazo tendem a refletir a desaceleração em curso. “O Ibovespa pode garantir algo lá na frente; no curto prazo, não vejo um fluxo robusto para renda variável com a atividade batendo agora”, diz.

O diagnóstico do economista-chefe da Ativa é um convite a trocar narrativa por evidência. O diferencial de juros ajuda, mas o veredito sobre a intensidade do carry trade dependerá de algo bem prosaico: entradas mensuráveis de capital e resultados que sustentem as cotações. Enquanto isso, o investidor deve calibrar horizontes e expectativas, atento às próximas leituras de fluxo, crédito e lucros.

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