O mercado acionário brasileiro começou 2026 em modo “risk on”. Em meio a um movimento global de rotação de capital para fora dos ativos americanos e fortalecimento da tese de desvalorização estrutural do dólar, o Ibovespa registrou um rali histórico em janeiro, com alta de 12,6% em reais e 17,4% em dólares, superando com folga o desempenho de outros mercados emergentes e desenvolvidos.
Segundo relatório da XP, o Brasil emergiu como um dos principais beneficiários desse novo regime macro global, marcado pela busca por ativos reais, commodities e mercados com maior sensibilidade a fluxos internacionais.
O movimento não se restringiu à bolsa brasileira. No mercado internacional, o ouro subiu cerca de 12% no mês, enquanto a prata avançou 17%, refletindo o reposicionamento global de portfólio em direção a instrumentos de proteção contra a perda de poder de compra das moedas fortes.
R$ 23 bilhões em um único mês
O dado que melhor traduz a magnitude do movimento está nos fluxos. Apenas em janeiro, os investidores estrangeiros aportaram R$ 23,1 bilhões em ações brasileiras, segundo dados da B3 compilados pela XP. O volume representa quase 90% de todo o fluxo líquido registrado ao longo de 2025 inteiro.
Na prática, o relatório aponta que o mercado brasileiro segue, por ora, 100% ancorado em capital estrangeiro, enquanto investidores institucionais locais e pessoas físicas continuam majoritariamente como vendedores líquidos.
Parte relevante dessas entradas veio de veículos passivos, como ETFs ligados ao Brasil e a mercados emergentes, o que reforça a leitura de que o movimento não é apenas tático, mas sim uma realocação estrutural de portfólio em nível global.
Commodities e large caps lideram
No recorte setorial, janeiro foi positivo para todos os segmentos da bolsa, mas com destaque claro para setores ligados a commodities e ativos reais.
Os maiores desempenhos vieram de:
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Educação (+34,5%)
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Mineração & Siderurgia (+20,1%)
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Óleo & Gás (+21,4%)
Vale e Petrobras figuraram entre os principais vetores do rali, beneficiadas tanto pela alta dos preços internacionais das commodities quanto pela entrada de fluxo estrangeiro em papéis de grande liquidez.
Para a XP, o Brasil se diferencia de outros emergentes por reunir três características-chave: forte peso de commodities no índice, exposição direta a ativos reais e expectativa de início do ciclo de cortes de juros domésticos a partir de março.
Um mercado menor, mais sensível a fluxo
Outro ponto estrutural destacado no relatório é a contração do próprio mercado de capitais brasileiro nos últimos anos. O número de empresas listadas caiu de forma relevante, e o volume médio diário negociado recuou cerca de 30% desde 2021.
Esse encolhimento da oferta de ações torna o mercado mais sensível a movimentos marginais de demanda. Em um ambiente com menos papéis disponíveis, qualquer fluxo adicional tende a produzir movimentos de preço mais intensos, amplificando ralis como o observado em janeiro.
Valuation ainda sustenta tese construtiva
Apesar da forte valorização recente, a XP avalia que o mercado brasileiro ainda não perdeu completamente seu apelo relativo. O Ibovespa voltou a negociar próximo da sua média histórica de múltiplos, mas segue com desconto em relação a mercados globais, especialmente quando comparado a Estados Unidos e Europa.
A principal métrica que gera mais debate é o prêmio de risco das ações, hoje comprimido em função dos juros reais ainda elevados. Ainda assim, a casa destaca que, historicamente, esse indicador tem baixo poder preditivo para os retornos futuros da bolsa brasileira.
Projeção para o Ibovespa no fim de 2026: entre 190 mil e 235 mil pontos
Além da leitura estrutural para o ciclo, a XP também atualizou suas projeções objetivas para o nível do Ibovespa ao final de 2026. No cenário-base, a casa passou a trabalhar com valor justo de 190 mil pontos, ante estimativa anterior de 185 mil.
A projeção considera uma combinação de quatro metodologias: modelo de fluxo de caixa descontado (DCF), múltiplo alvo de 11 vezes lucro, múltiplo de 6 vezes EV/EBITDA e abordagem bottom-up a partir dos preços-alvo dos analistas para cada empresa do índice.
No cenário otimista, a XP estima que o Ibovespa possa atingir até 235 mil pontos, caso se materialize uma combinação de queda adicional dos juros reais, nova expansão de múltiplos e surpresas positivas no crescimento dos lucros corporativos.
Já no cenário pessimista, com compressão de resultados e manutenção de juros reais elevados, a projeção recua para cerca de 144 mil pontos, o que implicaria uma correção relevante em relação aos níveis atuais.
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