O Fórum Econômico Mundial começou nesta segunda-feira (19), em Davos, na Suíça, reunindo mais de 3 mil delegados de 130 países, entre eles 64 chefes de Estado e de governo. Em sua 55ª edição, o encontro acontece até o dia 23 de janeiro sob o tema “Um Espírito de Diálogo”, com o objetivo declarado de estimular cooperação entre governos, empresas e organismos internacionais, ainda que o clima político indique crescente fragmentação global.
Logo na abertura, a pauta econômica se misturou à geopolítica, com disputas comerciais, conflitos regionais e a escalada de tensões entre Estados Unidos e Europa dominando os debates paralelos ao fórum.
Brasil marca presença em Davos, mas sem Lula
O Brasil está representado oficialmente pela ministra da Gestão e da Inovação dos Serviços Públicos, Esther Dweck, que participa de painéis ligados à transformação digital do Estado e da reunião do Global Digital Collaboration (GDC), grupo que reúne governos, empresas, sociedade civil e organismos internacionais para discutir soluções digitais.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva não participa da edição de 2026. O Palácio do Planalto informou que a ausência reflete a decisão de priorizar o Fórum Econômico Internacional da América Latina e Caribe, que será realizado no Panamá na próxima semana, evento apelidado internamente de “Davos Latino-Americana”.
Trump, Groenlândia e o risco de guerra comercial
A principal expectativa política de Davos está em torno da participação do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que discursa na quarta-feira (21) e participa de eventos adicionais na quinta. Antes mesmo de chegar à Suíça, Trump já havia provocado forte reação ao reiterar o desejo de que os EUA assumam o controle da Groenlândia, território autônomo ligado ao Reino da Dinamarca.
“Temos que conseguir”, afirmou o presidente americano, ao dizer que não acredita em grande resistência europeia. Trump sustenta que a iniciativa é necessária para proteger a região de possíveis ameaças russas e chinesas, embora analistas apontem que o interesse americano está fortemente ligado à presença de terras raras e minerais estratégicos no território ártico.
O secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, advertiu que eventuais retaliações da União Europeia seriam “pouco sensatas”, elevando o tom da disputa.
Europa reage e defende soberania
A resposta europeia veio em bloco. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, que defendeu de forma inequívoca a soberania da Groenlândia e da Dinamarca.
“Tarifas são um erro, especialmente entre aliados de longa data”, afirmou.
Von der Leyen anunciou um novo pacote europeu para a segurança do Ártico, baseado em três pilares: a soberania inegociável da Groenlândia e da Dinamarca, um aumento significativo de investimentos no território e cooperação com os EUA em uma estratégia de segurança mais ampla para a região. A dirigente também ressaltou que a Europa buscará maior independência estratégica em relação a Washington.
O presidente da França, Emmanuel Macron, reforçou o discurso crítico, afirmando que a Europa pode ser mais lenta, mas é previsível e baseada no Estado de Direito, característica que, segundo ele, se tornou uma vantagem no atual cenário global. Macron ainda propôs uma cúpula do G7 em Paris para discutir a crise, mas deixou Davos sem se reunir com Trump.
Tarifas, ameaças e crise transatlântica
Trump anunciou que pretende impor tarifas iniciais de 10% sobre produtos de países como Dinamarca, França, Alemanha e Reino Unido a partir de fevereiro de 2026, elevando-as para 25% em junho caso haja oposição ao plano envolvendo a Groenlândia. Em um movimento adicional de pressão, o presidente americano ameaçou aplicar tarifas de 200% sobre vinhos e champanhes franceses.
Para o presidente da Finlândia, Alexander Stubb, ameaças tarifárias entre aliados são “inaceitáveis” e enfraquecem a relação transatlântica, criando um ciclo de desconfiança. Apesar do tom duro, Stubb avalia como improvável uma ação militar americana na Groenlândia.
América Latina em Davos e os conflitos globais
Representando a América Latina em Davos estão os presidentes Javier Milei (Argentina), José Raúl Mulino (Panamá) e Daniel Noboa (Equador).
Além da Groenlândia, o fórum discute crises em Gaza, Ucrânia, Irã e Venezuela, reforçando o tom de instabilidade que marca a edição de 2026. Em meio ao discurso oficial de diálogo, Davos se consolida, mais uma vez, como o retrato de um mundo em transição, e cada vez mais fragmentado.












