A Noruega está construindo a primeira autoestrada flutuante do mundo, um projeto de engenharia inédito que vai revolucionar o transporte no país. Por US$ 40 bilhões, a rodovia E39 ligará Kristiansand a Trondheim com túneis submersos suspensos a 30 metros de profundidade, eliminando balsas e cortando o tempo de viagem de 21 para apenas 10 horas.
O que é o projeto E39 e por que ele é necessário?
A rodovia E39 é uma via costeira de 1.100 quilômetros que conecta as cidades de Kristiansand, no sul, e Trondheim, no centro da Noruega. Atualmente, quem percorre esse trajeto enfrenta sete travessias de balsa, que somam horas de espera e navegação, especialmente em condições climáticas adversas. O objetivo do governo norueguês é eliminar todas as balsas, substituindo-as por pontes e túneis de alta capacidade.
A grande inovação está nos fiordes profundos, como o Boknafjord, que chega a 600 metros de profundidade. Construir pontes convencionais nesses locais exigiria torres de mais de 450 metros de altura, um custo proibitivo e um desafio técnico imenso. A solução encontrada foram os túneis flutuantes submersos, uma tecnologia nunca antes empregada em escala rodoviária.

O canal Conhecimento Global, com 377 mil inscritos, produziu um vídeo detalhando o megaprojeto norueguês. A reportagem mostra como os engenheiros planejam construir os túneis flutuantes e os desafios envolvidos. Confira:
Como funciona um túnel flutuante submerso?
O conceito é simples na teoria, mas complexo na execução. Tubos cilíndricos de concreto pré-fabricados com duas pistas cada são suspensos a 30 a 70 metros de profundidade, ancorados no fundo do fiorde por cabos de aço e pesos de concreto. Essa profundidade foi escolhida para evitar colisões com navios de grande porte e minimizar os efeitos das correntes marítimas.
Os túneis “flutuam” controlados por lastro, ou seja, o equilíbrio entre o peso da estrutura e a flutuação é cuidadosamente calculado para que ela não afunde nem suba demais. A cada 250 metros, há saídas de emergência e sistemas de ventilação por jatos de ar para garantir a segurança em caso de acidentes.
O principal desafio é a estabilidade. O túnel precisa resistir a correntes fortes, ondas internas e até mesmo a possíveis tremores de terra. Modelagens computacionais avançadas e testes em tanques de onda estão sendo usados para validar o projeto antes da construção em escala real.

Qual é o destaque do túnel Rogfast?
O Rogfast (Rogaland Fixed Link) é a peça central do projeto E39. Será o túnel submarino rodoviário mais longo e mais profundo do mundo, com 27 quilômetros de extensão e 392 metros abaixo do nível do mar. Ele ligará as cidades de Randaberg e Bokn, atravessando o Boknafjord e eliminando uma das balsas mais movimentadas do país.
Diferente dos túneis flutuantes, o Rogfast será escavado na rocha, usando explosivos em vez das caríssimas tuneladoras (TBMs). A escolha pelo método tradicional se deve à geologia estável da região e ao custo significativamente menor. A obra começou em 2020 e deve ser concluída na próxima década.
A tabela abaixo resume as principais características do projeto E39 e do túnel Rogfast:
| Característica | Detalhe |
|---|---|
| Extensão total da E39 | 1.100 km (Kristiansand a Trondheim) |
| Travessias eliminadas | 7 balsas |
| Redução do tempo de viagem | De 21 para 10 horas |
| Custo total estimado | US$ 40 a 47 bilhões |
| Profundidade dos túneis flutuantes | 30 a 70 metros |
| Comprimento do Rogfast | 27 km |
| Profundidade máxima do Rogfast | 392 metros abaixo do nível do mar |
| Previsão de conclusão | ~2050 (todo o projeto E39) |

Por que pontes convencionais não são viáveis nos fiordes?
Os fiordes noruegueses são formações geológicas únicas, com paredes íngremes e profundidades que chegam a centenas de metros. Construir uma ponte suspensa convencional no Boknafjord, por exemplo, exigiria torres de mais de 450 metros de altura, superando qualquer estrutura já erguida. Além do custo astronômico, a estabilidade dessas torres em ventos fortes e correntes marítimas seria um problema de engenharia quase insolúvel.
As pontes flutuantes convencionais também são inviáveis, pois ocupariam a superfície e bloqueariam a navegação de navios de grande porte, essenciais para a economia norueguesa. Daí a ideia dos túneis submersos, que ficam fora da rota das embarcações e não interferem na paisagem.
Alguns dos benefícios esperados com a conclusão do projeto E39 incluem:
- Redução drástica no tempo de viagem: De 21 para 10 horas entre as duas principais cidades.
- Eliminação da dependência de balsas: Fim das esperas e cancelamentos por mau tempo.
- Estímulo à economia regional: Redução de custos logísticos para exportações, que representam 57% do PIB do oeste norueguês.
- Sustentabilidade: Projeto classificado como “climate+ road project”, com foco em reduzir emissões.
- Inovação tecnológica: Desenvolvimento de técnicas construtivas que podem ser exportadas para outros países com geografia similar.
Qual é o cronograma e o custo do megaprojeto?
O plano completo da E39 tem previsão de conclusão apenas por volta de 2050, dada a magnitude das obras. O custo total está estimado entre US$ 30 bilhões e US$ 47 bilhões, dependendo das soluções tecnológicas adotadas em cada trecho. O financiamento virá de pedágios, que devem operar por décadas para cobrir o investimento.
De acordo com a BBC, a Noruega é um dos países mais ricos do mundo graças ao petróleo, e parte dessa riqueza está sendo investida em infraestrutura de longo prazo. O país vê o projeto como essencial para manter sua competitividade e qualidade de vida.
O túnel Rogfast, por exemplo, terá pedágio estimado em torno de US$ 35 a US$ 45 por veículo (preços atuais), mas o ganho em tempo e segurança compensa para motoristas e transportadoras. A previsão é que o fluxo de veículos justifique o investimento ao longo das próximas décadas.
O que torna essa obra um marco na engenharia mundial?
O projeto E39 combina várias tecnologias de ponta: túneis escavados em rocha, pontes suspensas de recorde e, principalmente, os túneis flutuantes submersos. Estes últimos são uma inovação tão grande que alguns engenheiros comparam ao salto das pontes de aço para as pontes estaiadas no século XX.
Segundo a Global Highways, a Noruega está pavimentando o caminho para que outros países com geografia costeira acidentada, como Canadá, Chile e Nova Zelândia, possam adotar soluções semelhantes. O sucesso do projeto pode abrir um novo mercado para a engenharia de túneis subaquáticos.

