Antes da decretação da liquidação extrajudicial pelo Banco Central, o Will Bank foi tratado no mercado como um ativo com potencial de venda e chegou a atrair investidores institucionais relevantes. Entre eles, esteve um fundo de private equity ligado à XP Investimentos, que participou de um aporte realizado em 2021, quando a fintech ainda era vista como uma aposta de crescimento no segmento de serviços financeiros voltados ao público desbancarizado.
Criado em 2017 a partir do emissor de cartões pag!, o Will Bank construiu uma base concentrada no Nordeste, região que reúne cerca de 60% de seus usuários, muitos deles em cidades de pequeno porte. Em 2020, a instituição passou por uma reformulação estratégica, adotou a marca Will Bank e ampliou seu portfólio de produtos, incluindo conta digital remunerada, Pix, pagamentos de boletos, crédito pessoal, antecipação do saque-aniversário do FGTS e um marketplace com sistema de cashback.
XP e o Will Bank
O aporte de cerca de R$ 250 milhões realizado em 2021 por um fundo de private equity estruturado pela XP Investimentos, em parceria com a Atmos Capital, resultou em uma participação minoritária de 24,9% no capital da fintech. À época, a operação reforçou a percepção de que o Will Bank poderia se consolidar como um ativo relevante no ecossistema financeiro digital brasileiro.
No ano seguinte, a instituição incorporou a equipe e as parcerias da startup de cashback Getmore, acelerando sua estratégia de vendas online e de marketplace. Apesar do crescimento, o banco passou a enfrentar dificuldades operacionais e ressalvas apontadas por auditorias, o que levou o Banco Central a adotar um regime especial com o objetivo de preservar a continuidade das operações enquanto se buscava uma solução de mercado.
Em 2024, após aval do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e do Banco Central, o Will Bank passou por uma reestruturação societária relevante. O controle da Will Instituição de Pagamento foi transferido ao Grupo Reag, enquanto a Will Financeira passou para o controle do Grupo Master, comandado por Daniel Vorcaro. Como parte do processo, ativos e passivos ligados ao arranjo de pagamentos começaram a ser transferidos da instituição de pagamento para a financeira.
Interesse de compradores
Mesmo diante das dificuldades, houve interesse de potenciais compradores. Fundos internacionais chegaram a avaliar a aquisição da instituição, além de negociações envolvendo a Mastercard. O regime especial buscava justamente ganhar tempo para viabilizar uma venda a um novo investidor, o que acabou não se concretizando.
Paralelamente à reestruturação do Will Bank, a XP Investimentos liderou a distribuição de papéis do grupo Master no mercado. Estimativas do setor indicam que a corretora teria vendido cerca de R$ 26 bilhões em CDBs do Banco Master e aproximadamente R$ 4 bilhões em papéis do Will Bank, já sob a estrutura do Banco Master Múltiplo. Outras instituições também participaram da distribuição, como o BTG Pactual, com cerca de R$ 6,7 bilhões, e o Nubank, com R$ 2,9 bilhões. Quase todos os títulos eram elegíveis à cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
Segundo apuração de mercado, o Banco Central retardou a decretação da liquidação para permitir a venda do banco a um investidor estrangeiro de origem árabe. A negociação, no entanto, não avançou. O desfecho ocorreu após a comunicação de inadimplência relevante junto a parceiros estratégicos, o que levou à interrupção de operações consideradas essenciais para o funcionamento da instituição.
Diante do acúmulo de dívidas e da frustração da venda, o Banco Central concluiu que o funcionamento da instituição financeira se tornara inviável e decretou a liquidação extrajudicial. A medida implica o encerramento das atividades sem processo judicial, com pagamento organizado aos credores.
O que diz a XP
A BM&C News procurou a XP Investimentos para comentar a participação do fundo de private equity no Will Bank, a atuação na distribuição de papéis do grupo Master e os critérios adotados para avaliação de risco desses produtos.
Até o fechamento desta reportagem, a XP não havia se manifestado. O espaço para o posicionamento segue aberto.













