A digitalização do sistema financeiro não está apenas acelerando a inovação em crédito e pagamentos. Ela também está mudando a forma como esses serviços chegam ao consumidor. Nesse contexto, dois modelos têm ganhado espaço no debate sobre transformação do setor: as fintechs e o embedded finance.
Embora muitas vezes tratados como sinônimos, os dois conceitos representam etapas diferentes dentro da nova estrutura financeira digital. A distinção ajuda a entender como empresas estão reorganizando suas estratégias de receita, relacionamento com clientes e expansão de produtos.
Segundo Uilan Coqueiro, CEO da Ukamsoft, a diferença central está no papel que cada modelo exerce dentro da cadeia.
“Fintech e embedded finance não são opostos, mas camadas diferentes. A fintech é quem constrói e opera o produto financeiro; o embedded finance é a estratégia que leva esse produto para dentro da experiência de uma empresa que não nasceu financeira”, afirma.
Como funcionam o embedded finance e as fintechs
Na prática, fintechs surgem como empresas dedicadas a resolver problemas financeiros específicos utilizando tecnologia. Já o embedded finance permite que companhias de outros setores integrem serviços financeiros à sua jornada digital, ampliando o valor da experiência oferecida ao cliente.
Principais diferenças –
Fintech
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Atua diretamente no desenvolvimento de produtos financeiros;
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Pode assumir responsabilidades regulatórias;
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Tem o serviço financeiro como produto principal;
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Relaciona-se diretamente com o cliente final.
Embedded finance –
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Integra serviços financeiros à experiência de empresas não financeiras;
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Funciona como camada tecnológica e estratégica;
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Usa crédito, pagamentos ou seguros como complemento de receita;
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Surge dentro da jornada digital do usuário.
Comparação estrutural entre embedded finance e as fintechs
| Aspecto | Fintech | Embedded finance |
|---|---|---|
| Produto central | Serviços financeiros digitais | Experiência integrada com serviços financeiros |
| Papel na cadeia | Desenvolvimento e operação | Integração entre empresas, tecnologia e instituições financeiras |
| Relação com cliente | Direta | Indireta, dentro de plataformas não financeiras |
| Estratégia de receita | Oferta de soluções financeiras | Monetização adicional dentro da jornada do consumidor |
| Exemplo de uso | Conta digital, app de crédito | Crédito ou pagamento dentro de marketplace ou app de mobilidade |
Mudança estrutural no setor financeiro
O avanço desses modelos reflete uma transformação mais ampla: serviços financeiros deixam de ser apenas um produto isolado e passam a funcionar como uma infraestrutura distribuída. Isso permite que empresas de varejo, educação, mobilidade ou serviços ampliem sua atuação sem se tornarem instituições financeiras tradicionais.
Na avaliação do executivo, a evolução tecnológica contribui para a confusão entre os conceitos.
“Com APIs, Banking as a Service e parcerias entre empresas e instituições financeiras, muita gente enxerga apenas o resultado final e não as camadas que tornam a operação possível. Isso gera uma percepção equivocada de que tudo é fintech”, explica.
Essa nova configuração tende a intensificar a competição no setor, ao mesmo tempo em que amplia as possibilidades de inovação e monetização para empresas de diferentes segmentos. O movimento também aumenta a relevância de temas como governança, compliance e rastreabilidade das operações financeiras digitais.
“Empresas precisam olhar além do hype e analisar governança, compliance e rastreabilidade. Embedded finance bem estruturado exige infraestrutura confiável e processos auditáveis desde o início”, afirma.
Tendência é de complementaridade
Para especialistas do setor, fintechs e embedded finance devem avançar de forma complementar nos próximos anos. Enquanto as primeiras seguem responsáveis pela criação e operação de produtos financeiros digitais, o segundo modelo tende a ampliar a presença desses serviços em ambientes cada vez mais integrados à rotina do consumidor.
Esse processo reforça uma mudança estratégica no sistema financeiro: o acesso ao crédito, aos pagamentos e a outros serviços passa a ocorrer de maneira mais fluida, diluído dentro das plataformas digitais que concentram a jornada do usuário.













