O caso do Banco Master, liquidado extrajudicialmente pelo Banco Central, tornou-se um divisor de águas na história recente do sistema financeiro brasileiro, justamente por ir além da esfera financeira e passar a ser tratado, nos bastidores de Brasília, como um caso político-institucional. O inquérito reúne suspeitas de fraudes bilionárias, mas ganhou outra dimensão ao incorporar articulações com agentes públicos, conexões partidárias e tentativas de uso de estruturas do Estado em operações sensíveis, do avanço de consignados em governos estaduais à negociação frustrada de venda do banco a uma instituição pública.
Controlado pelo empresário Daniel Vorcaro, o banco teve crescimento acelerado a partir de 2019, num movimento que, segundo as informações reunidas no dossiê, se apoia em três frentes que se cruzam: negócios com forte dependência de ambientes regulados (como consignados para servidores), acesso a circuitos de influência política e relações institucionais que hoje estão sob escrutínio, incluindo o fato de a investigação tramitar no STF, sob relatoria de Dias Toffoli.
Esse pano de fundo ajuda a explicar por que o episódio passou a ser lido não apenas como um colapso bancário, mas como um teste de limites entre finanças, poder e Estado.
Banco Master: o tamanho do rombo e o risco sistêmico
As estimativas oficiais indicam fraudes diretas entre R$ 11,5 bilhões e R$ 12 bilhões, principalmente por meio de triangulações financeiras realizadas entre 2023 e 2025. Quando considerados os efeitos colaterais da liquidação de instituições ligadas ao ecossistema do Master, como o Will Bank e fundos administrados pela Reag DTVM, o impacto total pode chegar a R$ 47,3 bilhões.
Parte relevante do risco foi transferida ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC), que precisou iniciar um dos maiores processos de ressarcimento da sua história, elevando a tensão entre o Banco Central, o sistema financeiro e órgãos de controle.
O coração do esquema: consignados, fundos e ativos fictícios
As investigações apontam que o núcleo do crescimento do Master esteve ligado ao uso de crédito consignado, especialmente o programa CredCesta, inicialmente estruturado na Bahia. Um decreto estadual assinado em 2019 facilitou a operação com servidores públicos, permitindo a expansão acelerada da carteira.
Esse modelo teria sido replicado em outros estados e combinado com fundos de investimento usados para mascarar prejuízos e inflar artificialmente o patrimônio do banco. Seis fundos administrados pela Reag, com patrimônio agregado superior a R$ 100 bilhões, entraram no radar da Polícia Federal por suspeitas de lavagem de dinheiro e conexões com organizações criminosas.
STF: as conexões institucionais sob escrutínio
Um dos aspectos mais sensíveis do caso Banco Master envolve as relações institucionais mantidas pela instituição e por seu controlador com integrantes do Supremo Tribunal Federal (STF). O inquérito que apura as fraudes corre na Corte, sob o argumento de que há autoridades com foro privilegiado citadas em diferentes frentes da apuração.
As informações abaixo constam de reportagens jornalísticas e documentos reunidos no dossiê e não representam conclusões judiciais definitivas.
Dias Toffoli
Relator do inquérito do Banco Master no STF, Toffoli aparece no centro do processo por função institucional. Reportagens indicam que o ministro participou de eventos jurídicos no Brasil e no exterior patrocinados pelo Banco Master entre 2022 e 2025.
Não há contratos diretos identificados com Toffoli, mas seus irmãos foram sócios do resort Tayayá, adquirido por um fundo de investimentos ligado ao Banco Master (via cunhado de Daniel Vorcaro). Além disso, o endereço residencial de uma cunhada de Toffoli foi usado como sede de uma empresa ligada ao esquema, embora ela
negue envolvimento.
Gilmar Mendes
Gilmar Mendes é citado por participação em eventos jurídicos patrocinados pelo Banco Master, incluindo fóruns internacionais voltados ao debate institucional e econômico. Até o momento, não há indicação de contratos de prestação de serviços ou vínculos comerciais diretos com o banco, segundo as informações reunidas.
Alexandre de Moraes
O nome de Alexandre de Moraes aparece de forma mais sensível no dossiê. Além da participação em eventos patrocinados pelo banco, reportagens indicam que o escritório de advocacia de sua esposa, Viviane Barci de Moraes, firmou contrato com o Banco Master, com valores que somariam R$ 129 milhões ao longo de três anos, para atuação em diferentes frentes institucionais.
Moraes nega qualquer interferência ou atuação pessoal relacionada ao caso, e o contrato está sob escrutínio das investigações.
Luiz Fux
Luiz Fux também é citado por participação em eventos patrocinados pelo Banco Master, no Brasil e no exterior. Assim como em outros casos, não há registros públicos de contratos diretos ou prestação de serviços envolvendo o ministro.
Luís Roberto Barroso
Barroso participou de eventos institucionais patrocinados pelo banco, inclusive durante o período em que ocupava a presidência do STF. As menções se concentram na presença em fóruns e encontros jurídicos, sem indicação de contratos ou relações comerciais diretas com o Banco Master.
Ricardo Lewandowski
Ex-ministro do STF e atual ministro da Justiça aparece como cliente do Banco Master e como beneficiário de contratos de consultoria jurídica firmados com a instituição, com o contrato continuando por quase dois anos após ele assumir o Ministério da Justiça
Conexões políticas e institucionais do Banco Master
Além da extensa ligação com os ministros do Supremo, as investigações revelaram uma rede de conexões políticas, com destaque para a Bahia, onde o modelo de consignados ganhou escala. Figuras do PT baiano, como Rui Costa e Jaques Wagner, aparecem citadas em reportagens e investigações por decretos, articulações políticas e relações institucionais que favoreceram o crescimento do banco.
O caso, no entanto, transcende um único espectro ideológico. Há menções a líderes do Centrão, ex-presidentes da República, ex-ministros da Fazenda e ex-presidentes do Banco Central, evidenciando um sistema de influência transversal e institucionalizado.
Esse conjunto de conexões ajuda a explicar por que o caso Banco Master deixou de ser apenas um episódio de colapso bancário e passou a ser tratado como um teste institucional para o sistema financeiro, o Judiciário e os mecanismos de controle do Estado brasileiro.
Tentativa de venda ao BRB e o uso de recursos públicos
Um dos episódios mais sensíveis do caso foi a tentativa de venda do Banco Master ao BRB (Banco de Brasília), firmada em março de 2025. O acordo foi barrado pelo Banco Central após avaliação de riscos relevantes, incluindo a possibilidade de uso de recursos públicos para cobrir rombos privados.
Controle de narrativa: influenciadores e mídia
Outro eixo do caso envolve o chamado “Projeto DV”, que teria contratado dezenas de influenciadores digitais para campanhas coordenadas de ataque ao Banco Central e defesa do Banco Master após a liquidação. Os contratos, segundo apurações, chegavam a R$ 2 milhões por trimestre.
Paralelamente, Daniel Vorcaro teria realizado investimentos relevantes em veículos de mídia, com o objetivo de influenciar o debate público e reduzir o desgaste reputacional do banco.
Banco Master: um caso que expõe fragilidades estruturais
Mais do que um escândalo financeiro, o caso Banco Master escancara fragilidades profundas do sistema institucional brasileiro: falhas de supervisão, captura política, conflitos de interesse e dificuldade de responsabilização em estruturas complexas e interligadas.
Com investigações ainda em curso, o desfecho do caso deve ter impactos duradouros sobre o sistema financeiro, o ambiente regulatório e a credibilidade das instituições, um teste decisivo para a capacidade do Estado brasileiro de enfrentar esquemas sofisticados de fraude em larga escala.













