A crise da Raízen passou a preocupar investidores e analistas do mercado financeiro após um movimento intenso de venda de títulos da companhia e também de papéis ligados à sua controladora, a Cosan. Para especialistas, o episódio vai além de um problema isolado e reacende o debate sobre o nível de risco das empresas brasileiras em um cenário de juros elevados.
Em entrevista à BM&C News, o estrategista-chefe da RB Investimentos, Gustavo Cruz, afirmou que o principal fator por trás da deterioração da percepção de risco corporativo é o custo do crédito no Brasil.
“Ele mostra que as empresas estão sofrendo muito com patamar elevado de juros de 15%. Elas estão tendo que pagar um endividamento ainda maior”, explicou.
Segundo o analista, somente a Raízen teria uma despesa anual de aproximadamente R$ 7 bilhões com juros no atual ambiente monetário.
Juros altos aumentam crise da Raízen
O caso ganhou relevância justamente porque envolve uma das maiores companhias do setor de energia e combustíveis do país. Para Cruz, se uma empresa desse porte enfrenta dificuldades financeiras, o impacto tende a ser mais amplo.
“Mesmo as maiores, que têm mais acesso aos grandes bancos para renegociar dívidas e fazer novas emissões, enfrentam problemas”, afirmou.
O estrategista destaca que o cenário atual não afeta apenas companhias alavancadas. A política monetária restritiva atinge a economia como um todo, ao reduzir investimentos, contratação e expansão de negócios.
“Tem um custo levar a taxa de juros para um patamar tão alto. A inflação melhora, mas você machuca muito o financeiro das empresas. Elas deixam de investir e de contratar”, disse.
Crise da Raízen e o risco de efeito cascata
Uma das principais preocupações do mercado é a possibilidade de um impacto sistêmico caso a situação financeira da empresa se agrave. De acordo com Cruz, uma eventual recuperação judicial teria repercussões relevantes.
“Se a Raízen vai para algum pedido de recuperação judicial, ela não está no FGC. Pode atrasar pagamentos de fornecedores e gerar um efeito cascata bem negativo para a economia brasileira pelo tamanho da companhia”, avaliou.
O analista observa ainda que a empresa possui um endividamento elevado, próximo de R$ 70 bilhões, e precisaria levantar recursos para estabilizar sua situação financeira ao longo de 2026.
Enquanto isso, o comportamento dos investidores já mudou.
“Desde a semana passada há uma corrida para tentar se livrar dos papéis. No mercado secundário tem muito vendedor e pouquíssimo comprador”, afirmou.
Mercado de crédito corporativo sob pressão
A crise também reacendeu temores sobre o mercado de dívida privada no Brasil. Segundo Cruz, o movimento lembra episódios recentes envolvendo outras companhias e coincide com um aumento nos pedidos de recuperação judicial.
“Historicamente, quando você tem taxas de juros muito elevadas, cresce a correlação de dificuldades das empresas e de recuperações judiciais”, disse.
Ele destaca ainda que o crédito ao agronegócio já vinha mostrando sinais de restrição. Investidores passaram a exigir maior prêmio de risco e demonstram mais cautela ao financiar empresas.
“Quem oferta crédito observa escassez e maior desconfiança do investidor com esse tipo de produto”, explicou.
Impactos na economia
Apesar dos efeitos positivos da política monetária sobre a inflação, o estrategista avalia que o aperto financeiro tende a desacelerar a atividade econômica.
“O benefício aparece com inflação mais controlada, mas há o outro lado: taxa de juros muito alta tem efeito negativo sobre a economia”, afirmou.
Para o mercado, a crise da Raízen tornou-se um sinal relevante porque pode indicar uma mudança de ciclo no crédito corporativo. Caso o custo de financiamento permaneça elevado, outros setores, como varejo e construção civil, também podem enfrentar dificuldades.
O episódio, portanto, passou a ser visto não apenas como um problema de uma companhia específica, mas como um possível indicador de estresse financeiro mais amplo na economia brasileira.












