A discussão sobre inteligência artificial e empregos deixou de ser um debate futurista. Ela virou uma questão econômica concreta.
Durante a Revolução Industrial, máquinas substituíram esforço físico. Agora, a inteligência artificial começa a substituir tarefas cognitivas, justamente o tipo de atividade que sustentou a expansão do setor de serviços e da classe média nas últimas décadas.
Relatórios, análises financeiras, atendimento ao cliente, organização de dados e parte da produção de conteúdo já podem ser realizados por sistemas automatizados. A mudança não está mais limitada à indústria. Ela entra diretamente no escritório.
O estudo exclusivo do economista Carlos Honorato parte de uma provocação: a questão central não é se a tecnologia afetará o emprego, mas como o sistema econômico vai funcionar quando parte relevante do trabalho humano deixar de ser necessário.
A IA já está alterando mercados e decisões empresariais, e o resultado dependerá das escolhas feitas agora por empresas, trabalhadores e governos.
O impacto da inteligência artificial no emprego
As projeções indicam uma transformação equivalente a cerca de 22% dos empregos globais até 2030.
Isso não significa que um quinto dos trabalhadores ficará sem ocupação. Significa algo mais estrutural: funções serão redesenhadas.
O próprio estudo destaca que o emprego deixa de ser uma posição fixa e passa a ser um conjunto de tarefas. Algumas serão automatizadas, outras ampliadas pela tecnologia e outras continuarão essencialmente humanas.
Ou seja: a inteligência artificial não elimina necessariamente profissões inteiras, ela elimina partes das profissões.
Quais empregos estão mais expostos
Diferentemente do imaginário popular, a primeira onda de automação não ocorre na fábrica.
Ela ocorre no escritório. Funções administrativas e clericais, como entrada de dados, triagem de documentos, relatórios padronizados e atendimento básico, possuem alta exposição à automação.
Hoje, cerca de 40% dos empregos do mundo já estão expostos à inteligência artificial.
Mas exposição não significa demissão imediata. Metade desses postos tende a ser pressionada, enquanto a outra metade pode ganhar produtividade e renda.
A divisão passa a ser outra: trabalhadores que utilizam a tecnologia versus trabalhadores substituídos por ela.
O paradoxo atual da inteligência artificial nos empregos
Apesar do avanço da tecnologia, a revolução ainda não aparece totalmente nos indicadores econômicos.
Cerca de 70% das empresas afirmam usar inteligência artificial, mas mais de 80% não registraram impacto relevante em produtividade ou emprego nos últimos anos.
O motivo é simples: a maioria das empresas ainda está testando ferramentas, não reorganizando processos.
“A mudança econômica real ocorre quando a tecnologia passa a integrar o fluxo produtivo — algo que costuma levar anos”, avalia Carlos Honorato.
O verdadeiro problema: renda
A consequência mais importante da relação entre inteligência artificial e empregos pode não ser o desemprego, mas a desigualdade.
Trabalhadores com competências em IA recebem, em média, 56% mais do que profissionais da mesma função sem essas habilidades.
Isso cria um novo tipo de divisão econômica:
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trabalhadores ampliados pela tecnologia;
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trabalhadores substituídos pela tecnologia;
A IA pode aumentar produtividade, mas não necessariamente distribui renda automaticamente.
O desafio brasileiro
O impacto tende a ser mais sensível no Brasil. O país possui alta informalidade, baixa produtividade média e parcela relevante da força de trabalho subutilizada.
Nesse contexto, a adaptação pode ocorrer por dois caminhos:
-
aumento de qualificação e produtividade;
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ou precarização do trabalho;
Sem requalificação em massa, a automação tende a pressionar salários antes mesmo de reduzir vagas.
Um modelo econômico em adaptação
O estudo organiza o futuro em quatro cenários, dependendo da velocidade de adoção da IA e da forma como os ganhos de produtividade serão distribuídos.
Cenário 1 –
O primeiro cenário é o salto inclusivo. Nele, a inteligência artificial se torna uma infraestrutura produtiva ampla, e trabalhadores são requalificados para operar junto à tecnologia. Novas funções surgem, salários sobem e a produtividade cresce de forma disseminada.
A automação substitui tarefas, mas abre espaço para novas ocupações, reduzindo desigualdades.
Cenário 2 –
O segundo é a eficiência concentrada, considerado o mais provável caso nada seja feito. A tecnologia transforma profundamente os processos das empresas, mas os ganhos ficam principalmente com acionistas, executivos e profissionais altamente qualificados. O resultado é automação mais intensa, polarização salarial e pressão social crescente.
Empregos não desaparecem totalmente, mas parte relevante da renda do trabalho se desloca para o capital.
Cenário 3 –
O terceiro cenário é a transição protegida. A adoção da IA ocorre mais lentamente e políticas públicas tentam amortecer os impactos sobre o trabalhador. Há estabilidade no emprego, porém com menor crescimento econômico.
A economia preserva ocupações, mas também captura menos ganhos de produtividade.
Cenário 4 –
O quarto cenário é a chamada IA de vitrine. A tecnologia gera discurso e investimento pontual, mas não chega a transformar de fato a produção. Poucas empresas adotam a inteligência artificial de forma profunda e o impacto sobre empregos é limitado. A desigualdade persiste, porém sem uma ruptura relevante no mercado de trabalho.
Independentemente do cenário, o estudo aponta uma conclusão importante: poucos empregos desaparecerão integralmente, mas muitos empregos mudarão de conteúdo.
“A tendência dominante será a automação de tarefas específicas dentro das profissões, não a eliminação completa de ocupações“, avalia.
Como empresas e trabalhadores podem se preparar
Diante desse cenário, a adaptação passa menos por resistir à tecnologia e mais por reorganizar competências. Para empresas, o principal desafio não será apenas adotar ferramentas de IA, mas redesenhar processos produtivos, automatizando tarefas rotineiras e deslocando pessoas para funções de decisão, análise e relacionamento.
Para trabalhadores, a vantagem competitiva estará em combinar conhecimento técnico com habilidades humanas difíceis de automatizar, como comunicação, resolução de problemas e pensamento crítico, além da capacidade de aprendizado contínuo. Já para governos, o desafio será ampliar programas de requalificação profissional e facilitar a transição ocupacional.
Em resumo, o impacto da inteligência artificial no emprego dependerá menos da tecnologia em si e mais da velocidade de adaptação econômica e educacional da sociedade.













