O Governo Central encerrou 2025 com um déficit primário de R$ 61,7 bilhões, equivalente a 0,5% do Produto Interno Bruto (PIB), segundo dados divulgados pelo Tesouro Nacional. O resultado representa uma piora de cerca de R$ 18,8 bilhões em relação a 2024, quando o déficit havia sido de R$ 42,9 bilhões (0,4% do PIB).
Apesar do número negativo no acumulado do ano, o governo registrou um superávit primário de R$ 22,1 bilhões em dezembro, acima do consenso do mercado e sustentado principalmente pelo desempenho da arrecadação.
Do ponto de vista formal, o resultado de 2025 ficou dentro da meta do novo arcabouço fiscal, que prevê déficit zero, com margem de tolerância. Mas, na avaliação de economistas, os dados revelam que a consolidação fiscal segue distante, mesmo em um ambiente de receitas ainda resilientes.
XP: meta cumprida, mas resultado estrutural piora
Segundo análise da XP Macro, o governo conseguiu atingir a meta de resultado primário ao considerar as despesas que são excluídas do cálculo oficial.
Em 2025, essas exceções somaram R$ 48,7 bilhões. Descontado esse valor, o déficit efetivo cairia para cerca de R$ 13 bilhões, ou 0,1% do PIB, ficando entre o centro da meta e o limite inferior permitido.
“O governo central atingiu a meta de resultado primário em 2025 graças a uma combinação de mercado de trabalho forte, medidas de aumento de receita e menor execução de despesas”, afirma Tiago Sbardelotto, economista da XP.
A arrecadação líquida cresceu 2,8% em termos reais no ano, impulsionada principalmente por:
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Imposto de renda (+5,2%), com destaque para IR sobre trabalho e ganhos de capital;
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Contribuições previdenciárias (+5,4%), refletindo um mercado de trabalho ainda sólido;
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IOF (+21,3%), após elevação de alíquotas ao longo do ano.
Do lado das despesas, a execução ficou cerca de R$ 24 bilhões abaixo do previsto no último relatório bimestral, com destaque para gastos discricionários, pessoal e créditos extraordinários.
Apesar disso, a XP chama atenção para o ponto central: o resultado primário total, que importa para a dinâmica da dívida, foi pior do que em 2024, mesmo com crescimento da receita e algum controle de gastos.
“Isso indica que a consolidação fiscal ainda está muito longe”, avalia Sbardelotto.
ASA: distorção estatística e fragilidade do arcabouço
Na leitura do ASA, a piora do déficit em 2025 precisa ser analisada com cautela, pois há uma distorção relevante na base de comparação.
Segundo Jeferson Bittencourt, head de macroeconomia do ASA, parte significativa do aumento do déficit se explica pelo fato de o governo ter antecipado para 2023 o pagamento de precatórios que originalmente seriam quitados em 2024, o que melhora artificialmente o resultado de 2024 e superestima a deterioração de 2025.
Ainda assim, o ASA destaca dois vetores estruturais preocupantes.
O primeiro é a forte desaceleração da receita, que saiu de um crescimento real de 8,9% em 2024 para apenas 2,8% em 2025.
“Com a desaceleração da economia e a dificuldade de seguir elevando a carga tributária pela via legislativa, especialmente em ano eleitoral, a capacidade de expansão da receita tende a se limitar ainda mais”, afirma Bittencourt.
O segundo ponto é a pressão contínua das despesas obrigatórias, especialmente previdência e benefícios sociais, que seguem crescendo acima da arrecadação.
Na avaliação do ASA, o governo tem evitado um estrangulamento orçamentário retirando despesas do limite de gastos, movimento que deve se intensificar em 2026 com a Emenda Constitucional 136/2025, que elevou o teto em cerca de R$ 13 bilhões.
Meta perde função de âncora fiscal
Do ponto de vista estrutural, o ASA faz uma crítica direta ao novo arcabouço fiscal. Para Bittencourt, o modelo não tem sido capaz de gerar superávits primários consistentes, justamente em um momento de aceleração da dívida pública.
Além disso, o economista destaca a perda de relevância prática da meta de resultado primário como instrumento de disciplina fiscal.
Isso porque o governo não precisa perseguir o centro da meta, e o volume de exceções ao cálculo segue crescendo. Em 2025, foram R$ 48,7 bilhões em despesas fora da regra. Para 2026, a projeção do ASA é que esse número suba para cerca de R$ 62,5 bilhões.
Na leitura conjunta de XP e ASA, o Brasil passa a operar com um arcabouço que formalmente cumpre metas, mas não produz consolidação fiscal efetiva, o que mantém a trajetória da dívida como o principal risco macroeconômico no médio prazo.
Projeções para 2026
Para 2026, a XP projeta um déficit primário de R$ 45,9 bilhões (0,3% do PIB), ou um resultado próximo de zero ao se considerar as exceções da regra fiscal.
O ASA, por sua vez, avalia que o próximo ano tende a ser marcado por pressão adicional das despesas, desaceleração da receita e maior flexibilização do arcabouço, o que torna o ajuste fiscal cada vez mais dependente de decisões políticas — e menos de regras automáticas.
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