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Focus traz estabilidade e reforça leitura de “sacrifício agora, alívio depois”, diz economista

Renata Nunes Por Renata Nunes
22/09/2025
Em ECONOMIA, NACIONAL

O Relatório Focus divulgado nesta sexta-feira (22) trouxe uma fotografia mais estável das expectativas de mercado, depois de semanas marcadas por ajustes expressivos em função da chamada “data crítica”. Além disso, as medianas das principais variáveis permaneceram praticamente inalteradas para 2025, 2027 e 2028, sugerindo que a leitura dos agentes passou a refletir maior cautela diante da sinalização do Banco Central.

No entanto, 2026 ainda apresentou alterações marginais. A projeção para o IPCA recuou de 4,30% para 4,29%, movimento discreto mas simbólico no atual contexto. Já a principal mudança ocorreu na Selic, cuja mediana caiu de 12,38% para 12,25%. Esse ajuste elimina um número considerado “estranho” pelo mercado na semana anterior, realinhando as expectativas a um patamar mais consistente com o ciclo monetário em curso.

Veja a tabela:

Indicador202520262027
Inflação (IPCA)4,83%4,29%3,90%
Câmbio (R$/US$)5,505,605,60
Selic (% a.a.)15%12,25%10,50%
PIB (variação %)2,16%1,80%1,90%

O que explica a queda da Selic projetada pelo Focus?

Na avaliação do economista Maykon Douglas, a leitura do Focus precisa ser analisada à luz da postura adotada pelo Copom na semana passada. A decisão veio mais dura do que os investidores esperavam, configurando uma surpresa hawkish. O colegiado optou por manter a projeção de inflação para o horizonte relevante, mesmo em um cenário de dólar mais baixo, o que pode indicar uma revisão altista do hiato do produto em seus modelos internos.

Segundo Douglas, essa estratégia é deliberada: “O Banco Central prefere impor um sacrifício maior agora, mantendo juros elevados por mais tempo, para consolidar a reancoragem das expectativas. Assim, abre espaço para cortes mais robustos no próximo ano, caso o ambiente se mostre favorável”, explicou.

Focus: inflação segue ancorada, mas mercado de trabalho surpreende

Enquanto isso, o relatório mostra que a expectativa para o IPCA de 2025 permanece em 4,83%, sinal de estabilidade depois das revisões recentes. Por outro lado, a resiliência do mercado de trabalho continua a surpreender, mesmo diante da desaceleração econômica observada a partir do segundo trimestre de 2025. Esse fator tem sido um dos principais elementos de cautela para o Copom, que teme uma transmissão mais persistente da atividade aquecida para os preços.

Nesse sentido, a manutenção de projeções relativamente estáveis para os anos seguintes: 3,90% em 2027 e 3,70% em 2028, reforça a visão de que o processo de convergência da inflação depende de disciplina monetária e credibilidade na condução da política.

Quais são os riscos para os próximos meses?

A despeito da estabilidade atual, analistas apontam alguns pontos de atenção que podem reverter a calmaria observada no Focus desta semana:

  • Inflação administrada: pressões de energia e combustíveis podem reverter parte da ancoragem de preços.
  • Câmbio: movimentos externos podem afetar o real, ainda projetado em R$ 5,50 no fim de 2025.
  • Atividade: se a desaceleração for mais intensa, cortes de juros podem vir antes do esperado.

O papel do Copom na recalibragem das expectativas do Focus

De acordo com Maykon Douglas, a decisão recente do Copom funcionou como um “choque de realidade” para o mercado. Ao manter a inflação projetada em patamares elevados e sinalizar cautela, o colegiado buscou interromper a precificação de cortes prematuros de juros. “A mensagem é clara: o ciclo de flexibilização só virá de forma consistente quando a reancoragem estiver consolidada. Até lá, o BC prefere errar pelo excesso de prudência”, destacou.

Essa postura ajuda a explicar a correção observada no Focus de hoje, especialmente no caso da Selic para 2026. A leitura sugere que o mercado incorporou a estratégia da autoridade monetária, aceitando um juro alto no presente para abrir espaço a cortes mais expressivos no futuro.

Perspectivas para investidores e política econômica

Além disso, a estabilidade registrada no Focus pode oferecer algum alívio temporário para os investidores, que agora contam com maior previsibilidade nas projeções. Por outro lado, a dinâmica fiscal segue como um risco de médio prazo, especialmente diante da trajetória crescente da dívida pública. A percepção de disciplina monetária, porém, tende a atenuar parte desses riscos no curto prazo.

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Nesse sentido, a leitura integrada do relatório e da postura do Copom aponta para um cenário de transição: juros elevados sustentando o combate à inflação agora, para que a política monetária tenha espaço de flexibilização em 2026. Para o investidor, o desafio será equilibrar posições entre renda fixa de curto prazo e ativos mais arriscados, atentos à evolução da confiança e às próximas sinalizações do Banco Central.

O Focus desta semana marca uma pausa nas revisões drásticas e traz um sinal de estabilidade em meio a um ambiente ainda desafiador. A queda marginal da Selic para 2026 e a manutenção das projeções para inflação mostram um mercado mais alinhado à leitura do Copom. Para Maykon Douglas, esse movimento confirma a estratégia de “sacrifício agora, alívio depois”, reforçando a importância da credibilidade da política monetária para conduzir expectativas e preservar o processo de desinflação.

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