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Juros do cartão de crédito disparam para 435%: especialista aponta os riscos

Dados do Banco Central mostram avanço do crédito rotativo, alta inadimplência e maior comprometimento da renda das famílias.

Renata NunesPor Renata Nunes
31/03/2026

Os juros do cartão de crédito voltaram a subir no Brasil. De acordo com dados divulgados pelo Banco Central nesta segunda-feira (30), a taxa média cobrada nas operações de crédito rotativo para pessoas físicas alcançou 435,88% ao ano em fevereiro.

O crédito rotativo é acionado quando o cliente não consegue pagar o valor integral da fatura do cartão na data de vencimento. Nesse caso, o saldo restante passa a ser financiado pela instituição financeira, com incidência de juros elevados.

Além do avanço das taxas, o relatório também mostrou que a inadimplência nessa modalidade atingiu 63,5% no período, indicando dificuldades crescentes das famílias para honrar esse tipo de dívida.

Juros do cartão de crédito no radar: Selic elevada influencia custo do crédito

O aumento dos juros do cartão de crédito ocorre em um contexto de política monetária restritiva no Brasil. Atualmente, a taxa Selic está em 14,75% ao ano, patamar considerado elevado e que influencia diretamente o custo das linhas de crédito no país.

Mesmo com parte do mercado projetando recuo da taxa básica ao longo do ano, economistas avaliam que o Comitê de Política Monetária (Copom) deve adotar uma postura mais cautelosa nos próximos encontros. Essa sinalização já aparece na ata da última reunião do Banco Central, que indicou preocupação com o cenário inflacionário.

Congresso aprovou limite para dívidas no rotativo

Diante das taxas historicamente elevadas, o Congresso aprovou em 2024 uma medida para limitar o endividamento no crédito rotativo.

Pela regra, o valor total da dívida no cartão não pode ultrapassar o valor original do débito. Na prática, isso significa que, após determinado período, a dívida deve ser renegociada ou migrada para outra modalidade de crédito com condições diferentes.

A medida buscou reduzir o impacto do rotativo sobre o endividamento das famílias, modalidade considerada uma das mais caras do sistema financeiro.

Dívidas pressionam orçamento das famílias

Os dados do Banco Central também mostram que o peso das dívidas no orçamento das famílias segue elevado.

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O comprometimento da renda das famílias com o pagamento de dívidas chegou a 29,33% em janeiro, o maior nível desde o início da série histórica do BC, iniciada em 2005.

Esse indicador mede quanto da renda mensal das famílias é destinada ao pagamento de financiamentos e outras obrigações financeiras, incluindo cartão de crédito, crédito pessoal e financiamentos.

Com juros ainda elevados e renda pressionada, analistas apontam que o comportamento do crédito ao consumidor continuará no radar do mercado e das autoridades monetárias ao longo do ano.

O que diz o especialista

Na avaliação de Felipe Nascimento, educador financeiro e apresentador da BM&C News, o avanço dos juros do cartão de crédito reforça o tamanho do risco para o consumidor que entra no rotativo e demora a sair dessa modalidade.

“O principal risco é entrar numa bola de neve muito difícil de sair. O juro do rotativo é tão alto que a dívida cresce mais rápido do que a capacidade de pagamento da pessoa. Em pouco tempo, você deixa de pagar o que comprou e passa a pagar só juros. E aí vira um ciclo: a dívida aumenta, o orçamento não acompanha e a pessoa perde o controle financeiro“, avalia o especialista.

O educador financeiro destaca ainda que, embora muitos consumidores recorram ao rotativo como solução emergencial, a alternativa mais saudável é buscar formas de substituir essa dívida por linhas de crédito mais baratas ou, quando possível, recorrer a uma reserva de emergência.

“A principal orientação é evitar o rotativo ao máximo. Se não conseguir pagar a fatura, o ideal é buscar alternativas com juros menores. Pode ser usar uma reserva de emergência, se tiver, ou trocar essa dívida por um crédito mais barato, como um empréstimo pessoal. O erro é ficar no rotativo, porque ele é uma das linhas mais caras do mercado“, orienta Nascimento.

Felipe também chama atenção para o peso crescente do endividamento sobre o orçamento das famílias, e o impacto disso no no dia a dia do brasileiro.

“É um nível bastante preocupante. Quando uma parte grande da renda está comprometida com dívida, sobra menos dinheiro para o básico e para qualidade de vida. A família deixa de ter margem de segurança. E aí qualquer imprevisto como uma doença ou perda temporária de renda, já é suficiente para levar à inadimplência. Fica todo mundo na corda bamba“, destaca.

Nesse contexto, ele afirma que a educação financeira segue como ponto central do problema, já que o cartão de crédito pode funcionar como ferramenta de organização e conveniência, mas também pode se transformar em armadilha.

“A falta de educação financeira ainda é o principal problema. Mesmo com renda mais baixa, quem tem organização usa o crédito como ferramenta, não como armadilha. O cartão pode ajudar, mas precisa de planejamento e controle. Sem isso, ele vira um acelerador de dívida“, conclui.

JUROS DO CARTÃO DE CRÉDITO

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