A falta de mão de obra qualificada se consolidou como um dos pilares do Custo Brasil e um dos principais entraves ao aumento de produtividade no país. Levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI) indica que 62% dos empresários apontam a qualificação profissional como um dos maiores obstáculos ao crescimento, atrás apenas da carga tributária e da burocracia.
O dado reforça um problema estrutural que se intensificou nos últimos anos. Ao mesmo tempo em que setores produtivos aceleraram automação, digitalização e uso de sistemas inteligentes, o Brasil avançou lentamente na formação de trabalhadores aptos a operar essas tecnologias.
O resultado é direto: produção mais lenta, custos operacionais mais elevados, menor escala e perda de competitividade, tanto no mercado doméstico quanto frente a concorrentes globais.
Custo Brasil: produtividade estagnada e impacto sobre salários
A produtividade brasileira cresce há duas décadas em ritmo inferior ao de economias emergentes comparáveis. Parte da defasagem está associada à insuficiência de qualificação técnica.
O economista Alex André avalia que o déficit educacional tornou-se um dos principais limitadores do crescimento. “Sem qualificação adequada, as empresas produzem menos, investem menos e operam com custos maiores. Isso restringe a capacidade de pagar melhores salários e limita inovação.”
Essa combinação cria um ciclo que reduz investimentos, atrasa a incorporação de tecnologia e limita a geração de valor agregado. Na ponta, o mercado de trabalho se concentra em funções de menor complexidade e com remuneração reduzida.
Profissionais técnicos são essenciais e o Brasil forma poucos
Nos setores industrial, energético, logístico e de tecnologia, profissionais de nível técnico se tornaram fundamentais para garantir eficiência operacional. São esses trabalhadores que operam máquinas inteligentes, ajustam sensores, monitoram linhas automatizadas e mantêm plantas industriais em funcionamento.
O Mapa Estratégico da Indústria 2023–2032, da CNI, estima que 14 milhões de trabalhadores precisarão ser qualificados ou requalificados até 2027, número incompatível com o ritmo atual de formação.
O vice-presidente da CNI, Léo de Castro, reforça a urgência. “Falta capital humano qualificado. O ensino médio técnico precisa avançar rápido, porque é ele que eleva a produtividade da economia brasileira.”
A escassez pressiona operações, aumenta gastos com treinamento interno e amplia a rotatividade, especialmente em setores expostos à concorrência global, como têxtil, metalmecânico, químico e eletroeletrônico.
México e Vietnã mostram o contraste
Países que estruturaram redes de formação técnica integradas à indústria exportadora, como México e Vietnã, avançaram de forma acelerada. Investimentos coordenados entre escolas, centros tecnológicos e parques produtivos elevaram eficiência e atraíram cadeias globais.
O Vietnã quadruplicou suas exportações industriais em uma década, enquanto o México se consolidou como polo automotivo e eletrônico.
Para o economista Carlos Honorato, o contraste é claro. “Quando você olha o Vietnã, o México, até economias da Ásia Central, o nível de investimento em gente e infraestrutura produtiva é muito superior ao brasileiro. Aqui, a gente se acostumou com um patamar ruim.”
A falta de qualificação encarece o produto brasileiro antes mesmo da carga tributária entrar na conta.
Custo Brasil: a fatura chega ao consumidor
A insuficiência de mão de obra qualificada compõe um dos elementos do Custo Brasil, estimado pela CNI em R$ 1,7 trilhão por ano. A pressão aparece em atrasos, desperdícios, menor previsibilidade e custos operacionais mais altos.
O economista Écio Costa resume o impacto. “Esse custo todo é repassado ao consumidor. Com burocracia, baixa qualificação e crédito caro, tudo fica mais caro, e o consumo perde força.”
Segundo a CNI, 77% dos empresários afirmam que as ineficiências estruturais pressionam o preço final, reduzindo o poder de compra das famílias e alimentando uma inflação de base difícil de combater apenas com política monetária.
O desafio que define o futuro da competitividade brasileira
Para a CNI, qualificar trabalhadores é uma das formas mais rápidas de elevar produtividade sem expandir de forma relevante o gasto público. A entidade alerta que políticas industriais só terão efeito pleno se acompanhadas de uma transformação na base da formação técnica.
Sem capital humano qualificado, o Brasil continuará crescendo abaixo do potencial, exportando produtos de baixo valor agregado e enfrentando concorrência acirrada de outras economias emergentes.
Enquanto o ensino técnico não avançar com consistência, o país seguirá perdendo eficiência, competitividade e oportunidades de gerar empregos de maior qualidade.















