Se alguém dissesse que vida surge do nada em cima de rocha vulcânica recém-solidificada em questão de horas, pareceria exagero. Mas foi exatamente isso que uma equipe da Universidade do Arizona documentou no vulcão Fagradalsfjall, na Islândia, reescrevendo o que a ciência sabia sobre como ecossistemas surgem do zero sobre lava estéril.
Como os pesquisadores conseguiram flagrar micróbios chegando à lava recém-solidificada?
O vulcão Fagradalsfjall, na península de Reykjanes, entrou em erupção três vezes consecutivas entre 2021 e 2023. Cada erupção cobriu a lava do ano anterior com nova camada incandescente, criando uma sequência natural de superfícies com idades diferentes na mesma área. A equipe liderada pelo pesquisador Nathan Hadland coletou amostras de lava, aerossóis atmosféricos e água da chuva, extraindo DNA para identificar os organismos presentes e rastrear sua origem.
O resultado surpreendeu até os próprios cientistas. Conforme declarou ao Phys.org a coautora Solange Duhamel, bióloga da Universidade do Arizona:
“A lava aqui está entre as biomassas mais baixas de toda a Terra, mas em nossas amostras vimos que ela era rapidamente colonizada por organismos unicelulares. Isso não era esperado.”

Em quanto tempo a lava vulcânica passa a abrigar vida?
O estudo, publicado em dezembro de 2025 no periódico Communications Biology, do grupo Nature, identificou dois estágios distintos no processo de colonização:
- Fase 1 — Chegada rápida e caótica: nos primeiros dias e semanas, micróbios chegam pelo vento, poeira e bioaerossóis. A diversidade cresce desordenadamente à medida que diferentes espécies tentam se estabelecer no substrato estéril.
- Fase 2 — Estabilização após o primeiro inverno: o frio islandês age como filtro severo, eliminando as espécies menos resistentes e tornando a comunidade microbiana mais estável e previsível.
A taxa de crescimento medida foi de aproximadamente 182 células por grama de rocha por dia nas primeiras etapas, chegando a 220.000 células por grama nas amostras com apenas dois anos de idade.

Por que a colonização ser previsível impressionou mais do que ser rápida?
Usando um modelo de random forest treinado com dados da erupção de 2021, os pesquisadores conseguiram prever com precisão o estágio de colonização microbiana nas erupções de 2022 e 2023. A colonização não é apenas rápida: segue uma lógica ecológica ordenada, independentemente da erupção específica.
Um estudo complementar publicado no FEMS Microbes em 2024, com amostras da Ilha Surtsey e do planalto Fimmvörðuháls, confirmou que a dispersão atmosférica é o principal veículo de transporte dos micróbios e que as comunidades se estabilizam surpreendentemente cedo, sem grandes mudanças entre 1 e 9 anos de exposição.
O que a lava da Islândia tem a ver com a possibilidade de vida em Marte?
A atividade vulcânica em Marte, embora aparentemente inativa hoje, pode ter criado períodos transitórios de habitabilidade no passado, com lava solidificada disponível como substrato para micro-organismos. Os pesquisadores alertam que qualquer extrapolação a Marte permanece especulativa, mas o modelo de colonização documentado na Islândia oferece uma base concreta para investigar essa hipótese.
Para ver como a lava do Fagradalsfjall se comporta em erupção real, a CNN Brasil, com mais de 6,65 milhões de inscritos, transmitiu ao vivo a erupção de julho de 2025 na região de Reykjanes, mostrando a mesma área onde o estudo foi conduzido:
O que a descoberta muda no entendimento sobre o surgimento de ecossistemas?
Até agora, a sucessão primária em ambientes geológicos extremos era tratada como um processo lento, de décadas. A descoberta no Fagradalsfjall mostra que a vida não espera: ela chega pelo vento antes mesmo do substrato esfriar completamente, e segue uma ordem previsível que pode ser modelada e antecipada.
O mais provocador não é a velocidade. É a previsibilidade. Se a vida segue uma lógica ordenada ao colonizar lava estéril na Islândia, a mesma pergunta se impõe sobre outros planetas onde esse substrato já existiu.

