O mundo está pronto para uma crise de água que não dá trégua? Um novo estudo projeta secas persistentes em regiões como Índia, China, Estados Unidos, Mediterrâneo e partes da África até o fim do século. A pesquisa, publicada na Nature Communications, revela que as secas do futuro não serão mais episódios isolados. Elas virão em sequência, com intervalos de recuperação cada vez menores, o que torna o risco de escassez hídrica contínua o maior desafio para a segurança da água nas próximas décadas.
O que são secas persistentes e como elas diferem das secas comuns?
Uma seca comum é um período de chuvas abaixo da média que eventualmente termina. Já as secas persistentes são eventos prolongados, que podem durar anos e se repetir com frequência, sem dar tempo para o ecossistema se recuperar. O ponto central do novo estudo é que a escassez hídrica futura tende a ser contínua, e não mais episódica como antes.
O conceito de “Day Zero Drought” (DZD) descreve o momento em que a demanda por água ultrapassa a oferta disponível de fontes superficiais, como rios e reservatórios. Isso acontece porque as chuvas falham, o fluxo dos rios diminui e o consumo humano continua crescendo.

Quais regiões do planeta correm mais risco de seca persistente?
Os modelos climáticos apontam hotspots consistentes de seca no Mediterrâneo, no sul da África e em partes da América do Norte. Áreas urbanas são as mais vulneráveis, porque concentram alta densidade populacional e demanda elevada de água.
O estudo também revela que 35% das regiões propensas à seca podem enfrentar eventos de Day Zero já nos próximos 15 anos. Até o fim do século, 753 milhões de pessoas podem estar expostas à escassez extrema, sendo 467 milhões em áreas urbanas e 286 milhões em zonas rurais.
Por que a Índia, a China e os Estados Unidos estão entre os mais ameaçados?
Esses três países têm economias que dependem de grandes volumes de água para a agricultura e a indústria. A Índia já enfrentou uma crise severa em Chennai em 2019, quando a cidade ficou à beira do colapso hídrico. A China lida com o esgotamento de aquíferos e a redução do fluxo dos rios do norte.
O sudoeste dos Estados Unidos, em particular, deve enfrentar uma megasseca que pode persistir até 2100, segundo outro estudo baseado em registros de sedimentos de lagos antigos. A combinação de calor extremo e baixa umidade do solo tornará a situação crítica para cidades como Los Angeles.
Como as secas persistentes afetam a produção de alimentos?
A disponibilidade de água é o fator mais limitante para a agricultura. Secas prolongadas reduzem o rendimento de culturas como trigo, arroz e milho, o que pode desencadear crises de preços e instabilidade social. A África e a Ásia rural são as regiões mais expostas a esse risco, porque dependem da agricultura de sequeiro.
Alguns impactos esperados na agricultura são:
- Redução de até 50% na produtividade de milho em partes da África.
- Perda de safras de trigo na Índia e no Mediterrâneo.
- Escassez de água para irrigação em larga escala na China e nos EUA.
Sem irrigação suficiente, a oferta global de alimentos pode se contrair, o que eleva os preços e agrava a fome.

É possível evitar o pior cenário de secas persistentes?
O estudo da Nature Communications mostra que, mesmo se o aquecimento global for limitado a 1,5°C, centenas de milhões de pessoas ainda enfrentarão escassez. No entanto, reduzir as emissões diminui a severidade e a extensão das secas. A mitigação climática continua sendo a ferramenta mais importante para evitar os piores impactos.
Medidas de adaptação também são urgentes: investir em infraestrutura de armazenamento de água, reúso de efluentes tratados e dessalinização. Sem planejamento hídrico proativo, a crise da água será a próxima grande ameaça global, e as regiões mais pobres pagarão o preço mais alto.

