O motor do barco desliga no trapiche e, a partir dali, o silêncio toma conta. Nenhum ronco de ônibus, nenhuma buzina, nenhum escapamento. Em Afuá, no Arquipélago do Marajó, as ruas são passarelas de madeira suspensas sobre a água, e o único trânsito que existe é o de bicicletas, triciclos e bicitáxis coloridos pedalando entre casas sobre palafitas.
Por que Afuá proibiu todos os veículos motorizados?
A cidade foi construída em área de várzea alagada na foz do Rio Amazonas, a cerca de 15 km ao sul da Linha do Equador. As ruas são passarelas de madeira elevadas sobre o terreno alagadiço, e essa estrutura simplesmente não suporta o peso de carros ou caminhões. Em 2012, a prefeitura formalizou o que a geografia já impunha: uma lei municipal baniu qualquer veículo motorizado do perímetro urbano e das passarelas rurais.
O resultado é uma experiência rara no planeta. Cerca de 75% dos moradores têm bicicleta própria, e a cidade adaptou até os serviços públicos à lógica das duas rodas. A Polícia Militar faz rondas em bicicletas com um efetivo de 25 policiais ciclistas, e os Bombeiros atendem emergências em bicilâncias, versões adaptadas da bicicleta para resgate.

O bicitáxi que virou símbolo e patrimônio cultural
Em 1995, Raimundo do Socorro Souza, o Sarito, queria passear com os filhos, mas a garupa de uma bicicleta não cabia toda a família. A solução foi juntar duas bicicletas com uma estrutura de metal, criando um veículo de quatro rodas movido a pedal. Nascia o bicitáxi, hoje patrimônio cultural de Afuá.
Os moradores chamam os bicitáxis de “carros”. Os mais equipados, com luzes de LED e som automotivo alimentados por baterias, chegam a custar R$ 15 mil, segundo reportagem da National Geographic Brasil. Metalúrgicos locais montam os veículos sob encomenda, e cada proprietário personaliza o seu com grafites, nomes de super-heróis e cores vibrantes.
O que visitar na Veneza Marajoara?
A experiência em Afuá começa pela própria cidade, mas há atrações além das passarelas. O município abriga mais de 8 mil km² de território, quase todo coberto por floresta, rios e igapós. Estes são os programas essenciais:
- Passarelas do centro: o percurso a pé ou de bicicleta pelas ruas suspensas é a atração principal. Casas coloridas sobre palafitas, feiras de peixe e açaí, e a Praça Micaela Ferreira compõem o cenário.
- Orla e Terminal Hidroviário: ponto de chegada e mirante natural para o encontro dos rios. No fim da tarde, a paisagem ganha tons de laranja sobre as águas.
- Parque Estadual Charapucu: unidade de conservação com 651 km² de várzeas e igapós preservados, criada em 2010 pelo Ideflor-Bio. O parque está recebendo investimentos para ecoturismo de base comunitária.
- Passeio de barco pelos furos e igarapés: roteiros fluviais levam a comunidades ribeirinhas, áreas de coleta de açaí e trechos de floresta de várzea intocada.
- Igreja de Nossa Senhora da Conceição: construída em 1871, é o marco religioso mais antigo da cidade e ponto de partida do Círio de Afuá.
Quem busca conhecer um destino único na Amazônia, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Rolê Família, que conta com mais de 240 mil visualizações, onde o apresentador mostra a incrível cidade de Afuá, no Pará, conhecida como a Veneza marajoara por ser toda construída sobre palafitas e onde carros são proibidos, dando lugar às famosas bicicletas e bicitáxis:
Festival do Camarão: quatro dias que lotam a ilha
Todo mês de julho, Afuá recebe o Festival do Camarão, que em 2025 chegou à 41ª edição, segundo a Prefeitura de Afuá. Durante quatro dias, cerca de 40 mil pessoas lotam a ilha para shows regionais e nacionais, concursos e gastronomia à base de camarão.
O ponto alto é a Biciata, um desfile em que donos de bicitáxis ornamentam seus veículos com temas que vão de lendas amazônicas a referências pop. As categorias premiam bicicletas, triciclos e bicitáxis. O festival também inclui a Batalha Camaroeira, competição de performances e ritmos típicos, e o concurso de Rainha do Festival e Mister Camarão.
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Como chegar à cidade sem carros no meio do Marajó?
Afuá é uma ilha, e o acesso acontece apenas por água ou ar. A rota mais comum parte de Macapá (capital mais próxima, a cerca de 80 km) em lanchas rápidas, com travessia de aproximadamente 2h30, dependendo da maré. De Belém, a distância é de 320 km, com opção de táxi aéreo em aviões de pequeno porte. Não há estradas ligando Afuá ao continente.
Pedale pela Veneza Marajoara
Afuá é o tipo de lugar que redefine a ideia de cidade. As passarelas de madeira, o silêncio das ruas, os bicitáxis enfeitados e o açaí servido na porta de casa compõem uma rotina que nenhuma capital brasileira consegue reproduzir.
Você precisa pegar o barco em Macapá e deixar o motor para trás, porque Afuá se conhece no ritmo das pedaladas e no tempo da maré.

