Imagine um aglomerado de casas de barro tão coladas umas às outras que não sobra espaço para uma única rua. Em Çatalhöyük, na planície de Konya, centro-sul da Turquia, milhares de pessoas viveram assim por quase dois milênios. Para entrar em casa, desciam por escadas através de aberturas no telhado. A vizinhança inteira era o próprio teto.
Um formigueiro humano que durou 2.000 anos
O assentamento surgiu por volta de 7400 a.C. às margens de um braço do rio Çarşamba, hoje seco. Durante cerca de 1.400 anos de ocupação contínua no monte leste, gerações construíram casas de tijolos de barro encostadas parede a parede, sem portas nem janelas externas. Quando uma moradia se deteriorava, os moradores a demoliam parcialmente e erguiam outra por cima dos escombros. Essa sobreposição criou 18 camadas arqueológicas e elevou o monte a 21 metros de altura, segundo dados do Patrimônio Mundial da UNESCO, que inscreveu o sítio em 2012.
As estimativas clássicas apontavam entre 3.500 e 8.000 habitantes no auge da ocupação. Um estudo publicado em 2024 na revista Journal of Anthropological Archaeology, conduzido por pesquisadores das universidades de Notre Dame e Poznań, revisou esse número: na fase intermediária (6700–6500 a.C.), entre 600 e 800 pessoas teriam vivido ali em um ano típico. A divergência mostra que nem todas as casas foram ocupadas ao mesmo tempo.

Por que ninguém abria portas em Çatalhöyük?
A ausência de ruas não foi acidente. A planície de Konya sofria com cheias sazonais, e caminhos no nível do solo se transformariam em lamaçais. As casas retangulares de tijolos crus tinham aberturas no telhado que serviam de porta, janela e chaminé ao mesmo tempo. Escadas de madeira internas levavam ao cômodo principal, onde ficavam o forno, plataformas para dormir e áreas de trabalho. A fumaça saía pelo mesmo buraco por onde entrava a luz.
Os telhados funcionavam como praças. Em dias de bom tempo, moradores cozinhavam, moíam grãos e socializavam lá em cima. Em fases mais tardias, fornos comunitários foram construídos sobre essas coberturas, conforme registros do Çatalhöyük Research Project.

Os mortos dormiam sob os pés dos vivos
Talvez o hábito mais desconcertante de Çatalhöyük seja o costume funerário. Os mortos eram dobrados em posição fetal, enrolados em esteiras de junco e enterrados sob o piso das próprias casas. Adultos ficavam sob as plataformas do cômodo principal. Recém-nascidos eram sepultados perto do forno. Em um único edifício, arqueólogos encontraram 62 corpos sob o chão.
Alguns crânios eram exumados tempos depois, revestidos com gesso e pintados com ocre para recriar feições do rosto. A prática sugere veneração aos ancestrais. Um edifício apelidado de “Casa dos Mortos” pela equipe da Universidade de Poznań abrigava 20 indivíduos sob o piso, acompanhados de paredes pintadas e 14 plataformas cerimoniais.
Quem deseja conhecer as origens da civilização, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Cris Paula Digital, que conta com mais de 1.200 visualizações, onde Cris Paula mostra segredos de Çatalhöyük, na Turquia:
Igualdade de gênero comprovada nos ossos
Çatalhöyük não tinha palácios, templos nem edifícios públicos. Todas as construções conhecidas são residenciais e de tamanho semelhante. Análises de isótopos estáveis realizadas por Michael Richards e Jessica Pearson, citadas em artigo da Scientific American, não encontraram diferença na dieta de homens e mulheres. Ambos os sexos apresentavam o mesmo nível de desgaste ósseo por trabalho e a mesma fuligem incrustada nas costelas, sinal de horas respirando fumaça dentro de casa.
Um estudo genético de 2025, com 131 genomas antigos, revelou que o parentesco era traçado pela linhagem materna. Filhas permaneciam na casa da mãe, enquanto homens se mudavam. Esse padrão matrilocal contrasta com sociedades agrícolas posteriores na Europa, predominantemente patrilocais.
O mural que pode ser o mapa mais antigo do mundo
Nos anos 1960, o arqueólogo britânico James Mellaart encontrou um mural de quase três metros de largura pintado com ocre em uma parede do nível VII. A imagem mostra fileiras de retângulos, que ele interpretou como o próprio assentamento, e acima delas uma forma de dois cumes coberta de pontos. Mellaart viu ali o vulcão Hasan Dağı, localizado a cerca de 130 km, em plena erupção.
A hipótese permaneceu controversa até 2014, quando o vulcanólogo Axel Schmitt, da Universidade da Califórnia em Los Angeles, datou amostras de pedra-pomes do cume de Hasan Dağı. Os resultados, publicados no periódico PLOS ONE, indicaram uma erupção por volta de 6960 a.C., período compatível com a ocupação do nível onde o mural foi pintado. A coincidência reforça a tese de que moradores podem ter testemunhado o evento e registrado a cena na parede.

Espelhos de obsidiana e os primeiros têxteis conhecidos
O vidro vulcânico era a matéria-prima mais valiosa de Çatalhöyük. Com a obsidiana, os habitantes fabricavam lâminas, pontas de flecha e um artefato surpreendente: espelhos polidos com superfície levemente convexa, capazes de refletir imagens nítidas. Mellaart encontrou oito exemplares durante as escavações dos anos 1960, considerados entre os espelhos mais antigos já documentados, com cerca de 8.000 anos. Alguns apareceram em túmulos, acompanhados de pigmentos coloridos, o que sugere uso ritual.
Fragmentos têxteis também foram recuperados, a maioria em contextos funerários. A World History Encyclopedia classifica esses achados como os pedaços de tecido mais antigos já registrados. Além disso, mais de 2.500 estatuetas de argila foram desenterradas, a maioria representando animais.
Conheça a colina que esconde milhares de casas sob os pés
Apenas cerca de 5% da área total de Çatalhöyük foi escavada até agora. Quem caminha sobre o monte leste pisa, sem saber, sobre milhares de construções ainda intocadas. Essa proto-cidade sem ruas, onde a vida acontecia nos telhados e os mortos descansavam sob o chão da sala, continua redefinindo o que sabemos sobre os primeiros passos da humanidade rumo à vida urbana.
Se a arqueologia te fascina, vale colocar a planície de Konya no radar. Çatalhöyük é daqueles lugares que mudam a maneira como você enxerga uma simples parede de barro.

