A 78° de latitude norte, exatamente na metade do caminho entre o território continental da Noruega e o Polo Norte, existe um pequeno assentamento com pouco mais de 2 mil habitantes. Nesse lugar, o solo jamais descongela, a quantidade de ursos polares é maior do que a de pessoas e uma norma que está em vigor há mais de setenta anos determina que ninguém pode ser enterrado por lá. Longyearbyen, localizada no arquipélago de Svalbard, é o maior povoado do planeta situado acima de mil moradores nessa latitude.
Por que a regra local proíbe que as pessoas morram em Longyearbyen
A resposta para essa pergunta está literalmente sob os pés de quem vive ali. O permafrost, que é a camada de solo que se mantém permanentemente congelada, impede que os corpos que são enterrados passem pelo processo natural de decomposição. O chão funciona como um gigantesco freezer natural: bactérias, vírus e até mesmo tecidos humanos ficam preservados por um tempo que é indeterminado. No ano de 1998, uma equipe de cientistas exumou no cemitério local os corpos de algumas vítimas da pandemia de gripe espanhola que havia ocorrido em 1918 e, para sua surpresa, encontrou o vírus ainda preservado e ativo, impressionantes 80 anos depois do sepultamento.
Desde a década de 1950, o governo norueguês decidiu proibir a realização de novos enterros em Longyearbyen. As entradas de todos os cemitérios que já existiam foram devidamente fechadas. As pessoas que se encontram em estado terminal de saúde são transferidas de avião para o continente, que fica a uma distância de mais de 2 mil quilômetros. Aqueles que chegam a falecer antes que essa transferência possa ser realizada podem ser cremados, mas isso só acontece depois de um longo e complexo processo de obtenção de uma licença estadual. Em 2024, uma proposta de atualização do regulamento dos cemitérios locais veio a público para reiterar a regra principal: caixões não podem ser sepultados no solo de Longyearbyen.
É importante entender que essa restrição não se trata de uma punição, mas sim de uma medida de precaução. Com o avanço do aquecimento global, o permafrost de Svalbard está derretendo a uma velocidade que chega a 0,8 °C por década. Se patógenos antigos que ainda estão adormecidos forem liberados por conta desse degelo, o risco de uma crise sanitária se torna algo bastante real e preocupante.

A longa escuridão que dura quatro meses e o sol que se recusa a se pôr
Longyearbyen vive uma rotina que oscila entre dois extremos de luminosidade. O chamado “sol da meia-noite” é um fenômeno que ilumina a cidade de forma ininterrupta durante o período que vai de 18 de abril a 24 de agosto, totalizando 128 dias consecutivos com a presença da luz do sol. No extremo oposto, a “noite polar” se estende de 27 de outubro a 15 de fevereiro, somando 111 dias em que o sol não chega a cruzar a linha do horizonte. Para completar, devido à presença das montanhas que cercam a cidade, os primeiros raios de sol só conseguem atingir diretamente as ruas por volta do dia 8 de março.
Essa data se tornou tão importante para a comunidade que os moradores a celebram com a Solfestuka (a Semana do Festival do Sol), um evento que acontece todos os anos para marcar o aguardado retorno dos raios solares depois de meses seguidos de completa escuridão. É, sem dúvida, uma das festas de maior simbolismo em toda a região do Ártico.
O cofre que guarda a última esperança da humanidade
A poucos quilômetros do centro, escavado dentro de uma montanha, o Svalbard Global Seed Vault armazena mais de 1 milhão de amostras de sementes de cultivos agrícolas de todo o mundo. Inaugurado em 2008, o cofre foi projetado para resistir a catástrofes naturais, guerras e mudanças climáticas. O permafrost mantém a temperatura natural em −6 °C, e um sistema de refrigeração complementar conserva as sementes a −18 °C.
A utilidade prática desse cofre já foi colocada à prova em uma situação real: no ano de 2015, pesquisadores precisaram fazer a retirada de sementes que haviam sido depositadas ali pela Síria, depois que o banco genético daquele país se tornou inacessível por conta da guerra civil que estava em curso. Esse episódio serviu como a prova definitiva de que o projeto não tem apenas um valor simbólico.

Ursos polares que exigem o porte de armas e a proibição de se ter gatos
A região de Svalbard é o lar de uma população estimada em cerca de 3 mil ursos polares, um número que é superior ao total de habitantes de todo o arquipélago. Por essa razão, desde o ano de 2012, qualquer pessoa que se aventure para fora dos limites de um dos povoados é obrigada por lei a portar uma arma de fogo. O uso de sinalizadores e de dispositivos de alarme também é altamente recomendado como medida de segurança.
Existem ainda outras regras que são bastante incomuns: a posse de gatos domésticos é expressamente proibida em Longyearbyen, uma medida que visa proteger as aves de origem ártica que constroem seus ninhos na região. As mulheres grávidas também são fortemente incentivadas a deixar a cidade e se mudar para o continente pelo menos um mês antes da data prevista para o parto, uma vez que a cidade não conta com uma maternidade local.
Apesar de toda essa condição de isolamento, a cidade é surpreendentemente cosmopolita. Como Svalbard é um território onde não se exige visto de entrada, mais de 50 nacionalidades diferentes convivem em Longyearbyen.
O clima em números extremos
A temperatura média anual é de −6,9 °C. O mês mais quente, julho, registra média de apenas 4,7 °C. A menor temperatura já registrada foi −46,3 °C, em março de 1986. O quadro abaixo resume o que esperar em cada período:
| Período | Meses | Temperatura média | Luz | O que define a estação |
|---|---|---|---|---|
| Noite polar | Out-Fev | −12 a −15 °C | Escuridão total | Aurora boreal, neve constante |
| Retorno do sol | Mar-Mai | −16 a −4 °C | Crescente | Solfestuka, paisagem congelada com luz |
| Sol da meia-noite | Jun-Ago | 3 a 6 °C | 24h de sol | Fauna ativa, passeios de barco, trilhas |
| Crepúsculo | Set | 0 a 2 °C | Decrescente | Últimas luzes, início do frio intenso |
Dados climáticos baseados em registros do Instituto Meteorológico Norueguês e do INMET local. Condições podem variar.
O lugar onde a vida se curva às leis implacáveis do gelo
Longyearbyen está muito longe de ser um destino turístico como os outros ou uma cidade que se possa chamar de convencional. Ela é, antes de tudo, um verdadeiro experimento da presença humana nos limites extremos do planeta, onde cada regra estabelecida — desde a obrigação de se portar uma arma até a proibição de se realizar enterros — só existe porque a natureza simplesmente não abre espaço para negociações. O permafrost é o mesmo que conserva sementes que podem garantir o futuro da humanidade e que preserva vírus de um passado distante. O sol pode desaparecer por meses a fio para, logo em seguida, se recusar a se pôr. E os ursos polares, esses sim, têm prioridade absoluta.
Se existe algum lugar no mundo que nos lembra de forma tão clara que somos apenas visitantes neste planeta, e não os seus donos, esse lugar fica aos 78° de latitude norte, espremido entre geleiras e antigas minas de carvão que já foram abandonadas, no assentamento mais improvável de toda a Terra.

