O nível dos oceanos sobe em média 4,4 mm por ano desde os anos 1990. Parece pouco. Mas o acumulado desde 1900 já passa de 20 cm, e as projeções do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), disponibilizadas pela NASA, indicam que a elevação pode chegar a 1 metro até 2100. Em cidades brasileiras a poucos metros acima do mar, cada centímetro conta.
O que a ferramenta da NASA mostra sobre o Brasil?
A NASA Sea Level Projection Tool permite visualizar cenários de elevação do nível do mar para qualquer ponto costeiro do planeta, com base nos dados do 6º Relatório de Avaliação do IPCC (AR6). A ferramenta cobre projeções de 2020 a 2150 e mostra as contribuições de cada processo: derretimento de gelo na Groenlândia e na Antártida, expansão térmica da água e movimentos verticais do solo.
O Brasil não recebeu um “alerta” específico da NASA. O que existe é um conjunto de dados globais que, quando cruzado com estudos nacionais, revela quais trechos do litoral brasileiro são mais vulneráveis. O Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC), em relatório publicado com apoio da FAPESP, identificou 12 cidades costeiras sob maior pressão. A organização Climate Central também mapeia riscos com base nos mesmos cenários do IPCC.

Quais são as cidades brasileiras mais ameaçadas?
O cruzamento entre os dados da NASA/IPCC, o relatório do PBMC e estudos acadêmicos aponta as seguintes capitais como mais vulneráveis. Cada uma enfrenta uma combinação diferente de fatores:
- Recife (PE): considerada pelo IPCC a 16ª cidade mais vulnerável do mundo e a mais exposta entre as capitais brasileiras. Altitude média de apenas 4 metros, solo que afunda por extração de água subterrânea (subsidência) e 44% do território em risco de inundação. Se o mar subir 0,5 m, a cidade pode perder metade da sua planície costeira.
- Santos (SP): abriga o maior porto da América Latina. O nível do mar na região sobe 1,2 mm por ano desde os anos 1940, e a altura das ondas já aumentou de 1 m (1957) para 1,3 m (2002). Ressacas invadem avenidas da orla com frequência crescente.
- Rio de Janeiro (RJ): bairros da Zona Oeste, Ilha do Governador e Barra da Tijuca estão entre as áreas mais expostas. A Baía de Guanabara concentra instalações industriais e de transporte sensíveis. Dados do marégráfo da Ilha Fiscal, a série mais longa do Brasil, mostram elevação de 1,3 mm por ano ao longo do século XX.
- Fortaleza (CE): enfrenta erosão costeira ativa em diversos trechos da orla. A elevação do mar aumenta o impacto das ondas sobre a infraestrutura urbana e pressiona dunas e restingas.
- Salvador (BA): comunidades em áreas de mangue e beira de praia vivem sob risco de deslocamento forçado conforme a água avança.
- São Luís (MA): a ilha enfrenta erosão acelerada que ameaça áreas históricas e residenciais próximas à maré.
- Florianópolis (SC): o centro da capital, localizado em área insular baixa, já registra inundações mais frequentes e intensas.
- Belém (PA): localizada na foz do Rio Amazonas, sofre com a combinação de marés oceânicas e cheias fluviais que pressionam bairros ribeirinhos.
Por que o mar sobe mais rápido em alguns lugares?
A elevação do nível do mar não é uniforme. Dois mecanismos principais atuam ao mesmo tempo: a expansão térmica (a água aquecida ocupa mais volume) e o derretimento de geleiras continentais. Mas em determinadas cidades, um terceiro fator agrava tudo: a subsidência, o afundamento do solo causado pela extração excessiva de água subterrânea e pelo peso da urbanização.
Em Recife, a subsidência faz o chão descer enquanto o mar sobe, um efeito duplo que, segundo estudo publicado na revista Nature Climate Change, torna o avanço da água entre três e quatro vezes mais severo do que a média global para populações costeiras. O professor Eduardo Siegle, do Instituto Oceanográfico da USP (IO-USP), estima que, até 2050, o nível do mar pode subir entre 15 e 35 cm globalmente, com acréscimo de até 30% em regiões com subsidência. Em Recife, o aumento relativo pode chegar a 50 cm no mesmo período. Em Santos, a estimativa é de cerca de 45 cm.
Quem busca entender as ameaças climáticas e geológicas globais, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Mistérios do Mundo, que conta com mais de 10 mil visualizações, onde Donato de Paula mostra 9 cidades que podem desaparecer, incluindo Veneza, Jacarta e o Rio de Janeiro:
O que já está sendo feito para conter a água?
Santos é o município brasileiro com o plano de adaptação mais avançado. O Plano Municipal de Adaptação à Mudança do Clima, baseado no Projeto Metrópole coordenado pelo pesquisador José Marengo, virou referência internacional para cidades costeiras. Em Recife, a prefeitura lançou em 2024 um edital para estudos de “engorda” da faixa de areia, técnica que devolve largura às praias erodidas. Balneário Camboriú (SC) e Matinhos (PR) já executaram projetos semelhantes.
A construção de diques e sistemas de bombeamento começa a ser discutida para cidades baixas como Santos e Recife. São soluções que ganham tempo, mas exigem manutenção cara e constante. Especialistas ouvidos pela FAPESP reforçam que não existe saída única: é preciso reduzir emissões no longo prazo e adaptar a infraestrutura no curto.
O litoral que precisa se preparar agora
O Brasil tem mais de 8 mil km de costa e 60% da população vivendo a menos de 60 km do mar. A água não vai recuar. As projeções estão disponíveis, as ferramentas são abertas e os dados mais recentes da NASA confirmam que, mesmo com o efeito temporário da La Niña em 2025, a tendência de longo prazo não mudou.
Se você mora no litoral ou planeja se mudar para uma cidade costeira, vale consultar a ferramenta da NASA e os mapas da Climate Central. A informação é gratuita e pode mudar a forma como você olha para a linha da maré.

