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Com 83 mil pessoas por km² numa rocha de 6 hectares: a ilha que já foi o lugar mais populoso da Terra

Vitor Por Vitor
08/04/2026
Em Cidades

A 15 km do porto de Nagasaki, no Japão, uma estrutura de concreto emerge do oceano com a silhueta de um navio de guerra. Não é um navio. É Hashima, também chamada de Gunkanjima, a Ilha Couraçado, e o que parece ser a proa de um destróier são prédios de até nove andares engolidos pela maresia e pelo abandono.

Carvão sob o mar e o início de uma cidade vertical

O carvão foi descoberto nas proximidades de Hashima por volta de 1810, mas a mineração industrial só começou em 1887, quando o primeiro poço foi perfurado na ilha. Em 1890, a Mitsubishi comprou Hashima e iniciou a extração em escala industrial a partir de minas submarinas. O material retirado era carvão de coque de alta qualidade, essencial para a produção de aço, e abastecia instalações como as Aciarias de Yawata, em Fukuoka.

Com a demanda crescente por mão de obra, a Mitsubishi resolveu construir moradias diretamente na ilha. Em 1916, ergueu o primeiro grande edifício residencial de concreto armado do Japão, com nove andares. Ao longo das décadas seguintes, a rocha foi ampliada por aterros sucessivos até atingir o triplo de sua área original. Mesmo assim, o espaço nunca foi suficiente: cada metro quadrado foi edificado.

83 mil pessoas por km² numa rocha de 6 hectares: a ilha que já foi o lugar mais populoso da Terra
Hashima destaca-se como a “Ilha Couraçado” (Gunkanjima), uma das maiores densidades populacionais que o mundo já viu (imagem ilustrativa)

O recorde que nenhuma cidade do mundo quebrou até hoje

Em 1959, Hashima abrigava 5.259 pessoas em seus 6,3 hectares. A densidade resultante, de 83.600 habitantes por km² para a ilha inteira, ou de 139.100 por km² considerando apenas a área residencial, é a maior já registrada em qualquer lugar do mundo, segundo dados consolidados pela Wikipedia com base em registros históricos. Para comparação, a densidade da área residencial de Hashima era quase nove vezes maior que a de Tóquio no mesmo período.

A ilha funcionava como uma cidade autossuficiente. Havia escola de sete andares com elevador para distribuir merenda, hospital, cinema com 400 lugares, salão de bilhar, sala de pachinko e dois campos esportivos sobre o telhado dos prédios. A taxa de penetração da televisão era de 100% em Hashima, contra cerca de 8% no restante do Japão. Sem solo para jardins, os moradores carregavam terra para os telhados e cultivavam hortas suspensas, em iniciativa descrita como a primeira horta urbana de cobertura do país.

Trabalho forçado: a página mais sombria da ilha

A prosperidade de Hashima teve um lado que o Japão relutou em reconhecer. Durante a Segunda Guerra Mundial, coreanos e chineses foram levados à força para trabalhar nas minas em condições brutais. Os turnos de 12 horas, o calor de até 30°C e a umidade de 95% nos túneis tornavam o trabalho nas galerias submarinas exaustivo e perigoso.

Esse capítulo tornou-se o principal ponto de controvérsia quando o Japão propôs a inscrição da ilha na lista do Patrimônio Mundial da UNESCO. A Coreia do Sul só retirou sua objeção em julho de 2015 após o representante japonês comprometer-se publicamente a reconhecer o trabalho forçado na interpretação histórica do sítio. A aprovação veio como parte do conjunto Sítios da Revolução Industrial Meiji: Ferro, Aço, Estaleiros e Mineração de Carvão. O debate sobre o cumprimento desse compromisso continua até hoje.

Leia também: Com 2.200 anos de idade e 83,8 metros de altura: o vilarejo que guarda o ser vivo mais massivo do planeta

O abandono em 24 horas e a cidade que ficou intacta

Em janeiro de 1974, a Mitsubishi anunciou o fechamento da mina. A causa foi a transição energética do Japão: o petróleo havia substituído o carvão como principal fonte de energia do país, tornando a extração submarina inviável. Em 20 de abril de 1974, os cerca de 2.000 moradores restantes evacuaram a ilha de uma só vez.

Eles partiram tão rápido que deixaram xícaras sobre as mesas, bicicletas encostadas nas paredes e marcas de altura das crianças riscadas nos batentes das portas. Hashima ficou fechada ao público por 35 anos. Somente em 22 de abril de 2009 a ilha foi reaberta para visitação controlada, com caminhos delimitados na porção sul, longe dos edifícios em risco de colapso. Desde então, barcos saem regularmente do porto de Nagasaki para a travessia de cerca de 40 minutos.

Quem tem curiosidade sobre lugares abandonados e cidades-fantasma, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal INCRÍVEL, que conta com mais de 64 mil visualizações, onde é explorado o mistério da Ilha de Hashima, no Japão, um local de concreto que já foi o mais densamente povoado do mundo:

Como a ilha virou o covil de um vilão de James Bond

A fama global de Gunkanjima deu um salto com o filme Skyfall, de 2012, dirigido por Sam Mendes. A ilha serve de inspiração visual para o esconderijo do vilão Raoul Silva, interpretado por Javier Bardem. A conexão nasceu de um encontro casual: durante as filmagens de outro projeto na Suécia, Daniel Craig conheceu o cineasta sueco Thomas Nordanstad, que havia feito um documentário sobre Hashima em 2002, e tomou notas extensas sobre o lugar.

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As cenas internas do covil foram reconstituídas nos estúdios Pinewood, no Reino Unido, com base em registros fotográficos, e complementadas por imagens geradas digitalmente. As autoridades japonesas não permitiram filmagens no local. A aparição em Skyfall, que arrecadou mais de 1,1 bilhão de dólares nas bilheterias mundiais, multiplicou o interesse turístico pela ilha.

A rocha que o oceano ainda tenta engolir

Cada temporada de tufões corrói mais um pouco o concreto dos prédios de Hashima. Ventos de até 160 km/h e ondas que batem diretamente nas fachadas aceleram a deterioração de estruturas que ninguém mais mantém. A Discover Nagasaki, guia oficial de turismo da prefeitura, informa que os tours partem do porto de Nagasaki e duram cerca de três horas, com aproximadamente 45 minutos na ilha. O desembarque depende das condições do mar e pode ser cancelado mesmo com reserva.

Quem não conseguir pousar ainda tem uma alternativa: o Gunkanjima Digital Museum, em Nagasaki, oferece experiências em realidade aumentada e projeções imersivas que reconstituem a vida na ilha durante seu auge. É uma segunda chance de entrar numa cidade que o próprio oceano está, devagar, devolvendo ao fundo do mar.

Uma rocha, dois séculos e um recorde impossível de ignorar

Hashima condensa em 6,3 hectares a ambição industrial do Japão moderno e seus crimes de guerra, o urbanismo vertical nascido da necessidade e o abandono total que acontece quando a economia vira a página. Poucos lugares no mundo carregam tantas histórias em tão pouco espaço.

Se você passar por Nagasaki, reserve um dia para fazer a travessia. Ver Gunkanjima surgindo do oceano, com seus prédios vazios apontando para o céu, é uma experiência que não tem paralelo.

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