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A maior metrópole do mundo com 500000 habitantes virou campo de ruínas em apenas 6 meses

Vitor Por Vitor
08/04/2026
Em Cidades

No coração de Karnataka, na Índia, pedras cobertas de musgo guardam o silêncio de uma cidade que, por volta do ano 1500, era a segunda maior do planeta. Só Pequim superava Vijayanagara em população. Hoje, onde erguiam-se palácios esculpidos e bazares de diamantes, pastam macacos entre blocos de granito.

A segunda cidade do mundo que ninguém esperava encontrar ali

O Império Vijayanagara nasceu em 1336 às margens do rio Tungabhadra, fundado pelos irmãos Harihara I e Bukka, ex-soldados do Sultanato de Delhi. Em menos de dois séculos, sua capital cresceu até rivalizar com Roma, segundo o viajante português Domingo Paes, que a visitou por volta de 1520 e a descreveu como a cidade mais bem provida do mundo. O veneziano Niccolò de’ Conti, que chegou um século antes, estimou sua circunferência em 60 milhas e contou sete anéis concêntricos de muralhas protegendo o núcleo urbano.

Esses relatos não eram exagero de viajante impressionado. A UNESCO, ao inscrever o sítio como Patrimônio Mundial em 1986, confirmou a existência de mais de 1.600 estruturas sobreviventes distribuídas por 4.187 hectares, incluindo fortes, complexos reais, templos, salões com pilares, estábulos para elefantes e sofisticados sistemas de irrigação.

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A maior metrópole do mundo com 500000 habitantes virou campo de ruínas em apenas 6 meses
A maior metrópole do mundo virou campo de ruínas em apenas seis meses (imagem ilustrativa)

Bazares de diamantes e embaixadores persas no mesmo mercado

O que fazia Vijayanagara única não era só o tamanho. Era o que circulava por suas ruas. Os bazares da capital eram famosos por vender diamantes, pérolas, sedas, cavalos árabes, ouro e perfumes a céu aberto, conforme registros de viajantes de Portugal, Pérsia, China e Arábia. O persa Abdul Razzaq, enviado como embaixador em 1443, descreveu sete anéis de fortalezas com os mais internos tomados por lojas e bazares lotados.

O apogeu veio sob o reinado de Krishnadevaraya, entre 1509 e 1530. Paes, que visitou a corte nesse período, ficou atônito com a riqueza do tesouro real e com os festivais da cidade. Era uma metrópole cosmopolita, multiétnica e multi-religiosa: templos hindus e jainistas dividiam espaço com uma mesquita. A arquitetura misturava o estilo dravídico com elementos islâmicos nas estrebarias e nos banhos reais.

Como uma batalha de um dia destruiu dois séculos de esplendor

Em 1565, na Batalha de Talikota, uma coalizão de sultanatos do Decã derrotou o exército de Vijayanagara. O líder imperial, Aliya Rama Raya, foi capturado e decapitado em campo. Sua morte criou pânico entre as tropas, que debandaram. Os exércitos vencedores entraram na cidade.

O que se seguiu durou seis meses. Segundo a UNESCO, a capital foi saqueada, incendiada e reduzida ao estado de ruína em que permanece até hoje. O italiano Cesare Federici, que visitou o local dois anos depois, encontrou uma cidade ainda de pé, mas completamente esvaziada, habitada, segundo os relatos que ouviu, apenas por tigres e outras feras selvagens. Dois séculos de construção, trocas comerciais e produção cultural foram apagados em meio ano.

O que a arqueologia ainda encontra sob as pedras

O sítio de Hampi, nome atual das ruínas, nunca parou de revelar camadas. O Serviço Arqueológico da Índia mantém escavações contínuas na região, e o Ministério da Cultura da Índia protege 56 monumentos classificados como patrimônio nacional dentro do sítio. Pesquisadores identificaram três grandes zonas: o centro sagrado, com templos anteriores ao próprio Império; o núcleo urbano e real; e o restante da metrópole, que se estendia por mais de 650 km².

A engenharia hidráulica da cidade ainda impressiona. Redes de aquedutos, tanques escalonados e canais que desviavam água do Tungabhadra para jardins e palácios foram mapeados ao longo de décadas de pesquisa. Inscrições em pedra, mais de 77 catalogadas no sítio, ajudam a datar e identificar cada estrutura. O templo de Virupaksha, ativo desde antes do Império e ainda em uso como centro religioso, é o fio que conecta o passado ao presente.

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Ruínas que a Índia quase perdeu novamente

Hampi chegou a ser listada pela UNESCO como Patrimônio em Perigo por causa da expansão do tráfego de veículos e da construção de pontes nas proximidades. O sítio foi retirado da lista após medidas corretivas adotadas pelo governo indiano, mas o equilíbrio entre preservação e visitação permanece delicado. O Karnataka Tourism recomenda ao menos dois dias para percorrer os principais monumentos, com início ao amanhecer para aproveitar a luz sobre os blocos de granito e evitar o calor do meio-dia.

O templo de Vittala, considerado o ponto mais ornamentado do sítio, abriga um famoso ratha de granito, réplica de uma carruagem religiosa, que apareceu na nota de 50 rúpias indianas. As colunas musicais do complexo, que ressoam tons diferentes quando percutidas, representam um capítulo à parte da engenharia acústica medieval.

O silêncio que ainda conta tudo

Vijayanagara não foi esquecida por falta de grandeza. Foi varrida pela velocidade do colapso, pela extensão da destruição e pelos séculos em que ficou fora das grandes rotas do conhecimento ocidental. Só em 1900, com a publicação de A Forgotten Empire, de Robert Sewell, o sítio voltou a ganhar atenção acadêmica internacional.

Quem caminha hoje entre os blocos de granito e os templos semidestruídos de Hampi entende por que o historiador Will Durant a escolheu como exemplo de que civilizações são construções frágeis. Vá a Hampi e deixe que as pedras contem o que os séculos não conseguiram apagar.

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