No alto da Serra da Mantiqueira, a 173 km de São Paulo, existe uma cidade onde os termômetros raramente passam dos 24°C mesmo no verão. Campos do Jordão é o município com a sede mais elevada do Brasil, a 1.628 metros de altitude, e carrega um título raro: em 1957, o Congresso Internacional de Climatologia de Paris apontou seu clima entre os melhores do mundo.
De sanatório a destino turístico na Mantiqueira
No final do século XIX, ninguém subia a serra para passear. Médicos da época identificaram propriedades terapêuticas no ar rarefeito e seco da vila, e pacientes com tuberculose começaram a chegar em busca de cura. Nas décadas de 1920 e 1930, sanatórios tomaram conta da paisagem.
A virada veio com a medicina. O avanço da penicilina nos anos 1960 esvaziou os leitos e abriu espaço para outra vocação. A inauguração do Palácio Boa Vista em 1964, como residência de inverno do governador paulista, e a criação do Festival de Inverno em 1970 transformaram a cidade em referência cultural e turística.
Campos do Jordão ganhou o apelido de Suíça Brasileira não por acaso. Pesquisas comparativas da época mostraram que a cidade tinha 52% de dias claros, contra 41% em Davos, na Suíça. O teor de oxigenação e ozônio foi considerado superior ao de Chamonix, na França, a 2.800 metros de altitude.

Como é viver na cidade mais alta do Brasil?
A altitude molda o cotidiano. As manhãs começam frescas o ano inteiro, e o agasalho é companhia permanente mesmo nas noites de verão. A cidade tem cerca de 47 mil moradores e uma economia sustentada pelo turismo, pelo comércio de malhas e pela gastronomia.
O bairro Abernéssia, onde tudo começou em 1874, guarda uma curiosidade no nome: foi batizado pelo escocês Robert John Reid, que homenageou duas cidades da Escócia, Aberdeen e Inverness, fundindo os nomes. Hoje, é o bairro mais residencial e comercial da cidade, bem diferente do agito turístico da Vila Capivari.

O que visitar na serra paulista o ano inteiro?
Campos do Jordão funciona em todas as estações. O inverno é a alta temporada, mas quem vai na primavera ou no outono encontra preços menores, ruas vazias e o mesmo cenário de montanha.
- Vila Capivari: centro turístico com cafeterias, chocolaterias, lojas de malhas e o Boulevard Genève, travessa coberta por guarda-chuvas coloridos. Funciona como ponto de encontro diário.
- Parque Estadual (Horto Florestal): 8.341 hectares com trilhas entre araucárias centenárias, a mais antiga unidade de conservação do estado de São Paulo, criada em 1941.
- Morro do Elefante e Teleférico: a 1.800 m de altitude, o teleférico parte do Parque Capivari e entrega vista panorâmica da cidade e da Mantiqueira.
- Palácio Boa Vista: museu com obras de Tarsila do Amaral, Anita Malfatti e Di Cavalcanti. Entrada gratuita.
- Parque Amantikir: mais de 700 espécies vegetais em jardins temáticos ao longo de 60 mil m², aberto todos os dias do ano.
- Museu Felícia Leirner: esculturas a céu aberto nos jardins do Auditório Cláudio Santoro, com vista livre para a serra.
Quem sonha em conhecer a Suíça Brasileira, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Vamos Fugir Blog, que conta com mais de 230 mil inscritos, onde Lígia e Ulisses mostram um roteiro essencial por Campos do Jordão:
O maior festival de música clássica da América Latina acontece aqui?
Sim. Todo mês de julho, a cidade vira palco do Festival Internacional de Inverno de Campos do Jordão, criado em 1970 e reconhecido como o maior evento de música clássica do continente. A 55ª edição, em 2025, reuniu 84 apresentações gratuitas distribuídas entre o Auditório Cláudio Santoro, o Parque Capivari e a Capela do Palácio Boa Vista.
O festival também é escola. Todos os anos, mais de 140 bolsistas estudam com professores de renome internacional durante um mês. Boa parte dos músicos da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp) passou por essa formação.
Fondue, truta e pinhão na mesa serrana
A altitude moldou o cardápio tanto quanto a arquitetura. O frio justifica os restaurantes de fondue que dominam a Vila Capivari, mas a cozinha local vai além da influência europeia.
- Fondue de queijo e carne: prato símbolo da cidade, servido nas casas especializadas de Capivari, especialmente no inverno.
- Truta da Mantiqueira: criada nas águas frias da região, está em praticamente todos os cardápios. A truticultura começou na cidade na década de 1950.
- Pinhão assado: fruto da araucária típica da serra, vendido nas ruas e feiras no outono e inverno. A Festa do Pinhão acontece em abril.
- Cervejarias artesanais: a Baden Baden, uma das pioneiras do Brasil, nasceu em Campos do Jordão e oferece tours com degustação.
Como é o clima em Campos do Jordão?
O clima é temperado oceânico de montanha (Cfb na classificação de Köppen). As temperaturas ao longo do ano variam geralmente entre 5°C e 24°C, e raramente ficam abaixo de 1°C ou acima de 28°C. O inverno é seco e ensolarado. O verão traz chuvas frequentes, mas as manhãs costumam ser abertas.
| Estação | Meses | Temperatura | Chuva | O que fazer |
|---|---|---|---|---|
| Verão | Dez-Fev | 13-24°C | Alta | Trilhas pela manhã, parques |
| Outono | Mar-Mai | 6-21°C | Baixa | Festa do Pinhão, mirantes |
| Inverno | Jun-Ago | 5-18°C | Muito baixa | Festival de Inverno, fondues |
| Primavera | Set-Nov | 8-22°C | Média | Cerejeiras, cervejarias |
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo e no Weather Spark. Condições podem variar conforme altitude e microclima da serra.
Como chegar à Suíça Brasileira saindo de São Paulo
De São Paulo, são aproximadamente 173 km pela Rodovia Floriano Rodrigues Pinheiro (SP-123), cerca de 2h30 de carro. Do Rio de Janeiro, são 350 km pela Via Dutra com acesso por Taubaté. A Estrada de Ferro Campos do Jordão, inaugurada em 1914, ainda funciona e oferece passeio turístico entre Santo Antônio do Pinhal e a cidade.
A serra que respira melhor que os Alpes
Campos do Jordão combina altitude, ar puro, cultura de nível internacional e uma gastronomia que aquece nos dias frios. A cidade que nasceu curando pulmões hoje cura outra coisa: a pressa de quem vive nas capitais vizinhas.
Você precisa subir a Mantiqueira pelo menos uma vez, sentir o frio seco de julho e entender por que essa cidade a 1.628 metros continua atraindo gente de todo o Brasil, mais de 150 anos depois de sua fundação.

