Vista de longe, parece um navio de guerra à deriva no Mar da China Oriental. De perto, revela paredes de concreto descascadas, escadas engolidas pela ferrugem e salas onde bonecas e televisores permanecem intocados desde 1974. A Ilha de Hashima, a 15 km de Nagasaki, já foi o pedaço de terra mais densamente povoado do planeta. Hoje, é uma cidade-fantasma cercada por ondas, reconhecida como Patrimônio Mundial da UNESCO e envolta em controvérsias que atravessam fronteiras.
Por que uma rocha no mar virou uma cidade de concreto?
A resposta está no subsolo. Por volta de 1810, pescadores descobriram veios de carvão sob o leito marinho ao redor do recife. Em 1890, a Mitsubishi comprou a ilha e iniciou a mineração industrial em larga escala. Aterros sucessivos triplicaram a área original, que chegou a 6,3 hectares, pouco maior que cinco campos de futebol. Quatro poços principais foram escavados até 1 km abaixo do nível do mar, com temperaturas de 30 °C e umidade de 95%.
Para abrigar os trabalhadores e suas famílias, a empresa construiu em 1916 o Edifício nº 30, considerado o primeiro grande prédio residencial de concreto armado do Japão, segundo o Gunkanjima Excursion. O bloco de sete andares abrigava 145 apartamentos de cerca de 10 m² cada. A partir dele, dezenas de edifícios se ergueram até formar uma malha densa de corredores, passarelas aéreas e escadarias que permitiam circular pela ilha inteira sem pisar no térreo.

O recorde de densidade que ainda impressiona
Em 1959, Hashima atingiu o pico de 5.259 moradores. Numa ilha de 480 m de comprimento por 160 m de largura, isso significava cerca de 83.600 habitantes por km² na área total e 139.100 por km² no setor residencial, de acordo com dados compilados pelo site oficial de turismo Discover Nagasaki. Para efeito de comparação, a densidade média de Tóquio na mesma época era cerca de nove vezes menor.
A ilha concentrava tudo o que uma pequena cidade exige: hospital, duas escolas, cinema, salão de pachinko, templo budista, santuário xintoísta, piscina, barbearias e até um mercado a céu aberto que os moradores chamavam de Hashima Ginza. A água doce chegava por barco e era racionada por horário. Famílias de mineiros usavam água do mar para lavar roupa, louça e até arroz.
Quem tem curiosidade sobre lugares abandonados, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal UMA HISTÓRIA A MAIS, que conta com mais de 153 mil visualizações, onde é mostrada a história da Ilha Hashima, no Japão, uma cidade fantasma que já foi o lugar mais povoado da terra:
O capítulo sombrio nas minas submarinas
A partir da década de 1930 e durante a Segunda Guerra Mundial, civis coreanos e prisioneiros de guerra chineses foram levados à ilha para trabalho forçado nas minas, sob condições descritas como brutais por sobreviventes. O número de mortes varia conforme a fonte consultada, indo de 137 a mais de mil. Esse passado se tornou o centro de uma disputa diplomática que persiste até hoje.
Quando o Japão indicou Hashima para a lista da UNESCO em 2009, a Coreia do Sul se opôs formalmente. Um acordo foi firmado: Tóquio reconheceria a história do trabalho forçado e criaria um centro informativo sobre as vítimas. A ilha foi inscrita como Patrimônio Mundial em 5 de julho de 2015, como parte dos Sítios da Revolução Industrial Meiji. Contudo, o comitê da UNESCO manifestou insatisfação com as medidas japonesas, e a questão segue em aberto.
De cidade-fantasma a cenário de James Bond
Em janeiro de 1974, a Mitsubishi fechou a mina. O petróleo já havia substituído o carvão como principal fonte de energia no Japão, e os moradores foram transferidos para o continente. Em 20 de abril, a ilha ficou completamente vazia. Xícaras de café permaneceram sobre mesas, bicicletas encostadas em paredes, marcas de altura das crianças riscadas nos batentes.
Hashima ficou interditada por 35 anos. O sal do mar acelerou a corrosão das armaduras de aço, e os tufões arrancaram fachadas inteiras. O Edifício nº 30 perdeu parte dos andares superiores em desabamentos registrados em 2021, segundo pesquisadores da Universidade de Tóquio que monitoram a deterioração do concreto centenário. Amostras retiradas dos prédios mais expostos ao oceano apresentaram teor de sal 15 vezes maior que o das estruturas protegidas.
A silhueta fantasmagórica chamou a atenção do cinema. A ilha inspirou o covil do vilão Raoul Silva no filme 007: Operação Skyfall (2012), embora as cenas internas tenham sido recriadas nos estúdios Pinewood, em Londres, porque a estrutura foi considerada instável demais para filmagens. Em 2015, o longa japonês baseado no mangá Attack on Titan usou Hashima como locação real.

O que restou na ilha e como visitá-la
Desde 22 de abril de 2009, barcos de turismo partem do porto de Nagasaki rumo à ilha. A travessia dura cerca de 40 minutos. Apenas uma pequena faixa no extremo sul está aberta ao público, com passarelas e mirantes a distância segura dos edifícios. Os demais 95% da ilha seguem interditados, conforme as regras descritas no site oficial de turismo de Nagasaki.
Os passeios são cancelados com frequência por causa do mar agitado, especialmente durante a temporada de tufões, entre junho e outubro. Mesmo sem pisar nas ruínas, visitantes conseguem observar os esqueletos de concreto, o pátio da antiga escola e a entrada do poço principal da mina, que descia 600 m abaixo do leito oceânico. Para quem não consegue embarcar, o Gunkanjima Digital Museum, em Nagasaki, oferece experiências em realidade virtual que simulam o interior dos edifícios e das galerias subterrâneas.
A fortaleza que o oceano está levando de volta
Hashima carrega o apelido de Gunkanjima, “Ilha Navio de Guerra”, por causa da silhueta que lembra o encouraçado Tosa. O nome soa cada vez mais simbólico. As ondas batem nos paredões de concreto, os tufões arrancam mais um pedaço a cada temporada e os prédios centenários cedem ao peso do sal e do tempo. Entre o orgulho industrial, a memória do sofrimento e a força bruta do Pacífico, a ilha-fortaleza vai sendo devolvida ao mar que a criou.
Se algum dia você estiver em Nagasaki, reserve uma manhã para a travessia até Hashima. Poucas experiências no mundo transmitem, com tanta clareza, o que acontece quando uma civilização inteira simplesmente vai embora.

