Cada inspiração em La Rinconada entrega aos pulmões apenas metade do oxigênio disponível ao nível do mar. Encravada na encosta do Monte Ananea, nos Andes peruanos, essa aglomeração mineradora desafia o que a ciência considerava o limite da permanência humana. Mesmo assim, dezenas de milhares de pessoas dormem, trabalham e nascem ali todas as noites, a temperaturas médias de 1,2 °C.
Por que cientistas dizem que ninguém deveria morar tão alto?
A pressão atmosférica a 5.100 m equivale a cerca de 50% do valor registrado ao nível do mar. Isso significa que o ar contém a mesma proporção de oxigênio, mas a densidade reduzida dificulta a absorção pelos pulmões. Pesquisadores da Inserm e da Universidade Grenoble Alpes estimam que o limite fisiológico para residência permanente esteja entre 5.000 e 5.500 m. La Rinconada fica exatamente nessa faixa, o que a torna um laboratório a céu aberto.
A cidade se espalha entre 5.000 e 5.300 m de altitude, ao pé de uma geleira chamada La Bella Durmiente. Apesar de estar a apenas 14 graus do equador, o clima lembra a costa oeste da Groenlândia: tundra alpina sem possibilidade de cultivo, neve frequente e noites abaixo de zero durante o ano inteiro.

O sangue dos moradores revela o preço da altitude
Em 2019, a Expedition 5300, liderada pelo fisiologista Samuel Vergès, montou um laboratório improvisado no coração da cidade. Foi o primeiro programa científico e médico conduzido a essa altitude. Os resultados, publicados no The Journal of Physiology em 2024, impressionaram a comunidade médica.
A concentração de hemoglobina dos moradores saudáveis atingiu 20,3 g/dL, valor quase o dobro de uma pessoa ao nível do mar. Nos pacientes com doença crônica da montanha, o índice subiu para 23,1 g/dL. Segundo o CNRS, o hematócrito, percentual de glóbulos vermelhos no sangue, chegou a 80% em La Rinconada, contra 40% em Lima. Esse espessamento do sangue aumenta o risco de obstrução vascular e problemas cardíacos.
Mesmo com essas alterações drásticas, o monitoramento de 24 horas mostrou que a pressão arterial dos moradores permanece essencialmente normal. A ciência ainda não entende completamente os mecanismos compensatórios por trás dessa aparente proteção. Durante o sono, porém, a saturação de oxigênio despenca: a mediana registrada foi de 79%, valor que em um hospital ao nível do mar seria considerado emergência.
Um quarto da população convive com a doença da montanha
A revista Science classificou La Rinconada como “Hypoxia City”. Cerca de 25% dos moradores sofrem de doença crônica da montanha, uma síndrome sem cura. Em Puno, a 3.800 m, a incidência fica abaixo de 5%. A única solução conhecida é mudar para altitudes mais baixas, mas a maioria não tem recursos para isso. Os sintomas acompanham os pacientes diariamente:
- Cefaleia persistente: dor de cabeça intensa que não cede com analgésicos comuns, agravada pelo esforço físico dentro das minas.
- Cianose: a falta de oxigênio confere tom azulado aos lábios, gengivas e mãos, sinal visível da privação crônica.
- Apneia do sono: a saturação de oxigênio despenca durante a noite, interrompendo o descanso e agravando a fadiga.
- Zumbido e tontura: o excesso de glóbulos vermelhos aumenta a viscosidade do sangue e dificulta a circulação cerebral.
- Fadiga extrema: até caminhar curtas distâncias exige um esforço desproporcional a 5.100 m de altitude.
Populações andinas carregam adaptações genéticas moldadas por cerca de 15 mil anos de vida em altitude elevada. A produção elevada de hemoglobina é uma dessas respostas evolutivas. Em parte dos moradores, no entanto, o mecanismo sai do controle: os glóbulos vermelhos proliferam em excesso e o sangue se torna perigosamente viscoso. É esse descompasso entre adaptação e doença que a Expedition 5300 tenta decifrar.
Quem tem curiosidade sobre lugares extremos, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Ruhi Çenet Português, que conta com mais de 1 milhão de visualizações, onde Ruhi mostra como é a vida em La Rinconada, no Peru, a cidade mais alta do mundo:
Trinta dias sem salário e uma aposta no 31º
La Rinconada existe por um único motivo: ouro. A mineração funciona sob o sistema cachorreo, documentado pela Organização Internacional do Trabalho (OIT). Os mineradores trabalham entre 25 e 30 dias sem receber nenhum pagamento. No último dia do ciclo, podem entrar na mina e carregar nos ombros o máximo de minério que conseguirem. Se a rocha não contiver ouro, o mês inteiro terá sido gratuito.
A Corporación Ananea é a única empresa com licença governamental para operar na região, mas centenas de operações informais proliferam ao redor. Segundo pesquisa da Universidade de Antuérpia, 87,2% dos trabalhadores em 2019 eram cachorreros, e 55% se diziam insatisfeitos com o sistema. A cidade não tem água encanada, rede de esgoto nem coleta de lixo. Mercúrio usado na extração do ouro contamina o solo, a geleira e os rios que descem até o Lago Titicaca.

O que a ciência de La Rinconada pode ensinar ao resto do mundo
Os pesquisadores da Expedition 5300 não estudam a cidade apenas para ajudar seus moradores. As descobertas sobre adaptação à hipóxia crônica podem beneficiar pacientes com doenças respiratórias, apneia do sono e insuficiência cardíaca em qualquer altitude. O Instituto Weizmann, em Israel, participou de uma das missões para investigar como a escassez de oxigênio afeta os relógios biológicos circadianos, campo que pode influenciar tratamentos futuros para distúrbios do sono. Segundo a Inserm, os resultados também interessam a agências espaciais: astronautas enfrentam condições de oxigenação comparáveis em habitats fora da atmosfera terrestre.
A NASA registrou La Rinconada por satélite em 2019 usando dados do Landsat 8. A imagem mostra o assentamento colado à geleira, sem nenhuma área verde ao redor. A 650 km da fronteira com a Bolívia, a cidade permanece isolada: o acesso é feito apenas por estrada de terra, em caminhões que levam horas subindo curvas geladas.
Onde o corpo encontra seu próprio limite
La Rinconada não aparece em guias de viagem nem figura em cartões-postais. É um lugar onde cada respiração custa mais caro, onde o sangue se adapta e às vezes se volta contra o próprio corpo, onde o ouro sustenta sonhos e cobra um preço que a maioria só entende depois de subir. Poucos locais no planeta revelam tão claramente até onde a fisiologia humana pode ser empurrada.
Se a ciência te fascina tanto quanto as paisagens, vale acompanhar os próximos resultados da Expedition 5300, a expedição que transformou a cidade mais alta do mundo em um dos laboratórios mais extraordinários da medicina contemporânea.

