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Combustíveis no Brasil: logística, criminalidade e infraestrutura desafiam abastecimento

No BM&C Talks, Claudio Frischtak analisa os gargalos logísticos, o avanço da criminalidade no setor e a necessidade de ampliar investimentos em infraestrutura para garantir segurança no abastecimento.

Sofia TostaPor Sofia Tosta
24/06/2026

O abastecimento de combustíveis no Brasil depende de uma rede ampla de infraestrutura, logística, armazenagem e gestão de risco para atender diariamente um país de dimensões continentais. Em entrevista ao BM&C Talks, o economista Claudio Frischtak, sócio fundador da InterB Consultoria, afirmou que a chegada do combustível aos consumidores, com regularidade e qualidade, é resultado de um processo complexo, construído ao longo de décadas, mas ainda exposto a gargalos regionais, falhas de infraestrutura e riscos crescentes.

A dimensão territorial brasileira torna mais difícil levar combustíveis a áreas distantes dos principais centros produtores, distribuidores e consumidores. Para Frischtak, o país avançou na integração do abastecimento, mas ainda precisa ampliar investimentos e melhorar a coordenação logística para reduzir custos, aumentar previsibilidade e garantir maior qualidade na última milha.

“A territorialidade do país tem implicações enormes para demanda de investimento e infraestrutura e logística”, afirmou Claudio Frischtak.

Criminalidade afeta qualidade, arrecadação e concorrência

Um dos principais pontos levantados por Frischtak foi o avanço da criminalidade no mercado de combustíveis. Segundo ele, práticas como sonegação de impostos e adulteração criam concorrência desigual, reduzem a qualidade do produto entregue ao consumidor e comprometem a eficiência dos motores e dos meios de transporte. O problema, na avaliação do economista, ganhou relevância nos últimos anos e passou a exigir resposta institucional mais ampla.

Essa dinâmica impacta empresas que atuam dentro da legalidade, a arrecadação pública e a segurança econômica de regiões mais vulneráveis. Para Frischtak, o enfrentamento não pode ficar restrito às forças policiais ou aos órgãos de fiscalização tributária, porque envolve também regulação, inteligência, coordenação entre instituições e redução dos incentivos econômicos para práticas ilegais.

“Esse é um problema que tem que ser lidado, obviamente, não apenas pela Polícia e não apenas pela Secretaria de Receita Federal e pelos pelo fisco estadual”, destacou Claudio Frischtak.

Gargalos regionais ampliam desigualdades econômicas

A dificuldade de levar combustíveis a regiões mais distantes também contribui para acentuar disparidades regionais. Em áreas isoladas, o preço tende a ser mais alto por razões logísticas, mas o problema se agrava quando há influência de grupos criminosos, baixa previsibilidade no abastecimento e infraestrutura insuficiente. Na avaliação de Frischtak, essa combinação eleva custos e limita o desenvolvimento sustentável de municípios mais afastados.

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O economista citou a Amazônia Legal como uma região em que a presença de facções amplia os obstáculos para o funcionamento da economia formal. Além de afetar o custo dos combustíveis, esse ambiente pressiona empresas, famílias e governos locais, dificultando a expansão de investimentos e a integração produtiva dessas áreas ao restante do país.

“Essa dinâmica, essa diferenciação, digamos assim, ela acentua as disparidades regionais”, analisou Claudio Frischtak.

Investimento em infraestrutura segue abaixo do necessário

Para reduzir os gargalos do abastecimento, Frischtak afirmou que o Brasil precisa ampliar o volume de investimentos em infraestrutura. Segundo ele, o país deve investir em 2026 algo entre 2,1% e 2,2% do PIB em todas as áreas de infraestrutura, incluindo transportes, energia, telecomunicações e saneamento. O patamar, porém, está abaixo do necessário para modernizar a estrutura nacional.

Na avaliação do economista, o país precisaria investir cerca de 4,6% do PIB por ano durante duas décadas para universalizar o acesso e modernizar sua infraestrutura. A diferença entre o investimento atual e o necessário representa um déficit anual que limita a competitividade da economia, a integração dos territórios e a redução das desigualdades regionais.

“Se nós fôssemos modernizar nossa infraestrutura, nós necessitaríamos algo em torno de 4,6% do PIB por ano por duas décadas”, explicou Claudio Frischtak.

Setor privado terá papel decisivo na modernização

A expansão dos investimentos dependerá, em grande medida, do setor privado. Frischtak afirmou que cerca de dois terços do investimento em infraestrutura no país já vêm da iniciativa privada, enquanto o setor público responde por aproximadamente um terço. Com a fragilidade fiscal do Estado, a margem para ampliar investimentos públicos é limitada, mesmo em um cenário de reforma fiscal.

Para Frischtak, o avanço exigirá uma agenda capaz de elevar a participação privada no financiamento de projetos, com segurança jurídica, planejamento de longo prazo e melhoria na qualidade regulatória. Sem essa mobilização, o país tende a manter problemas estruturais em rodovias, mobilidade urbana, energia e logística de abastecimento.

“O setor público, está no limite dentro das atuais regras fiscais”, ponderou Claudio Frischtak.

Portos, cabotagem e hidrovias entram no centro da estratégia

No diagnóstico sobre os modais, Frischtak afirmou que o Brasil avançou de forma relevante na área portuária, impulsionado por mudanças regulatórias, concessões e novas legislações desde os anos 1990. Esse progresso também contribuiu para o crescimento da cabotagem, modal considerado importante para um país com longa costa e dimensões continentais, inclusive no transporte de combustíveis.

Apesar do avanço em portos e cabotagem, o economista avaliou que o país ainda avançou pouco nas hidrovias, especialmente diante do potencial de rios estratégicos para a logística nacional. Para ele, esse modal combina baixo impacto ambiental e menor custo relativo, mas ainda depende de planejamento, diálogo institucional e estruturação adequada de projetos.

“A cabotagem foi um, talvez um modal que em termos relativos mais avançou, muito importante, inclusive em termos de transporte de combustível”, ressaltou Claudio Frischtak.

Integração entre modais é chave para eficiência logística

As rodovias continuam sendo fundamentais para o transporte de cargas, passageiros e combustíveis no Brasil. Mesmo com críticas à matriz rodoviarista, Frischtak avaliou que o país não investiu excessivamente em rodovias; ao contrário, ainda precisa ampliar concessões e atrair mais capital privado para melhorar a qualidade da malha existente. Nas ferrovias, o desafio é diferente: os projetos são intensivos em capital, complexos do ponto de vista de engenharia e exigem critérios rigorosos de priorização, especialmente quando há algum tipo de cofinanciamento público.

No cenário externo, Frischtak avaliou que a discussão sobre combustíveis também precisa ser entendida dentro da agenda de segurança energética. O Brasil avançou na produção de petróleo, especialmente em águas profundas, e desenvolveu alternativas como o etanol, que ampliam a resiliência diante de choques internacionais. Ainda assim, a logística interna segue como elemento decisivo para transformar capacidade produtiva em abastecimento eficiente, com menor custo e maior previsibilidade para a economia.

“O grande passo no momento, na minha perspectiva, é a integração dos diferentes modais”, concluiu Claudio Frischtak.

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