Nos últimos anos, os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios ganharam espaço no mercado brasileiro e passaram a ocupar uma função cada vez mais relevante no financiamento de empresas. Esse crescimento fez surgir uma comparação recorrente entre os gestores de FIDCs e os banqueiros tradicionais. Eu entendo de onde vem essa associação, afinal, ambos transitam pelo mercado de crédito, analisam riscos e conectam capital a empresas que precisam de financiamento.
Na Gueratto Press, nossa assessoria de imprensa especializada em negócios, finanças e mercado de capitais, acompanhamos esse movimento de perto e ajudamos a levar o tema dos FIDCs para a grande mídia, ampliando uma discussão que, durante muito tempo, ficou restrita aos bastidores do mercado financeiro. Atendemos diferentes empresas inseridas nesse ecossistema, entre elas Intra Asset, Ouro Preto Investimentos, Multiplike, Audax, Everblue e Azumi, e essa convivência diária reforça uma percepção que nem sempre aparece no debate público: administrar ou estruturar bilhões de reais por meio de fundos não significa que o passo seguinte seja, necessariamente, abrir um banco.
Enquanto fui sócio do banco Modal vi de perto a carga tributária altíssima que pode bater 55%. Além disso, a estrutura tributária de uma instituição financeira é mais pesada e o custo regulatório muda completamente de patamar. Um banco precisa manter estruturas robustas de tecnologia, controles internos, compliance, jurídico, risco, segurança e atendimento às exigências do Banco Central. Dependendo do modelo escolhido, estamos falando de centenas de profissionais apenas para sustentar a operação.
Para quem está acostumado à estrutura de um FIDC, mesmo considerando toda a governança e regulação existente nesse mercado, a diferença é significativa. A instituição financeira começa a carregar um custo fixo elevado muito antes de atingir escala suficiente para tornar o negócio rentável. Por isso, olhar para um gestor de FIDC e enxergar automaticamente um futuro banqueiro pode parecer lógico de fora, mas não necessariamente faz sentido quando se coloca a estrutura dos dois negócios na ponta do lápis.
Há ainda uma diferença fundamental entre administrar recursos de terceiros e ter patrimônio próprio suficiente para sustentar um banco. Um gestor pode ter bilhões de reais sob gestão e, ainda assim, não possuir o volume de capital próprio necessário para financiar a construção de uma instituição financeira durante anos. Esse é um ponto que observo ser frequentemente confundido. O patrimônio líquido dos fundos não pertence ao gestor. Para entrar no sistema bancário, é preciso dispor de capital próprio relevante, suportar uma estrutura muito maior e aceitar uma curva longa até o ponto de equilíbrio.
Em muitos casos, uma instituição financeira pode levar 7 ou 8 anos para atingir maturidade operacional e rentabilidade. Para boa parte das casas de crédito, assumir esse custo e esse risco simplesmente não oferece uma contrapartida suficientemente atraente. Por isso, depois de acompanhar de perto diferentes empresas desse mercado e participar da construção de uma agenda de imprensa que ajudou a tornar os FIDCs mais conhecidos fora da Faria Lima, não vejo a transformação desses fundos em bancos como um caminho natural.
Algumas casas, evidentemente, poderão seguir essa direção quando houver capital próprio, estratégia e escala suficientes, mas serão casos específicos, não uma consequência inevitável do crescimento. O mais provável é vermos gestores, originadores e estruturadores ampliando sua atuação dentro do próprio mercado de capitais, investindo em tecnologia, distribuição, análise de crédito e novas estruturas financeiras. FIDC e banco podem disputar ou ocupar espaços próximos no financiamento da economia, mas são negócios construídos sobre lógicas diferentes.
Crescer no crédito não significa querer ser banco. Para muitas dessas empresas, a grande vantagem está justamente em continuar fazendo aquilo que sabem fazer bem, sem assumir o peso tributário, regulatório e operacional de uma instituição bancária.
*Coluna escrita por Fabrizio Gueratto, especialista em investimentos com mais de 20 anos de experiência no mercado financeiro. Foi sócio do Banco Modal, é professor de MBA em Finanças, autor do livro “De Endividado a Bilionário”, fundador da Gueratto Press e criador do Canal 1Bilhão, que soma quase 21 milhões de visualizações no YouTube.
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