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Falha na educação limita produtividade e desperdiça talentos no Brasil

Em entrevista ao Manhattan Connection, João Batista de Oliveira afirma que o Brasil falha ao desenvolver capital humano, especialmente entre alunos da rede pública.

Redação BM&C NewsPor Redação BM&C News
15/06/2026

A educação brasileira permanece como um dos principais entraves estruturais ao crescimento do país. Em entrevista ao Manhattan Connection, o educador e psicólogo João Batista de Oliveira afirmou que o Brasil enfrenta dois problemas simultâneos: a baixa qualidade média do ensino e a incapacidade de desenvolver talentos de alto desempenho, especialmente entre estudantes da rede pública.

O diagnóstico ganha relevância em um momento em que a competitividade global depende cada vez mais de conhecimento, inovação, tecnologia e inteligência artificial. Para empresas, investidores e formuladores de políticas públicas, a formação de capital humano deixou de ser apenas uma pauta educacional e passou a influenciar diretamente produtividade, renda, inovação e capacidade de crescimento de longo prazo.

“O Brasil praticamente não evoluiu nesses séculos. Evolui um pouquinho no início do século, no setor privado, não no setor público. Então, ela está paralisada”, afirma João Batista de Oliveira.

Desempenho educacional mostra desigualdade persistente

Ao analisar os resultados brasileiros no PISA, avaliação internacional de educação, João Batista destacou que o país se mantém em um patamar baixo em matemática, ciências e linguagem. A defasagem aparece de forma mais intensa na escola pública, enquanto os alunos da rede privada se aproximam da média de países europeus.

Essa diferença revela uma desigualdade educacional que afeta a formação da força de trabalho e limita a mobilidade social. O problema não está apenas na média geral de aprendizagem, mas também na baixa presença de estudantes brasileiros entre os melhores desempenhos, grupo considerado essencial para atividades de maior complexidade.

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“Os alunos da escola pública estão desvio padrão, muita coisa abaixo da média dos países da Europa e os alunos da escola particular estão na média dos países da Europa, ou seja, a nossa elite é igual à média de outros países”, explica João Batista de Oliveira.

Talentos de alto desempenho ficam concentrados na rede privada

O ponto mais sensível da avaliação, segundo o especialista, está no topo da distribuição de desempenho. Em países industrializados, a parcela de estudantes nos níveis mais elevados do PISA costuma ser significativamente maior do que no Brasil. Em economias asiáticas, esse percentual é ainda mais expressivo, reforçando a relação entre educação, tecnologia e competitividade.

No caso brasileiro, a presença de alunos de alto desempenho é reduzida e concentrada quase integralmente nas escolas privadas. Como a maior parte da população está matriculada na rede pública, o país acaba desperdiçando potencial humano em larga escala, com efeitos diretos sobre inovação, renda e desenvolvimento.

“E no Brasil você tem um total de 4%. E no entanto, nesses 4%, 3,9 são de escolas privadas, ou seja, o aluno da escola pública ele só aparece”, destaca João Batista de Oliveira.

Educação, economia e produtividade

A relação entre educação e desenvolvimento econômico foi um dos pontos levantados durante a entrevista. Bruno Corano observou que não há experiência consistente de país rico e desenvolvido sem uma população educada, citando a importância da formação de base para elevar produtividade e sustentar crescimento.

A discussão também passou pelo analfabetismo funcional e pela necessidade de melhorar o nível médio da população, não apenas de formar uma elite intelectual. Para o especialista, a educação de qualidade é condição para que as pessoas aprendam uma ocupação, avancem na formação profissional e participem de atividades econômicas mais produtivas.

“Quando a gente fala de educação, sabidamente, do ponto de vista econômico, não existe uma nação que se desenvolva e seja rica sem um povo, uma população educada”, pontua Bruno Corano.

Nova economia exige formação de excelência

João Batista afirmou que a importância da educação para o crescimento já é consenso há décadas. A novidade, segundo ele, está na exigência adicional trazida pela nova economia, marcada por inteligência artificial, inovação disruptiva e tecnologias que demandam profissionais altamente qualificados.

Nesse ambiente, melhorar a educação básica continua sendo essencial, mas não suficiente. O país também precisa identificar e preparar estudantes no topo da distribuição de competências, capazes de atuar em áreas estratégicas como ciência, engenharia, tecnologia, pesquisa aplicada e empreendedorismo inovador.

“O que se sabe de novo é que se você quiser ser uma nação que dialoga no contexto moderno, da inteligência artificial, das novas tecnologias, dessa inovação disruptiva, ter uma quantidade, sobretudo um país grande que tem população grande, importante de pessoas do topo superior que estejam muito bem preparadas”, analisa João Batista de Oliveira.

Retenção de talentos depende de ecossistemas de inovação

A formação de talentos, porém, não se encerra na escola ou na universidade. Caio Blinder comparou o tema ao futebol brasileiro, em que jovens de alto potencial são desenvolvidos no país, mas acabam migrando para centros mais competitivos no exterior. A metáfora foi usada para discutir o risco de fuga de cérebros.

João Batista respondeu que o talento tende a buscar ambientes onde possa se desenvolver junto a outros profissionais qualificados. Por isso, além de formar indivíduos, o país precisa criar ecossistemas capazes de reter e atrair pessoas de alta capacidade, como universidades fortes, centros de pesquisa, polos tecnológicos e empresas inovadoras.

“Não adianta apenas desenvolver o indivíduo, mas tem que formar os clusters, os São José dos Campos, os ITAs da vida, as Embrapas da vida, que são as USPs, que vão agregar, estimular e dar condição de trabalho dessas pessoas”, acrescenta João Batista de Oliveira.

Desigualdade social bloqueia o desenvolvimento cognitivo

A entrevista também abordou o conceito de inteligência e os fatores que influenciam seu desenvolvimento. Felipe Moura Brasil questionou como a inteligência pode ser compreendida e desenvolvida, especialmente em um ambiente de debate público marcado por raciocínios binários e baixa capacidade de abstração.

João Batista explicou que a inteligência é um conceito estudado há mais de um século pela psicologia e que os instrumentos de mensuração são considerados robustos. Segundo ele, embora haja componente genético, o ambiente exerce papel decisivo para que o potencial cognitivo se desenvolva plenamente, especialmente nos primeiros anos de vida.

“São vários genes, ela é chamada poligênica, vários genes, metade do pai, metade da mãe, joga para cima, e essas centenas vão se misturar aleatoriamente”, observa João Batista de Oliveira.

Condições de vida influenciam capital humano

Para o especialista, crianças que crescem em ambientes com estímulo, segurança, estabilidade, diálogo familiar e acesso a livros têm mais condições de desenvolver plenamente seu potencial. Já contextos de pobreza, violência, falta de saneamento, privação de sono e baixa interação familiar criam barreiras que reduzem as oportunidades de aprendizagem.

Esse quadro ajuda a explicar por que o Brasil perde talentos antes mesmo que eles possam ser identificados pela escola. A desigualdade, nesse sentido, não apenas reproduz diferenças sociais, mas também limita a capacidade do país de formar profissionais preparados para atividades de maior valor agregado.

“Quando você tem diferenças sociais gigantescas no Brasil, a gente perde muito o talento, não porque ele não existe, mas porque não teve condição de se desenvolver”, ressalta João Batista de Oliveira.

Desafio brasileiro combina base educacional e excelência

O diagnóstico apresentado no programa indica que o Brasil precisa atuar em duas frentes. A primeira é elevar a qualidade média da educação, garantindo que mais estudantes aprendam o básico em linguagem, matemática e ciências. A segunda é criar mecanismos para desenvolver talentos de alto desempenho em todas as camadas sociais.

Sem essa combinação, o país tende a enfrentar dificuldades para aumentar produtividade, ampliar inovação e competir em setores mais sofisticados da economia global. A perda de capital humano, nesse contexto, se transforma em limitação estrutural para crescimento econômico, renda e inserção internacional.

Educação deve ser tratada como estratégia de desenvolvimento

Para investidores, empresários e gestores públicos, a mensagem central da entrevista é que educação não pode ser vista apenas como política social. Ela é uma variável econômica de longo prazo, com impacto direto sobre crescimento potencial, capacidade tecnológica, ambiente de negócios e atração de investimentos.

O avanço da inteligência artificial e das novas tecnologias torna esse desafio ainda mais urgente. Países capazes de formar, reter e conectar talentos a ecossistemas produtivos terão mais condições de liderar a próxima etapa da economia global. Para o Brasil, reduzir o desperdício de inteligência pode ser uma das decisões mais relevantes para destravar seu próprio desenvolvimento.

 

Foto: Reprodução BM&C NEWS

Foto: Reprodução BM&C NEWS

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