A produtividade industrial no Brasil voltou ao centro do debate econômico em um cenário global marcado pela reorganização das cadeias produtivas, pela disputa por investimentos e pela retomada da indústria como tema estratégico para Estados Unidos, China e União Europeia. No BM&C Talks, apresentado por Carlo Cauti, o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, afirmou que o país precisa transformar vantagens competitivas em capacidade real de produção, inovação e exportação.
Na avaliação do ministro, o Brasil reúne ativos relevantes, como energia renovável, recursos naturais e mercado interno, mas ainda enfrenta gargalos estruturais. Entre eles estão a desindustrialização acumulada, o baixo investimento em infraestrutura, o custo do capital, a burocracia e a necessidade de elevar a produtividade para competir em um ambiente internacional mais disputado.
“O Brasil se posiciona com uma grande vantagem competitiva. Eu gosto de destacar esse ponto, mas com um enorme dever de casa a ser feito”, afirma Márcio Elias Rosa.
Neoindustrialização busca recuperar espaço perdido pela indústria
Márcio Elias Rosa defendeu que o desafio brasileiro não é apenas recompor o parque fabril existente, mas construir uma nova base industrial alinhada às transformações tecnológicas e ambientais em curso. Segundo ele, o conceito de neoindustrialização parte do reconhecimento de que as cadeias globais mudaram e de que a indústria precisa incorporar inovação, sustentabilidade e inserção internacional.
O ministro afirmou que o país sofreu uma desindustrialização precoce e severa, com perda de participação da indústria no PIB e retração do mercado interno. Nesse contexto, políticas como a Nova Indústria Brasil, o PAC e a agenda de transição ecológica são apresentadas pelo governo como instrumentos para recuperar protagonismo industrial e ampliar investimentos.
“Não se trata somente de ter uma política industrial, no caso brasileiro, é preciso também recuperar o espaço perdido, é reindustrializar, uma expressão antiga, ou neoindustrializar, como nós gostamos de falar”, explica Márcio Elias Rosa.
Comércio exterior exige produtividade e competitividade
A reorganização do comércio internacional também foi um dos pontos centrais da entrevista. O ministro avaliou que o aumento de barreiras tarifárias e não tarifárias tem sido usado por grandes economias para proteger setores estratégicos, especialmente em um momento de perda de força da Organização Mundial do Comércio como instância de resolução de conflitos.
Para Márcio, o Brasil não deve seguir uma estratégia de fechamento comercial, mas precisa fortalecer sua indústria para vender mais ao exterior. A lógica, segundo ele, passa por integrar política industrial, comércio exterior, produtividade e sustentabilidade, de forma a evitar que o país permaneça dependente de uma indústria fragilizada e tecnologicamente defasada.
“Política industrial, comércio exterior, para que tenha acesso e competitividade no exterior, ela precisa ser produtiva”, observa Márcio Elias Rosa.
Nova Indústria Brasil tenta atrair confiança do setor privado
O ministro afirmou que a Nova Indústria Brasil foi estruturada em seis missões, envolvendo áreas como agroindústria, complexo econômico industrial da saúde, infraestrutura, transição digital, bioeconomia e defesa. Segundo ele, em quatro dessas missões o investimento privado já supera o investimento público, o que indicaria adesão empresarial à agenda.
Um dos exemplos citados foi o setor automotivo, por meio do programa Mover, voltado à mobilidade verde e sustentável. De acordo com Márcio Elias Rosa, os créditos tributários concedidos pelo governo buscam incentivar pesquisa, desenvolvimento, sustentabilidade e expansão da atividade industrial, sem substituir o papel do setor privado.
“A nova indústria Brasil, essa política que eu estou mencionando tanto, ela conseguiu atrair a confiança do empresariado”, destaca Márcio Elias Rosa.
Importações pressionam indústria de base no Brasil
Ao tratar da concorrência internacional, o ministro afirmou que setores como aço, siderurgia, química e automóveis estão entre os mais expostos aos surtos de importação. Ele citou a elevada capacidade produtiva asiática como fator de pressão sobre a indústria brasileira e defendeu o uso de instrumentos regulatórios para evitar práticas desleais de comércio.
Na avaliação de Márcio, o objetivo não é apenas elevar impostos sobre importações, mas estimular empresas estrangeiras a produzir no Brasil, gerar integração produtiva e ampliar conteúdo local. O ministro citou montadoras chinesas que passaram a se instalar no país como exemplo de uma estratégia que pode reduzir a dependência de produtos importados prontos.
“O melhor dos mundos é que esses players venham para produzir aqui no Brasil e daqui vender, por exemplo, para outros continentes”, pontua Márcio Elias Rosa.
Acordo Mercosul-União Europeia impõe choque de produtividade
O acordo entre Mercosul e União Europeia foi tratado como uma oportunidade relevante para ampliar mercados, mas também como um desafio competitivo para a indústria brasileira. Segundo o ministro, a integração entre os blocos pode ser transformadora, desde que o Brasil faça o dever de casa em produtividade, inovação, ambiente de negócios e capacidade de competir com produtos industriais europeus.
Márcio Elias Rosa afirmou que regras de transição foram incorporadas ao acordo para dar segurança a setores mais sensíveis, como o automotivo. Ainda assim, ele reconheceu que a abertura gradual exigirá coordenação entre Estado e setor privado para evitar perda de investimentos e garantir que a indústria brasileira consiga disputar espaço no novo mercado integrado.
“A indústria brasileira para que possa competir com de igual para igual no mercado europeu, vai ter que ter competitividade, vai ter que ter produtividade”, avalia Márcio Elias Rosa.
Brasil tenta equilibrar relações com China, EUA e novos blocos
Questionado sobre a disputa entre China e Estados Unidos, o ministro rejeitou a ideia de que o Brasil deva escolher um bloco em detrimento de outro. A posição defendida por ele é de multilateralismo, com ampliação de acordos comerciais e abertura de novos mercados, sem rompimento com parceiros estratégicos.
A síntese da entrevista indica que o desafio brasileiro vai além da recuperação industrial. O país precisa combinar produtividade, inovação, inserção internacional, segurança jurídica, sustentabilidade e formação de mão de obra para transformar potencial em competitividade real em um cenário global no qual a indústria voltou a ser sinônimo de poder econômico.

