Para os políticos de maneira geral, não importa se de esquerda ou de direita, o Estado sempre precisa estar à disposição para bancar suas necessidades. No âmbito federal, há limites para isso. Mas, em determinadas unidades da Federação, parece existir um vale-tudo quando se trata em gastar o dinheiro do governo nas assembleias estaduais.
Na Câmara Federal, há um limite de 25 funcionários por gabinete de cada representante. Mas, segundo levantamento feito pela “Folha de S. Paulo”, esta barreira é ultrapassada em vários casos na maioria das assembleias estaduais brasileiras. Das 26 assembleias existentes (vamos descartar a Câmara legislativa do Distrito Federal), apenas 18 possuem portais com total transparência sobre suas despesas. Dessas, 14 oferecem uma estrutura que ultrapassa os limites federais.
A campeã em gastos proporcionais é a casa legislativa de Goiás, 143 funcionários por deputado. Em seguida, temos a de Mato Grosso: 132 comissionados por parlamentar. Depois, temos Rondônia (93), Tocantins (82) e Rio de Janeiro (77). E São Paulo? A assembleia paulista respeita os limites estabelecidos pela Câmara Federal e tem 25 funcionários por deputado estadual.
Como diria Margareth Thatcher, não existe exatamente o chamado dinheiro público; o que temos, na verdade, são recursos dos contribuintes. Cada real mal administrado pelas autoridades é bancado por todos nós – até pelos sonegadores. Quem não paga imposto de renda acaba também contribuindo ao Estado através do consumo, pois os produtos embutem uma carga tributária enorme.
No caso de um litro de gasolina, paga-se 39% de impostos (um percentual semelhante incide sobre uma barra de chocolate). E cada vez que um cidadão abre uma garrafa ou uma lata de cerveja, está direcionando 56% da conta para os cofres públicos.
As assembleias legislativas que gastam além do razoável revelam um distanciamento profundo entre representantes e representados. Quando um único deputado conta com mais de uma centena de funcionários, o sinal é claro: a estrutura passou a funcionar como um mecanismo de autopreservação política. A máquina cresce por conveniência de quem a controla, criando feudos internos e redes de influência sustentadas pelo contribuinte.
Esse padrão de excessos também indica uma cultura institucional que normaliza desperdícios. Em vez de buscar eficiência, muitas casas legislativas parecem empenhadas em ampliar seus próprios privilégios, como se o orçamento fosse um recurso infinito. A falta de critérios rígidos e de fiscalização efetiva abre espaço para salários inflados, cargos de confiança distribuídos sem transparência e estruturas que se expandem sem justificativa técnica. O resultado é um ambiente no qual a responsabilidade fiscal se torna secundária.
A consequência desse comportamento é a erosão da confiança pública. Quando o cidadão percebe que paga impostos elevados sobre itens básicos e de consumo cotidiano, mas vê parte desse dinheiro sendo absorvida por estruturas inchadas, cresce a sensação de injustiça. A percepção de que o sacrifício individual financia luxos institucionais alimenta o descrédito nas instituições e reforça a ideia de que a política opera em um universo próprio, alheio às limitações enfrentadas pela população.
*Coluna escrita por Aluizio Falcão Filho, é jornalista, articulista e publisher do portal Money Report. Foi diretor de redação da revista Época e diretor editorial da Editora Globo, com passagens por veículos como Veja, Gazeta Mercantil, Forbes e a vice-presidência no Brasil da agência de publicidade Grey Worldwide
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