Uma das teses difundidas no bolsonarismo é a de que os “isentões” (ou eleitores de centro considerados independentes) são, na verdade, esquerdistas disfarçados de imparciais. Qualquer generalização é ruim. Mas, de acordo com a última pesquisa Datafolha, percebe-se que essa teoria, em parte, é verdadeira.
Entre os eleitores centristas, 29% declaram voto no presidente Luiz Inácio Lula da Silva (20% em Flávio Bolsonaro). Na sequência, este grupo divide suas preferências entre Ronaldo Caiado (6%), Augusto Cury (6%), Renan Santos (5%) e Romeu Zema (4%). Ou seja, 70% já decidiram seus candidatos. Os demais 30% dividem-se entre candidatos menores, nulos, brancos e indecisos.
O maior naco de eleitores que se declaram de centro, no entanto, deve votar em Lula, embora não configure a maioria numérica deste grupo. Somando as intenções de votos dos oposicionistas, temos 41%, índice bem superior ao obtido por Lula. A dúvida é: em outubro, em um segundo turno, todos estes eleitores escolherão um opositor como Flávio Bolsonaro? Lembremos que a candidatura do senador está (pelo menos no momento atual) chamuscada pelo chamado caso “Dark Horse”, que mostrou uma proximidade entre o ele e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro?
Em tese, um índice superior a 70% deste eleitorado não está a favor de Lula, o que pode dar a vitória à oposição. O problema será o grau de desapontamento com o nome que irá ao segundo turno para disputar o Planalto. Estamos falando de um tipo de eleitor que não tem dor na consciência ao marcar “nulo” e “branco” – ou simplesmente não comparecer às urnas. Em 2022, esses indivíduos somaram 24,2% do eleitorado, ou quase 38 milhões de votos. A título de comparação, Jair Bolsonaro obteve 58,2 milhões de sufrágios e Lula, 60,3 milhões.
Flávio Bolsonaro terá de fazer um grande esforço para se conectar com esse eleitorado. E elevar o nível de pragmatismo destes cidadãos. Eles querem se livrar de Lula, mas querem distância dos bolsonaristas. O nível de agressividade utilizado pelos extremistas (de direita e de esquerda) nas redes é alto demais. Por isso, a rejeição não é somente ao que foi revelado no episódio “Dark Horse”, mas também ao grupo que apoia do filho do ex-presidente.
Os próximos meses serão decisivos para entender se essa camada de eleitores que rejeita a polarização continuará disperso ou se encontrará algum ponto de convergência. Muitos desses cidadãos se afastaram da política tradicional por fadiga, descrença ou repulsa ao tom agressivo que domina o debate público. Para reconquistá‑los, será necessário apresentar sinais claros de moderação, compromisso institucional e capacidade de diálogo. Esse eleitor não responde bem a discursos inflamados e geralmente se afasta quando se sente pressionado a escolher um lado que não o representa. A movimentação desse segmento pode redefinir o equilíbrio da disputa, especialmente se algum candidato conseguir traduzir esse sentimento difuso em uma narrativa mais racional e menos emocional.
Flávio Bolsonaro, se quiser recuperar terreno entre esses eleitores, terá de demonstrar que compreende esse cansaço e que está disposto a adotar uma postura menos reativa. A construção desta confiança passa por transparência, distanciamento de figuras que geram ruído e apresentação de propostas que dialoguem com preocupações práticas, como economia, segurança e estabilidade institucional.
Esse eleitorado observa mais atitudes do que slogans e valoriza sinais de responsabilidade política. Se Flávio conseguir transmitir serenidade e previsibilidade, pode reduzir resistências e abrir espaço para uma reaproximação gradual. Caso contrário, esse grupo continuará a buscar alternativas ou permanecerá na zona do desencanto, na qual votos nulos, brancos e abstenções se tornam opções confortáveis.
*Coluna escrita por Aluizio Falcão Filho, é jornalista, articulista e publisher do portal Money Report. Foi diretor de redação da revista Época e diretor editorial da Editora Globo, com passagens por veículos como Veja, Gazeta Mercantil, Forbes e a vice-presidência no Brasil da agência de publicidade Grey Worldwide
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